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Básicos · Língua Portuguesa · Compreensão e interpretação

Intenção comunicativa; ponto de vista; ironia

Pergunte sempre de quem é a voz e qual é o alvo da palavra: item que diz o que um trecho faz acerta em metade dos casos, mas item que diz o que o autor defende é Errado em 81% das vezes.

Altíssima54 itens no tópico

A ideia que organiza o assunto

Todo item deste tópico é um item de atribuição. O enunciado toma um pedaço verdadeiro do texto — uma interjeição, um adjetivo, um advérbio, um pronome, uma citação, um parágrafo inteiro — e afirma duas coisas sobre ele: de quem é aquilo e o que aquilo está fazendo ali. O conteúdo quase nunca é inventado; a etiqueta é.

Daí decorrem as duas únicas perguntas que resolvem o tópico, nesta ordem:

  1. Quem está falando neste trecho? O autor, uma fonte citada, um adversário cuja tese o autor reproduz para refutar, uma personagem, o leitor a quem ele se dirige.
  2. O que o trecho faz? Constata, avalia, concede, ironiza, exemplifica, antecipa uma objeção, chama a atenção.

Nos 87 itens explicados desta família, a diferença entre as duas perguntas é mensurável. Itens que afirmam o que um trecho faz — o advérbio realça, as aspas citam, o adjetivo avalia, a pergunta enfatiza — são Certo em cerca de metade dos casos, e quando o item apenas registra que uma palavra carrega subjetividade ele foi Certo em 6 de 6. Já os itens que atribuem ao autor uma posição — defende, critica, denuncia, é contrário, concorda, demonstra simpatia, elogia, põe em xeque — foram Certo em apenas 5 de 27. É a mesma assimetria medida em Ideia central, e aqui ela é mais violenta: atribuir posição é o lugar da armadilha.

A ironia não é um assunto à parte: é o caso extremo da primeira pergunta. No texto irônico, quem fala na superfície é um personagem que o autor está imitando para desmentir. Quem lê perguntando “o autor disse isso?” cai; quem lê perguntando “o autor assina isso?” não cai.

Como funciona

Achar o dono da voz

A língua marca a mudança de voz com um pequeno inventário de operadores, e é ele que decide a maioria dos itens errados do tópico:

operadoro que ele faz
segundo, para, na visão de, conforme, de acordo comtransfere a responsabilidade do enunciado a terceiro
verbo dicendi (afirma, diz, sustenta, explica)abre discurso relatado, direto ou indireto
aspascitam a palavra exata de outro — ou marcam distância do autor
alguns dirão, dir-se-ia, há quemantecipa uma objeção que o texto vai refutar
como alguns afirmarãonão compara: atribui a fala a terceiro

Duas consequências práticas. A primeira: um adjetivo agressivo dentro de uma frase com operador de atribuição não é do autor. Quando o texto escreve os nativos preguiçosos, segundo os discípulos de Locke, o preconceito é dos lockianos, e o autor o reproduz justamente para denunciá-lo. A segunda: uma citação pode conter a voz de um terceiro. Quando o autor cita um estudioso que está descrevendo a lógica do adversário, a perspectiva do trecho é a do adversário, não a do estudioso citado — e as aspas internas são o aviso.

Ler o modalizador antes de concluir

Modalizador tem endereço e tem direção. Sem dúvida, certamente, obviamente, evidentemente marcam certeza, mas de quê e a favor de quê depende inteiramente da oração em que estão:

Do outro lado estão os atenuantes — talvez, presumivelmente, parece, possivelmente, normalmente —, e o inventário deles no texto inteiro é a melhor defesa contra o item que fala em convicção, rigidez ou inflexibilidade do autor.

Reconhecer a ironia por marca, não por tom

Ironia exige duas coisas simultâneas: o enunciado diz o contrário do que o texto sustenta e há no cotexto uma marca que impede a leitura literal. As marcas recorrentes são a adesão simulada ao ponto de vista criticado (Doutor não precisa se fazer entender), a redução ao absurdo (se de segunda a sexta os dias são úteis, então sábado e domingo são inúteis), a maiúscula ou o tratamento deslocado e o exagero evidente. Sem contradição com o resto do texto, não há ironia — e aspas em elogio dentro de matéria jornalística com fonte identificada são citação, não deboche.

Classificar o que o parágrafo faz

Antes de julgar qualquer item longo, resuma o trecho indicado em um verbo: constata, avalia, concede, enumera, define, antecipa objeção, conclui. Metade dos itens errados do tópico afirma que certo período cumpre um papel que o período ao lado cumpre — e a fronteira preferida é a do conector adversativo: o período registra que algo é usual, e o juízo só aparece no período seguinte, aberto por Contudo.

O que decide os itens

O par que a banca opõe. Cada linha produz um item Errado a partir de uma frase verdadeira:

o texto fazo item dizpor que cai
expõe, descreve, relatadefende, incentiva, critica, denunciaexpor mecanismo não é aderir a ele
reproduz o preconceito de terceirorevela preconceito do autorhá operador de atribuição na frase
relata a dúvida de estudiososo autor põe em xequea dúvida tem dono e data
relata o entusiasmo alheio com até e aparentementeo autor se harmoniza com eleos modalizadores marcam distância
corrige uma tese citada (Mas… certamente)concorda com a tese citadao mas define de que lado está o advérbio
recomenda indiferençarecomenda oposiçãozombar é admitir o domínio às avessas
critica a ilusão sobre um meioé contrário ao próprio meiodesacompanhada de condiciona, não rejeita
agradece com humor e lamentaculpa, acusatom de queixa leve não é imputação
enumera objetivos de um projetoelogia o projetofalta o adjetivo de aprovação
ironiza para expor um absurdoprescreve condutaler ao pé da letra e ainda inferir norma
constata que algo é usualemite juízo sobre issoo juízo está no período seguinte
qualifica pessoasqualifica um conceitorecupere o sujeito da oração
fala como observador (visitei, li)fala como participante (pesquisamos)leia o verbo ao lado do eu

Os pronomes e o seu alcance. Três valores de nós: o inclusivo genérico (qualquer pessoa, em afirmação geral sobre a condição humana), o de modéstia (o autor sozinho) e o de grupo real (exige que o texto nomeie o grupo). Só o terceiro autoriza falar em experiência pessoal. E nós em cena com personagem concreta — levar uma jovem para desfrutarmos de um jantar — é exclusivo: não inclui o leitor. Já você e o imperativo (Não ria, Olha, Escuta) em texto sem personagem só podem apontar para quem lê.

