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Crase — regra geral e casos proibidos
Crase é a soma de duas coisas. Ela só existe quando as duas estão lá — e todo item de prova esconde qual das duas está faltando.
Altíssima75 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Crase é a fusão de dois “a” que se encontraram: a preposição a, exigida por
um verbo ou por um nome, e o artigo definido feminino a(s) que acompanha a
palavra seguinte. O acento grave não é enfeite nem marca de tonicidade — é o
sinal gráfico de que essa fusão aconteceu.
Daí decorre tudo, e decorre uma regra só: se crase é a soma de duas coisas, ela só existe quando as duas estão presentes. Falta uma, não há crase. Não há exceção a isso.
Praticamente todo item de prova é uma tentativa de esconder qual das duas está faltando. Quem lê o item procurando “tem acento ou não tem” erra; quem lê procurando “o termo anterior exige preposição? a palavra seguinte aceita artigo?” acerta.
Como funciona
São duas perguntas, sempre nessa ordem.
O termo anterior exige a preposição a? Quem responde é a regência.
Assistir no sentido de ver pede (assisti à sessão); no sentido de auxiliar,
não. Obedecer, referir-se, dirigir-se, visar (ter por objetivo) pedem.
Ver, conhecer, fazer não pedem nada.
A palavra seguinte aceita o artigo a(s)? Aqui entram os dois testes que
resolvem a maior parte dos itens.
Troque a palavra feminina por uma masculina equivalente. Se o resultado natural
for ao, havia crase; se for apenas a ou o, não havia.
Assisti à sessão → assisti ao filme. Crase.
Conheço a diretora → conheço o diretor. Sem crase.
Troque a preposição a por para. Se sair para a, o artigo existe; se sair
só para, não existe.
Vou à feira → vou para a feira. Crase.
Vou a Brasília → vou para Brasília. Sem crase.
O segundo teste é o que resolve nomes de lugar, onde a intuição falha. Vale também na forma abreviada: venho da Bahia (logo, vou à Bahia), venho de Brasília (logo, vou a Brasília).
Três casos não passam por essas perguntas porque já vêm prontos: as locuções
femininas (às pressas, à noite, à medida que, à procura de), a contração
com aquele, aquela, aquilo (refiro-me àquele processo) e a qual, as quais quando o verbo pede preposição.
O que decide os itens
Proibido — todos os casos decorrem de faltar o artigo:
| não há crase antes de | exemplo |
|---|---|
| palavra masculina | andar a cavalo, pagamento a prazo |
| verbo | começou a chover |
| pronome pessoal e de tratamento | entreguei a ela, dirijo-me a Vossa Senhoria |
| artigo indefinido | referiu-se a uma norma |
| palavras repetidas | dia a dia, cara a cara, gota a gota |
plural, com o a no singular | referiu-se a normas federais |
Facultativo — o terreno favorito da banca, porque admite as duas grafias: antes de nome próprio feminino (refiro-me a/à Paula), antes de pronome possessivo feminino (obedeço a/à minha consciência) e depois de até (fui até a/à porta).
Obrigatório mesmo sem artigo — as locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas femininas: às pressas, à vista, à noite, à procura de, à medida que, à proporção que.
Pares que a banca opõe — à distância × a distância (pela norma clássica o acento só com determinante: à distância de dez metros), e à medida que (proporção) × na medida em que (causa).
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Chamar de facultativo o acento que é obrigatório — ou o que é proibido. É mais da metade dos itens errados do tópico, e a fórmula se repete quase palavra por palavra: “É facultativo o emprego do sinal indicativo de crase”, “seu emprego é facultativo nesse caso”, “é facultativo, ou seja, a sua retirada não prejudicaria a correção gramatical”, “visto que o emprego desse sinal é optativo nesse caso”. O que o item oferece é uma terceira via que não existe. Facultativo é um território pequeno e fechado — nome próprio feminino, possessivo feminino e depois de até. Fora dele não há meio-termo: ou as duas condições estão presentes e o acento é obrigatório, ou uma delas falta e o acento é erro.
