Específicos · Gestão em TI
Kanban: fluxo, limite de WIP, sistema puxado, lead time × cycle time × vazão
O trabalho é puxado pela capacidade livre, nunca empurrado pelo plano — e o limite de WIP é o mecanismo. Metade dos itens errados do tópico importa alguma peça do Scrum para dentro do Kanban.
Média28 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
O Kanban não é um processo de desenvolvimento. Ele não diz como se constrói software, não define papéis, não marca reuniões e não pede estimativa. O que ele faz é governar o andamento do trabalho que já existe — e por isso cabe em desenvolvimento, em sustentação, em um cartório e em uma linha de montagem, que foi onde nasceu, no sistema de produção da Toyota.
A ideia que organiza o assunto inteiro é uma só: o trabalho é puxado pela capacidade disponível, nunca empurrado pelo plano. Um item novo só começa quando alguma coisa terminou e abriu vaga. Não é o cronograma que autoriza o início; é a saída do item anterior.
E essa ideia tem um mecanismo, um só, que é onde mora a maior parte das questões: o limite de trabalho em progresso (WIP). O limite é o número máximo de itens que podem estar simultaneamente em uma etapa. Enquanto a etapa está no limite, nada entra. Quando um item sai, abre-se uma vaga e o próximo é puxado. Sem limite, o quadro é apenas um mural bonito de tarefas e o trabalho continua sendo empurrado.
Guardado isso, quase tudo se deriva:
- Por que o Kanban não tem sprint. Iteração é um lote de tempo com escopo comprometido, e lote é a forma empurrada de organizar trabalho. O Kanban trabalha item a item, em fluxo contínuo.
- Por que o limite revela o gargalo. Quando a etapa enche e para de puxar, a fila se forma imediatamente antes dela. O acúmulo aponta a restrição sem que ninguém precise procurá-la.
- Por que menos trabalho em progresso entrega mais rápido. Mantida a capacidade, o tempo que cada item leva para atravessar o fluxo é proporcional à quantidade de itens em progresso: o que está na frente na fila atrasa o que vem atrás. É a Lei de Little, tempo de atravessamento igual a trabalho em progresso dividido por vazão. Começar mais coisas ao mesmo tempo não acelera nada — apenas distribui o atraso.
Vale dizer desde já o que a medição mostra: a Lei de Little não é citada por nenhum item do corpus, e as palavras throughput e vazão também não aparecem nenhuma vez em 16.161 itens. A aritmética não cai; ela serve para você não errar os itens que caem.
Por que se usa (e o que custa)
Ganha-se três coisas. Adoção sem reorganização: o Kanban começa com o processo que a equipe já tem, com os cargos que já existem, e não exige redesenhar nada para começar — o que o torna adotável onde uma transição para Scrum seria briga política. Visibilidade imediata: o quadro mostra onde cada item está e onde o trabalho trava, e isso é informação que a equipe não tinha. Fluxo mais curto: com menos itens abertos ao mesmo tempo, cai a troca de contexto e cai o tempo de entrega de cada item.
Paga-se em dois lugares, e os dois costumam ser subestimados.
Perde-se o compromisso de escopo por período. No Scrum, a sprint fecha um conjunto de itens e a equipe se compromete com uma meta. O Kanban não fecha nada: a previsibilidade, quando existe, vem de estatística — a distribuição histórica do lead time, que permite dizer que 85% dos itens saem em até tantos dias. Quem precisa de data com compromisso não tira isso do quadro.
Depende inteiramente de disciplina. O limite de WIP só funciona se for respeitado quando incomoda, que é exatamente quando alguém pede para “só encaixar mais um”. Um quadro com colunas e sem limite, ou com limite que se viola toda semana, não é sistema puxado: é o mesmo trabalho empurrado, agora com cartão colorido.
Como funciona
As práticas. O método se define por um conjunto pequeno de práticas, e a ordem entre as duas primeiras importa para a prova:
- Visualizar o fluxo — montar o quadro que representa as etapas reais pelas quais o trabalho passa hoje, com um cartão por item. É a primeira prática, e é pré-requisito das outras: não se limita nem se gerencia o que não se enxerga.
- Limitar o trabalho em progresso — pôr um teto por etapa. Os limites são introduzidos gradualmente e ajustados conforme o fluxo é compreendido, não decretados de uma vez em todas as colunas.
- Gerenciar o fluxo — observar filas, acúmulos e tempos, e agir sobre a restrição. É atividade permanente, porque o gargalo se desloca: resolvido o acúmulo em uma etapa, a restrição migra para outra.
- Tornar as políticas explícitas — o critério para um cartão passar de uma coluna à seguinte tem de estar escrito no quadro.
- Implementar laços de feedback — reuniões curtas diante do quadro, revisões de fluxo, medição.
- Melhorar de forma colaborativa e evoluir experimentalmente.
