Básicos · Língua Portuguesa · Coesão textual
Conectores e valores semânticos: causa, condição, concessão, finalidade etc.
Cada conector carrega um valor, e trocar o conector troca a lógica da frase. Quase todo item ou nomeia esse valor ou propõe uma troca — e mente exatamente sobre um dos dois.
Altíssima168 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Um período não diz apenas o que suas palavras de conteúdo dizem. Ele diz também qual é a relação entre os fatos que enuncia, e quem diz isso é o conector. Tome dois fatos fixos — chove e a rua alaga — e veja o que muda quando só a conjunção muda:
Porque chove, a rua alaga. → causa
Embora chova, a rua alaga. → concessão
Se chover, a rua alaga. → condição
Chove; portanto, a rua alaga. → conclusão
Chove à medida que a rua alaga. → proporção
Nenhuma palavra de conteúdo se moveu e o texto afirma cinco coisas diferentes. O conector é o operador lógico do período: trocá-lo é trocar o que o texto afirma.
Daí decorre a regra única do tópico, e ela tem duas partes, como a crase: uma substituição só é legítima quando o substituto tem o mesmo valor semântico e a mesma regência. Falha o valor, muda o sentido. Falha a regência, quebra a sintaxe. A banca explora as duas falhas, e explora separadamente — há item que erra só no sentido com a gramática intacta, e há item que acerta o valor e morre na regência.
Quem lê o item procurando “esse conector parece caber aqui” erra. Quem lê perguntando “que relação o texto estabelece de fato?” e depois “o substituto pertence à mesma família e rege igual?” acerta.
Como funciona
São duas perguntas, sempre nessa ordem.
Que relação o texto estabelece? Responda por paráfrase, nunca por impressão. Cada valor tem um conector prototípico; se a paráfrase por ele se sustenta, o valor é aquele.
| valor | teste: cabe a paráfrase por… |
|---|---|
| causa | porque, por causa de |
| concessão | embora — e, na principal, cabe mesmo assim |
| condição | se |
| conformidade | conforme, de acordo com |
| finalidade | para que — responde a para quê |
| conclusão | portanto, por isso |
| oposição | mas |
| proporção | à medida que, quanto mais… mais |
| comparação | tal qual, quanto (com tão, tanto antes) |
| consequência | de modo que — com tão, tanto, a tal ponto antes |
| tempo | quando, durante o tempo em que |
| adição | e, além disso |
| síntese | em resumo |
| reformulação | isto é, ou seja |
Dois pares merecem atenção porque a intuição falha neles.
Causa × concessão são opostos exatos. Os dois ligam os mesmos dois fatos; o que muda é a direção da seta. Na causa, o primeiro fato produz o segundo. Na concessão, o primeiro fato deveria impedir o segundo e não impede — é causa frustrada. Apesar de ter sido reitor, viveu fora da universidade: ser reitor não causou o afastamento, ele o contrariava.
Causa × explicação não são a mesma coisa. Causa liga dois fatos do mundo: a rua alagou porque choveu. Explicação liga um fato a um argumento: o falante justifica por que afirmou aquilo. O teste é antepor eu digo isso porque: cabendo, é explicação, não causa.
Causa × finalidade se separam pelo modo verbal. Final pede subjuntivo (para que não triunfassem) e aponta para um resultado ainda não realizado; causal pede indicativo (porque não triunfavam) e aponta para um fato já dado.
O substituto cabe? Aqui entra a regência, que é onde metade dos itens de substituição morre. Conjunção subordinativa exige oração com verbo flexionado; preposição exige nome ou infinitivo; advérbio não exige nada e só se intercala.
Embora qualquer pessoa possa figurar como vítima → conjunção + subjuntivo.
Apesar de qualquer pessoa poder figurar como vítima → preposição + infinitivo.
Trocar uma pela outra sem reescrever a oração produz agramaticalidade, ainda que as duas signifiquem exatamente a mesma coisa. O mesmo vale para o outro lado: entretanto coordena duas orações independentes, conquanto subordina e pede subjuntivo — posto no lugar do primeiro, deixa o período sem oração principal.
