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Adequação a níveis de formalidade e gêneros
Adequação é relação entre forma e situação, nunca propriedade da palavra — e nos quatro itens errados o que quebrou não foi o juízo de registro, foi a correção gramatical da alternativa.
Altíssima9 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Não existe palavra inadequada em si. Existe palavra inadequada àquele texto, naquele gênero, para aquele interlocutor. Por isso todo item deste tópico se resolve em duas etapas, e a primeira é quase sempre esquecida:
- Qual é o registro deste texto? Se o autor já escreve em primeira pessoa, usa a gente e fala com você, mais uma marca coloquial é coerência, não deslize. Se o gênero é tirinha, chat ou diálogo de crônica, a oralidade é exigência, não falha.
- A forma proposta cabe nesse registro? E, antes disso: a forma proposta existe e é gramatical?
A segunda pergunta é a que decide os itens. Nos 9 itens explicados, quatro são Errados, e os quatro morrem na correção gramatical da alternativa oferecida, não no juízo sobre formalidade. Esquentão, fazem milênios, lhe tornam, Se faz aqui uma distinção… com: em todos, a metade do enunciado que fala em registro estava certa, e a promessa de sem prejuízo da correção gramatical é que era falsa. Daí a regra de triagem do tópico: leia a sugestão como se fosse redação de prova e procure erro nela antes de discutir estilo.
Como funciona
O que sobe e o que desce o registro
Formalidade não é vocabulário difícil: é apagamento do falante. Quatro operações elevam o registro, e praticamente todos os itens de adequação cobram uma delas:
| operação | informal | formal |
|---|---|---|
| apagar o sujeito falante | a gente vai ter | será divulgada |
| trocar a perífrase pelo futuro simples | vai ter | terá, haverá |
| substituir verbo genérico por verbo preciso | ter, fazer, dar | dispor de, realizar, conceder |
| trocar marcador conversacional por conjunção | e olha que, só que, daí | embora, entretanto, portanto |
No sentido inverso, as marcas que baixam o registro são poucas e reconhecíveis: a gente por nós, tem existencial por haver, fique ligado por fique atento, o diminutivo afetivo, a interjeição, o verbo esvaziado (olha, escuta, sabe).
Correção e adequação são eixos independentes
É a distinção que o tópico inteiro explora, e a CEBRASPE a cobra nos dois sentidos:
- Correto e inadequado: tem existencial é construção corrente e aceita no português brasileiro falado; em texto expositivo e técnico, destoa. Item que concede a correção e nega a adequação costuma ser Certo.
- Adequado e incorreto: esquentão reproduz a pronúncia relaxada e não é forma da língua escrita; fazem milênios desrespeita a impessoalidade do verbo de tempo decorrido. Item que promete correção mantida e oferece uma dessas formas é Errado, e nem se chega a discutir registro.
Os defeitos que a banca planta dentro da sugestão
| defeito | exemplo oferecido | regra que ele fere |
|---|---|---|
| terminação ão por am | esquentão | conjugação: 3.ª pessoa do plural é esquentam |
| verbo impessoal no plural | fazem milênios | haver e fazer de tempo decorrido não variam |
| lhe com verbo transitivo direto | lhe tornam | lhe só substitui objeto indireto |
| concordância quebrada | faz trocado por tornam | sujeito singular pede verbo singular |
| próclise em início de período | Se faz aqui… | a escrita culta exige Faz-se |
| regência de locução correlata | distinção entre X com Y | o par é entre X e Y |
Transpor um trecho para outro gênero
Quando o item pergunta se um trecho serviria para um ofício, um requerimento ou um relatório, faça três perguntas: o registro é formal? A pessoa do discurso é impessoal ou de terceira pessoa? O trecho sustenta uma posição, em vez de apenas narrar ou opinar subjetivamente? Passando nas três, cabe. Descrição de cena ou trecho lírico não passa na terceira.
O que decide os itens
| o item afirma | o que conferir primeiro |
|---|---|
| está inadequado ao nível de formalidade | o registro do texto inteiro, não a palavra isolada |
| poderia ser substituída por X, sem prejuízo da correção | se X é forma existente e gramatical |
| manteria a coerência, mas alteraria a formalidade | se a relação lógica é a mesma nas duas versões |
| conferiria mais formalidade | se a troca apaga o falante (passiva, 3.ª pessoa, futuro simples) |
| ainda que gramaticalmente correta, soaria informal | concessão admitida: costuma ser Certo |
| é adequado ao gênero | o que o gênero prevê, não o que a norma exige |
| seria adequado para um documento oficial | registro, pessoa do discurso e força argumentativa |
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Quatro dos nove itens são Errados, e os quatro são inversões da mesma promessa: o enunciado garante que a correção gramatical seria preservada e a alternativa oferecida é agramatical. Nenhum item errado deste tópico discutiu de fato formalidade — ela era o chamariz.
Prometer correção e entregar um desvio. Esquentão no lugar de aquecem soa apenas coloquial e é, antes disso, forma inexistente. Fazem no lugar de há parece só menos formal e viola a impessoalidade. Lhe tornam no lugar de faz de você junta pronome errado e concordância quebrada. Se faz aqui uma distinção… com o poder informal junta próclise inicial e regência trocada. Defesa: reconstrua a frase inteira com a proposta dentro e leia em voz baixa, procurando erro. Achado o erro, o item está decidido e a discussão de registro é dispensável.
Condenar um traço isolado que o texto inteiro autoriza. O item afirmou que o você estava inadequado num ensaio que usa a gente, primeira pessoa do plural e interpelação direta do leitor. Defesa: estabeleça o registro do texto antes de julgar a palavra; adequação é relação, não propriedade.
Do lado dos Certos, a banca costuma admitir uma perda. Ainda que gramaticalmente correta, conferiria um tom de informalidade que destoaria; manteria a coerência, mas alteraria o nível de formalidade. Quando o enunciado concede uma coisa e nega a outra, ele quase sempre está certo: a banca mente prometendo tudo, não admitindo uma perda.
Erros clássicos
Confundir correção com adequação. Tem existencial é correto e informal; esquentão é informal e incorreto. São dois julgamentos, e o item costuma pedir os dois.
Julgar a palavra fora do texto. Coloquialismo em campanha, cartaz ou tirinha é estratégia de aproximação e adequação ao gênero, não falha.
Aceitar a sugestão porque o sentido bate. A equivalência semântica não salva uma forma agramatical: o item morre antes.
Esquecer que verbo de tempo decorrido é impessoal. Faz dez anos, há milênios — nunca fazem.
Usar lhe com verbo transitivo direto. Torná-lo, fazê-lo, vê-lo, chamá-lo — nunca lhe tornar.
Iniciar período com pronome átono. Se faz, me parece, lhe disse em começo de frase não passam na escrita culta.
Não conferir o número do verbo proposto. Trocar faz por tornam muda a concordância com o sujeito, e é um defeito fácil de não ver dentro de uma sugestão longa.
LidoPraticado