Os princípios de gestão da mudança explicam por que o Kanban se adota sem trauma: comece com o que você faz agora; concorde em buscar mudança incremental e evolutiva; respeite o processo, os papéis e os cargos atuais; estimule a liderança em todos os níveis. Ruptura, reorganização e mudança ousada são o contrário do método.
Os relógios. Três medidas de tempo são parecidas e contam coisas diferentes, e é aí que a banca trabalha.
- Lead time — do pedido do cliente até a entrega. Inclui toda a espera, inclusive o tempo em que o item ficou parado na fila antes de alguém encostar nele. É a medida que o cliente sente.
- Cycle time — do início efetivo do trabalho até a conclusão. É sempre menor ou igual ao lead time, e é medida de item terminado.
- Idade do item de trabalho (work item age) — do início até agora, e só existe para o que ainda está em progresso. Serve para achar o cartão esquecido no quadro.
E duas medidas que não são de tempo: o WIP, contagem instantânea de itens em progresso, e a vazão (throughput), quantidade de itens concluídos por período. Estoque e taxa, respectivamente — confundir os dois é distorção registrada no corpus.
O gráfico. O Kanban acompanha desempenho pelo diagrama de fluxo cumulativo, que empilha a quantidade de itens em cada etapa ao longo do tempo — a largura horizontal de uma faixa é o tempo de atravessamento, e a vertical é o WIP. Burndown e velocidade pressupõem sprint, e portanto são do Scrum.
O que decide os itens
Kanban × Scrum. É a fronteira que decide mais itens do que qualquer outra coisa neste tópico.
| Scrum | Kanban | |
|---|---|---|
| unidade de tempo | sprint, timebox fixo de um mês ou menos | nenhuma; fluxo contínuo |
| papéis | product owner, scrum master, desenvolvedores | não prescreve papel algum |
| compromisso | meta da sprint, escopo fechado no período | nenhum; o item flui quando há capacidade |
| entrada de trabalho | planejamento da sprint | limite de WIP: entra quando abre vaga |
| estimativa | prevista (pontos, velocidade) | não prescrita |
| métrica típica | burndown, velocidade | fluxo cumulativo, lead time, cycle time, vazão |
| mudança no meio | restrita durante a sprint | qualquer item pode ser repriorizado antes de entrar |
Os dois não são excludentes: sobrepor o quadro e o limite de WIP ao Scrum tem nome, Scrumban, e a banca trata a combinação como correta. O que ela nunca aceita é o caminho inverso — importar sprint, burndown ou papel do Scrum para dentro do Kanban.
Os três relógios e as duas contagens.
| medida | começa | termina | vale para |
|---|---|---|---|
| lead time | pedido do cliente | entrega | itens concluídos |
| cycle time | início efetivo do trabalho | conclusão | itens concluídos |
| idade do item | início efetivo do trabalho | agora | itens ainda em progresso |
| WIP | — | — | contagem em um instante |
| vazão | — | — | itens concluídos por período |
Puxado × empurrado. Puxado: a etapa seguinte, ao liberar capacidade, autoriza a anterior a entregar-lhe trabalho. Empurrado: a etapa anterior produz conforme o plano e despeja o resultado na seguinte, formando estoque. O limite de WIP é o que implementa o puxado; o desperdício que ele evita é a superprodução.
O que o limite de WIP é e o que não é.
| é | não é |
|---|---|
| teto de itens simultâneos por etapa | obrigação de concluir tudo antes de iniciar algo |
| introduzido gradualmente, etapa a etapa | decretado em todas as colunas desde o primeiro dia |
| o mecanismo que faz o gargalo aparecer | medida isolada, sem efeito sobre gargalo e melhoria |
| prática obrigatória do método | prática opcional, dispensável no quadro simples |
O quadro. Três colunas — a fazer, fazendo, feito — são o ponto de partida clássico, não um limite: o quadro deve espelhar o fluxo real, quantas etapas ele tiver.
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Os 28 itens deste tópico estão explicados: 14 Certos e 14 Errados. Entre os errados, quatro padrões, e o primeiro sozinho responde por mais de um terço.
Importar peça do Scrum para dentro do Kanban — 5 de 14, o mais frequente. A banca cola no Kanban aquilo que só o Scrum tem. “O Kanban e o Scrum utilizam sprints” — sprint é evento exclusivo do Scrum; o que regula a entrada de trabalho no Kanban é o limite de WIP. “devem utilizar o gráfico de Burndown”, dito de uma equipe que adotou Kanban — burndown mede o escopo restante de uma iteração, e sem iteração ele não tem eixo. O movimento também aparece do lado do Scrum, deformando o que é sprint: “Sprint é uma lista de requisitos organizados por funcionalidades priorizadas” (isso é o backlog do produto; sprint é o timebox) e “é executado em sala fechada e tem duração indeterminada” (o item chama a sprint de timeboxed e em seguida lhe tira a duração fixa). E, no limite, a própria natureza do método: “metodologia ágil para desenvolvimento de software” — o Kanban é método de gestão de fluxo, aplicável a qualquer trabalho, e não prescreve como se produz coisa alguma. A defesa é mecânica: sublinhe no item toda palavra do vocabulário do Scrum — sprint, burndown, velocidade, product owner, scrum master, planning, retrospectiva — e verifique a quem ela está sendo atribuída.
