Básicos · Lógica e Estatística · Raciocínio lógico
Argumentação: validade × verdade; dedução, indução, analogia
Validade é propriedade da forma. Pergunte apenas se a conclusão poderia ser falsa com todas as premissas verdadeiras — o conteúdo nunca decide.
Alta43 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Um argumento não é uma opinião bem escrita, nem uma tese importante, nem uma frase verdadeira. É um par: um conjunto de premissas oferecido como razão para aceitar uma conclusão. Sem esse par não há argumento — e, não havendo argumento, perguntar se ele é válido não faz sentido.
Definido o par, a única pergunta que a lógica faz é esta:
É possível que todas as premissas sejam verdadeiras e a conclusão, falsa?
Se for possível, o argumento é inválido. Se não for, é válido. Repare no que ficou de fora: se as premissas são de fato verdadeiras, se a conclusão é razoável, se a tese é importante, se o autor tem boas intenções. Nada disso entra na conta. Um argumento sobre o Porto de Itaqui estar na Ilha de Marajó e Marajó estar em São Paulo é válido — e foi cobrado exatamente assim, com gabarito Certo.
Essa é a ideia que organiza o assunto inteiro, e é a que a banca ataca de frente. Dos 43 itens deste tópico, 17 afirmam que um argumento é válido. Em cinco deles a afirmação vem acompanhada de uma justificativa de conteúdo — é válido, pois enfatiza a importância do setor, é válida, pois se baseia no aumento da produtividade — e os cinco são Errados. A justificativa fala do mérito da tese; validade fala da forma. São coisas de departamentos diferentes.
Como funciona
Achar o par. A conclusão nem sempre vem por último. Dois grupos de marcadores resolvem isso:
- apontam para a conclusão: logo, portanto, assim, então, conclui-se, consequentemente;
- apontam para a premissa: pois, porque, já que, uma vez que, dado que, visto que.
Em “Todos os professores moram em Itabaiana, pois os professores são heróis; … e heróis sempre visitam a Europa”, a conclusão é a primeira oração — tudo o que vem depois do pois é premissa. A banca cobrou esse deslocamento como item autônomo, chamando uma premissa de conclusão.
Validade, verdade e solidez são três coisas. Verdade é propriedade de proposições isoladas; validade, da relação entre elas; solidez, das duas juntas.
| premissas | conclusão | o argumento pode ser válido? |
|---|---|---|
| verdadeiras | verdadeira | sim |
| falsas | falsa | sim |
| falsas | verdadeira | sim |
| verdadeiras | falsa | nunca |
A terceira e a quarta linhas são o tópico inteiro. Argumento válido com premissas falsas existe e é comum nas provas; argumento com premissas verdadeiras e conclusão falsa é, por definição, inválido. Só quando o argumento é válido e as premissas são verdadeiras ele é sólido — e só então a conclusão está garantida como verdadeira.
Daí decorre o corolário mais cobrado: de “o argumento é válido” não se extrai “a conclusão é verdadeira”. Validade transmite verdade, não a produz. Se ninguém afirmou as premissas, a conclusão continua em aberto.
Os três modos de raciocinar. A diferença é de direção, não de assunto:
| vai de | para | a conclusão é | |
|---|---|---|---|
| dedução | geral / premissas | caso particular | garantida |
| indução | casos observados | regra ou previsão | provável |
| abdução | um fato dado | a causa que o explicaria | plausível |
Não acho o livro na estante, logo alguém o pegou: parte-se de um fato e inventa-se a melhor explicação — abdução. João e Maria têm cabelo preto, logo os filhos terão: parte-se de casos observados e projeta-se — indução. Os dois foram cobrados com o rótulo trocado um pelo outro.
Formas válidas que se reconhecem de olho:
- Modus ponens — se A então B; A; logo B.
- Modus tollens — se A então B; não B; logo não A.
- Silogismo hipotético — A→B; B→C; C→D; logo A→D. Cadeia de condicionais.
- Prova por casos — duas alternativas que esgotam o cenário levando à mesma consequência.