As duas pontas caem com a mesma frequência. Em à hora da passagem do ano, em apego à falível ideia e em intolerância à presença desse tipo de açúcar o acento está impresso e não pode sair: o substantivo vem determinado por um especificador, e artigo determinado não se dispensa — retirá-lo produz erro, não uma segunda grafia. Em a partir de, acesso a elas, atrelado a apenas uma língua, expor empresas a riscos substanciais e perante a sociedade o acento não pode entrar: falta a preposição, ou falta o artigo. Defesa: nunca responda “facultativo” por impressão. Pergunte primeiro se o caso é um dos três; não sendo, a resposta só pode ser obrigatória ou proibida, e o item que disser facultativo, optativo ou a retirada não prejudicaria já está errado antes de você conferir o resto.
Propor uma reescrita e mentir sobre o resultado. Um quarto dos itens. O enunciado sugere inserir ou retirar o acento e afirma que “manteria a correção gramatical do texto”, que “estaria mantida a correção gramatical” ou que a mudança “não acarretaria prejuízo à correção gramatical do texto”. O que a reescrita esconde é quase sempre a troca de um determinante ou de um número: “à eles”, com pronome pessoal, que não aceita artigo; “à despeito da”, com substantivo masculino dentro da locução; à condições de risco e à futuras meninas cientistas, um a singular diante de plural sem artigo, quando a forma com artigo seria às; chegaram a uma conclusão, em que o indefinido ocupa o lugar do definido. A jogada também vem invertida: em acesso a água potável segura e em ligados a tecnologia o substantivo é genérico, o artigo é dispensável e as duas grafias valem — o item que afirmar que a inserção prejudicaria a correção está errado. Defesa: não julgue a forma proposta de relance; refaça as duas perguntas sobre a frase já reescrita, conferindo o que mudou de determinante e o que mudou de número.
Acertar o acento e errar quem pede a preposição. Um em cada dez. O item mantém a crase correta e justifica-a com o termo errado — “pela regência do termo ‘apressado’”, “pela regência do termo ‘prazerosa’”, “pela regência do termo ‘subjetivo’”, “a regência do verbo ‘ver’” — ou inventa o mecanismo, dizendo que o acento está “em uma locução adverbial de modo” onde há apenas particípio mais artigo. Em todos, quem rege é o substantivo ou o verbo da construção — lançar um olhar a, direito a, preferir uma coisa a outra —, e o adjetivo apenas qualifica. Defesa: quando o item explicar por que o acento está lá, refaça a pergunta da regência sobre o termo que ele aponta; adjetivo adjunto não rege nada, e verbo transitivo direto como ver tampouco.
Inventar uma causa para o acento. O item enuncia uma razão de aparência técnica: o acento caberia “devido à presença do numeral cardinal”, ou por “a flexão da palavra ‘novas’ no feminino”, ou “em razão da presença do pronome ‘essa’”. Em cada caso o fato alegado é exatamente o que impede a fusão. Numeral e percentual não admitem artigo; gênero feminino nunca produz artigo por si; e essa, esta e aquela não aceitam artigo diante de si — só a série aquele, aquela, aquilo se contrai com a preposição. Defesa: causa apresentada por devido a, em razão de ou pela presença de é para ser conferida contra as duas condições, nunca aceita pela forma.
Erros clássicos
Tratar o acento como tonicidade. Crase não tem nada a ver com sílaba forte.
Acentuar antes de verbo. Começou à chover é o erro mais frequente da disciplina inteira. Verbo não aceita artigo; sem artigo, nada a fundir.
Esquecer que a singular não cabe em plural. Referiu-se a normas não leva
acento; referiu-se às normas leva. O que muda não é a palavra seguinte, é a
presença do artigo.
Aplicar o teste do masculino sem trocar de verdade. Tem de ser uma palavra masculina equivalente que caiba na mesma frase — filme, evento, encontro.
Confundir à medida que com na medida em que. A primeira marca proporção;
a segunda, causa. A medida que, sem acento, praticamente só existe quando
medida é substantivo — a medida que o órgão adotou.
LidoPraticado