Os quantificadores e os advérbios de frequência. Geralmente, normalmente, em regra e na maioria das vezes restringem; todo, sempre, invariavelmente e a totalidade universalizam. O item que afirma que geralmente denota totalidade está invertendo exatamente o valor do advérbio que abre exceção. Do mesmo modo, predomina admite exceções e exclusivamente não admite nenhuma.

As estruturas correlativas. Tanto… quanto, não só… mas também são o instrumento preferido para contrabandear um segundo objeto. Julgue cada metade separadamente: basta uma não se sustentar para o item cair inteiro.

As duas metades do item de finalidade. Quase todo item de propósito vem em duas partes, e a banca acerta uma para dar credibilidade à outra. Para cada verbo — alertar, informar, recomendar, investigar — localize a frase do texto que o cumpre. Faltando a frase, falta a finalidade, ainda que o tema esteja certo.

Como a CEBRASPE derruba você aqui

Trinta e cinco dos cinquenta e quatro itens do tópico são Errados, e a distribuição das distorções é estreita: troca de termo (43%), atribuição errada (29%), inversão (17%), escopo ampliado (9%) e relação causal (3%). Vale dizer: sete em cada dez itens errados nascem de trocar uma palavra de relação ou de trocar o dono de uma ideia.

Trocar o dono da voz. Quase três em dez. A frase é do texto, a ideia está no texto, e o item a atribui a quem não a assinou: o adjetivo do documento resumido passa a ser da historiadora; a preocupação dos especialistas passa a ser posicionamento da autora; a fala dos internautas passa a ser tese do texto; a perspectiva dos lockianos, citada por Tully, passa a ser de Tully; o predicativo que qualifica o leitor passa a qualificar um conceito. Defesa: antes de julgar, aponte com o dedo o sujeito da oração e o operador de atribuição mais próximo. Se houver segundo, para, verbo dicendi ou aspas de citação, a opinião é de outro — e com frequência o autor a trouxe para combatê-la.

Trocar o termo que carrega a relação. Mais de quatro em dez. O resto da frase é cópia do texto, e muda só a palavra que define a atitude: indiferença vira oposição; descreve vira critica; enumera objetivos vira elogia; escassez do recurso vira consequências do desperdício; fatores comuns vira cada um separadamente; citação vira ironia; frequência vira totalidade; atribuição de voz vira comparação. Defesa: isole o único termo que mudou em relação ao texto e pergunte se ele cabe no papel que o texto deu àquela ideia.

Inverter o sinal. Um em cada seis. O autor recorre a Darwin para reforçar sua tese, e o item lê discordância parcial; o autor mostra que as imperfeições são o alicerce da democracia, e o item lê denúncia das falhas do sistema; o autor se afasta do entusiasmo do Vale do Silício, e o item lê adesão; o texto sustenta que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, e o item lê dissociação entre técnica e concepção de mundo. Aqui cabe também o item que nega a existência de subjetividade onde há adjetivo de valor em cada linha. Defesa: leia o item inteiro, devagar, até o fim, e confronte-o com a frase do texto que enuncia a tese — não com a impressão geral.

Esticar a leitura até uma prescrição. Um em cada dez. O autor ironiza e o item conclui que ele recomenda não fazer aquilo em dias úteis; o autor critica uma ilusão e o item conclui que ele é contrário à prática; a narradora estranha um costume e o item estende a reserva a dois costumes. Defesa: pergunte se o texto chega a prescrever conduta. Quase nunca chega.

Erros clássicos

Aceitar o item porque a palavra está no texto. Está sempre. O tópico se constrói assim: a banca recolhe termos verdadeiros e erra a etiqueta.

Ler tom em vez de marca. Assunto grave não transforma exposição em denúncia; crônica bem-humorada não transforma queixa em acusação. Procure o léxico de reprovação — inaceitável, irresponsável, condenável — antes de aceitar critica-se.

Chamar de ironia o que o texto sustenta a sério. Ironia precisa de contradição interna e de marca. Citação aprovadora, analogia em série e tese defendida por parágrafos são sinais de que o autor fala a sério.

Confundir certeza com concordância. Certamente dentro de uma adversativa dá força à objeção do autor, não à tese citada.

Esquecer que o autor já se defendeu. Não se trata de enaltecer, tampouco de anular, não estamos querendo dizer que, para fim de análise: essas frases existem porque o autor previu a leitura simplificadora — e é exatamente essa leitura que virá no item.

Julgar a posição do autor pelo meio do texto. Em texto que expõe vozes alheias, a posição de quem escreve costuma estar na parte propositiva, no fecho.

Contar errado o período ou o parágrafo. Item que localiza uma operação em período determinado exige contagem, não impressão. É usual que constata; o juízo vem depois do Contudo.

Tomar interjeição, vocativo ou imperativo como informação. Pomba!, Olha, Escuta, Não ria marcam emoção e contato; o alvo se identifica pela frase vizinha, não pela força da expressão.

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