- Antecedente falso — se as premissas permitem negar o antecedente da conclusão condicional, essa conclusão é verdadeira por vacuidade, e o argumento é válido sem que nada tenha de ser derivado.
Formas inválidas que a banca repete:
- Afirmação do consequente — se chove, alaga; alagou; logo choveu. A rua pode alagar por cano rompido.
- Negação do antecedente — se o parecer é favorável, há termo de aprovação; não é favorável; logo não há termo. Nada impede o termo por outra via.
- Conversão da universal — todo funcionário do setor virá de branco; João não é do setor; logo não virá de branco. “Todo A é B” não é “somente A é B”.
- Quantificador diluído — a maioria dos bons funcionários recebe bônus; Ivete é boa funcionária; logo recebe bônus. “A maioria” não fecha dedução.
As falácias informais não erram a forma: erram a natureza da razão oferecida.
O que decide os itens
| se o item diz | verifique primeiro |
|---|---|
| é válido, pois [razão de conteúdo] | a justificativa fala de mérito, não de forma — Errado nos 5 casos do corpus |
| é válido (bloco P1…Pn) | monte a forma; 6 Certos e 6 Errados, não há atalho |
| logo a conclusão é verdadeira | validade só transmite verdade; as premissas foram afirmadas? |
| é a conclusão desse argumento | localize o pois; o que vem depois é premissa |
| raciocínio indutivo / abdutivo | a direção: projeta a partir de casos (indução) ou explica um fato (abdução) |
| generalização apressada | o salto foi de poucos casos para uma regra, ou de sucessão para causa (falsa causa)? |
| falácia de apelo à X | o apelo está na fala mais racional do diálogo? então Errado |
| utiliza o senso crítico | pediu dados, critérios ou análise mais ampla? 3 de 3 Certos |
| há conteúdo implícito | negue a frase; o que sobrevive é pressuposto — 2 de 2 Certos |
| uma sentença sem logo nem pois | não é argumento; não pode ser válido nem inválido |
As falácias informais cobradas, com o gatilho verbal de cada uma:
| falácia | reconhece-se por |
|---|---|
| apelo à consequência | se não fizermos X, acontecerá algo ruim; logo X |
| falsa dicotomia | a única solução viável, ou isso ou aquilo |
| apelo à ignorância | não existe nada que prove o contrário, nunca ouvi falar |
| apelo ao povo | todo mundo diz, são unânimes, são muitos |
| apelo à piedade / ao esforço | a razão fala do autor (trabalhou com afinco), não do objeto |
| argumento contra o homem | a razão ataca quem fala, não o que foi dito |
| falsa causa | de veio depois conclui-se foi por causa |
| generalização apressada | de poucos casos conclui-se a regra para todos |
| generalização indevida na conclusão | em todos os aspectos, quando as premissas cobrem dois |
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Medido sobre os 43 itens do tópico: 22 Certos e 21 Errados.
O erro mais frequente é inverter uma relação — 6 dos 21 itens errados (29%). Inverte-se a condicional (“é válido” para um argumento que afirma o consequente ou nega o antecedente), inverte-se o papel das proposições (“é a conclusão desse argumento” sobre uma premissa), inverte-se a direção de um elogio (“a fala de B é desfavorável a Felipe”, quando B diz que Felipe é o mais forte). A defesa é sempre a mesma: escreva a forma antes de julgar. Condicional corre em dois sentidos apenas — antecedente confirmado entrega o consequente, consequente negado entrega a negação do antecedente. Qualquer outro movimento é falácia.
Depois vem a troca de rótulo — 4 itens (19%). A banca conta um raciocínio correto e lhe dá o nome errado: “com base no raciocínio indutivo” onde é abdutivo, “de natureza abdutiva” onde é indutivo, “uma falácia denominada generalização apressada” onde é falsa causa, “apresenta um argumento válido” onde não há argumento nenhum, apenas uma enumeração. Nenhum desses itens erra sobre os fatos do texto: erra na palavra que os classifica. Leia o rótulo por último e decida qual você daria antes de ver o que o item deu.