Deformar o limite de WIP — 4 de 14. É a prática mais cobrada do tópico e a mais adulterada. “As tarefas em andamento devem ser concluídas antes de se iniciarem novas tarefas” — o limite restringe quantidade simultânea, não sequência: havendo vaga dentro do limite, o próximo item entra. “sem impactar outros aspectos, como a identificação de gargalos e a melhoria contínua do fluxo de trabalho” — isola o limite do seu efeito principal, que é justamente fazer o gargalo aparecer. “postergando-se a visualização do fluxo para evitar interferências prematuras”, no mesmo item que exige limites “em todas as etapas do fluxo de trabalho desde o início” — as duas práticas na ordem invertida: visualiza-se primeiro, limita-se depois e gradualmente. E “em determinado período de tempo”, dito do WIP — troca estoque por taxa; quantidade por período é vazão. Antes de julgar qualquer item de limite, responda três perguntas: o limite é sobre quantidade ou sobre ordem? ele aparece antes ou depois da visualização? e o que o item diz que ele não afeta?
Fazer o Kanban prescrever ou romper — 3 de 14. “na busca por grandes mudanças consideradas ousadas em grandes projetos” — o princípio é o oposto: mudança incremental e evolutiva, respeitando processo e cargos atuais. “não podem ser utilizadas simultaneamente em um mesmo projeto ou no desenvolvimento de um mesmo produto” — premissa verdadeira (são distintos) com conclusão inventada (logo, excludentes); distinção não produz incompatibilidade. “não podendo ser representado por tarefas técnicas” — um formato recomendado, a história de usuário, transformado em regra exclusiva. Em ágil, formato é prática, não norma.
Trocar o relógio — 2 de 14. “até o momento atual, aplicando-se apenas aos itens que ainda estejam em WIP”, dito do cycle time — essa é a idade do item de trabalho; cycle time é de item concluído. E “é o tempo transcorrido na codificação dos componentes dessa história”, dito do lead time — que conta desde o pedido do cliente e engloba toda a espera. Localize onde o relógio começa e onde ele para antes de aceitar o nome que o item lhe dá.
Sobre a modalidade do verbo. O prior medido em outros tópicos de TI — o permissivo é Certo, o restritivo é Errado — vale aqui em uma só direção. Nenhum dos 14 Certos é derrubado por descrever capacidade: “permite gerenciar”, “pode mudar”, “podem surgir” abrem itens corretos, e nenhum item errado é permissivo. Do outro lado, 6 dos 14 errados carregam um absoluto do próprio redator (apenas, somente, não podem, não podendo, devem ser concluídas, em todas as etapas). Mas a exceção é decisiva e é a de sempre — de quem é o absoluto? “é necessário que se estabeleça limites de trabalhos em andamento” é Certo: a exigência é do método, não do item. Do mesmo modo, “o Kanban não prescreve interações com metas pré-definidas” é Certo: negar prescrição ao Kanban é descrevê-lo corretamente. E cuidado com o inverso: 8 dos 14 errados não têm absoluto nenhum — são descrições lisas e simplesmente falsas, como “Kanban é uma metodologia ágil para desenvolvimento de software”. Neste tópico, a gramática ajuda; o conteúdo decide.
Erros clássicos
Achar que limite de WIP é fila de um. Limite três significa até três itens simultâneos, não um de cada vez nem esvaziar a coluna antes de puxar o próximo.
Confundir lead time com cycle time. O lead time é a experiência do cliente e começa no pedido; o cycle time começa quando alguém efetivamente pega o item. Todo lead time contém um cycle time.
Medir o Kanban com régua de Scrum. Burndown e velocidade precisam de sprint. No Kanban, mede-se fluxo cumulativo, lead time, cycle time e vazão.
Tratar Kanban e Scrum como incompatíveis. A distinção entre os dois é real e cai muito; a incompatibilidade é invenção do item.
Chamar Kanban de metodologia de desenvolvimento. A banca aceita técnica, ferramenta, método e sistema de gestão do fluxo, e recusa metodologia de desenvolvimento de software — o Kanban não diz como se produz nada.
Achar que o gargalo se resolve de uma vez. Ele se desloca: tratada uma restrição, outra assume o posto. Por isso gerenciar o fluxo é prática contínua.
Montar o quadro e parar aí. Quadro sem limite de WIP e sem políticas explícitas de passagem entre colunas não implementa sistema puxado; é mural de tarefas.
LidoPraticado