Em seguida, atribuir a falácia à pessoa errada — 4 itens (19%). Três deles têm o mesmo desenho: um diálogo com dois interlocutores, e o item chama de apelativo ou de apelo à emoção justamente quem pediu mais dados — “O argumento de Vera pode ser considerado apelativo”, “o juiz efetua uma argumentação apelativa”, “O argumento do gestor 3 incorre em uma falácia de apelo à emoção”. O quarto atribui ao texto uma segunda falácia que ele não comete (“duas falácias: o argumento contra o homem e o apelo à ignorância”, num trecho em que o autor diz expressamente que não se apoia na autoridade citada). Confira o alvo do rótulo antes do rótulo, e, quando o item nomear duas falácias, confira as duas — basta uma não se sustentar.
Esticar o alcance de uma regra ou de uma proposta — 3 itens (14%). “então é correto concluir que é verdadeira a proposição” estica a garantia da validade até a verdade do conteúdo; “para atender à necessidade do tribunal como um todo” estica uma proposta que só olha as varas atrasadas; no argumento do astronauta, a conclusão Morrerei aqui ultrapassa o que o último ramo das premissas garante (apenas que a comida acabará). Em argumento por casos, teste sempre o ramo do se nada disso acontecer: basta um caso não desembocar na conclusão para o argumento cair.
E a causalidade inventada — 3 itens (14%). São os itens que afirmam validade e a justificam com uma razão de mérito: “é válido, pois enfatiza a necessidade de modernização tecnológica”, “é válida, pois se baseia no aumento da produtividade como indicador da eficiência”, “é válida, pois enfatiza a importância do setor jurídico”. Nos três, o pois liga validade a conteúdo, que é a ligação que não existe.
A regularidade mais rentável do tópico. Quinze dos 43 itens (35%) vêm no mesmo formato: uma reunião em que alguém propõe algo com conclusão exagerada (em todos os aspectos, a única solução viável, é essencial priorizar, não há necessidade de ajustes) e outra pessoa pede dados, critérios objetivos ou análise mais ampla. Nos 15 itens sem exceção, o gabarito segue uma regra só: o item é Certo quando elogia quem pediu evidência (senso crítico, argumentação crítica, comunicação eficiente) ou quando acusa de falácia quem concluiu demais; é Errado quando inverte os dois papéis. Senso crítico aparece em 3 itens e é Certo nos 3. Identifique o crítico e o exagerado antes de ler o resto do item.
Uma promessa do título que o corpus não cumpre. Analogia consta da ementa e não é testada em nenhum dos 43 itens — zero ocorrências. O eixo dedução/indução aparece em 3 itens, e sempre com o rótulo trocado, nunca como definição pedida diretamente. O peso real está em validade formal (17 itens) e falácias informais (10 itens).
Erros clássicos
Achar que premissa falsa invalida o argumento. Não invalida: torna o argumento não sólido. Válido e falso convivem sem problema, e a banca escolhe conteúdos absurdos — professores heróis que moram em Itabaiana, o Porto de Itaqui no Sudeste — justamente para ver se você julga a forma ou o conteúdo.
Concluir a verdade da conclusão a partir da validade. Só se as premissas tiverem sido dadas como verdadeiras. Sem isso, um argumento válido não afirma nada sobre o mundo.
Negar a conjunção negando as duas partes. Não (A e B) é não A ou não B. Já não (A ou B) é não A e não B — aí sim, as duas caem. Trocar uma coisa pela outra é o erro que decide os itens de modus tollens com antecedente composto.
Ler “todo A é B” como “somente A é B”. A premissa universal diz o que acontece com os A; não diz nada sobre os não-A.
Chamar de apelativa uma objeção. Apelo exige que o sentimento, a autoridade ou a popularidade ocupem o lugar da razão. Uma objeção que se apoia num dado do próprio texto é crítica, ainda que incômoda.
Misturar os vocabulários. Válido e inválido são rótulos dedutivos; forte e fraco, indutivos. “Válido, apesar de fraco” é contradição de categoria, e foi cobrado como item Errado.
Tratar enumeração como argumento. Uma sentença longa, com muitas vírgulas e assunto grave, continua sendo uma proposição só. Sem premissa e conclusão, não há o que validar.
LidoPraticado