Por fim, vários conectores têm mais de um valor, e é a posição que decide. Pois é explicativo antes do verbo e conclusivo depois dele. Como é causal abrindo o período, comparativo depois de tão, conformativo junto a verbo de dizer e exemplificativo diante de lista. Enquanto é temporal quando os fatos apenas coexistem e adversativo quando se contrapõem. Nada disso se decora como lista de palavras: decora-se como pergunta sobre onde a palavra está.
O que decide os itens
Conector → valor → o que a troca faz
| conector | valor | trocar por… muda para |
|---|---|---|
| porque, pois (anteposto), porquanto, já que, uma vez que, visto que, na medida em que | causa / explicação | logo → conclusão; conquanto → concessão; conforme → conformidade |
| embora, ainda que, conquanto, mesmo que, posto que, se bem que | concessão | desde que → condição; porque → causa |
| apesar de, a despeito de, não obstante, malgrado, mesmo com | concessão (preposições) | devido a → causa |
| se, caso, contanto que, desde que, salvo se | condição | embora → concessão; quando → tempo |
| conforme, segundo, consoante, de acordo com, como (junto a verbo de dizer) | conformidade | devido a → causa |
| a fim de (que), para (que), com vistas a, com o intuito de | finalidade | porque → causa; de modo que → consequência |
| portanto, logo, então, assim, dessa forma, destarte, por conseguinte, pois (posposto) | conclusão | pois anteposto → explicação; assim como → comparação |
| mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, só que | oposição | portanto → conclusão; conquanto → concessão |
| à medida que, à proporção que, ao passo que, quanto mais… mais | proporção | na medida em que → causa |
| como, tal qual, assim como, feito, qual, tão… quanto | comparação | porque → causa |
| e, além disso, ademais, outrossim, bem como, tanto… quanto, não só… mas também | adição | portanto → conclusão |
| de modo que, de sorte que, a ponto de, tão… que | consequência | à medida que → proporção |
Conectores de valor múltiplo — a posição decide
| palavra | um valor | outro valor |
|---|---|---|
| pois | explicativo antes do verbo: saiu, pois estava tarde | conclusivo depois do verbo: estava tarde; saiu, pois |
| como | causal abrindo o período: Como chovia, ficamos | comparativo após tão; conformativo junto a dizer, afirmar; exemplificativo diante de lista |
| enquanto | temporal: enquanto durou a febre | adversativo: uns ficam, enquanto outros saem; e na qualidade de: enquanto instância geradora |
| já | temporal junto ao verbo: já chegou | adversativo abrindo período; causal em já que |
| mesmo | realce: ele mesmo fez | concessivo: mesmo com o aumento |
| segundo | conformativo antes da fonte: segundo o autor | numeral/adjetivo como determinante: o segundo período |
| assim | conclusivo/modal | temporal na locução assim que |
| que | integrante, relativo, causal, consecutivo, comparativo — só o entorno decide | |
| tanto… quanto | aditivo com nomes: tanto no trabalho quanto na economia | comparativo com tão + adjetivo: tão caro quanto |
Pares que a banca opõe
- à medida que (proporção) × na medida em que (causa)
- conquanto (concessão) × porquanto (causa)
- posto que — pela norma, concessivo, sinônimo de embora, apesar do uso corrente como causal
- destarte, dessarte (conclusão) × contudo, todavia (oposição)
- não obstante — concessivo, nunca negativo nem causal
- afinal (= finalmente, ou retomada de argumento) — nunca conclusivo
- em suma (síntese) × isto é, quer dizer (reformulação) × logo (conclusão)
- por um lado / por outro (aspectos de um mesmo assunto) × inversamente, pelo contrário (o oposto exato)
E uma advertência que vale para o tópico inteiro: valor semântico não depende de haver conjunção. Causa aparece em com, por, de, diante de, em razão de, graças a e em reduzidas de gerúndio e de infinitivo; finalidade, em para + infinitivo; condição, em reduzidas de particípio (dada a possibilidade de escolha = se houver a possibilidade). Item que negar um valor só porque não há conjunção está errado.
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Dos 168 itens do tópico, 87 são errados. Eles se distribuem por três formatos, e vale conhecer os três porque a taxa de erro deles é muito diferente.
O item que nomeia o valor — 76 itens, 45% do tópico, 34 errados. É o formato mais comum: “o vocábulo X introduz uma explicação”, “a expressão Y exprime ideia de proporcionalidade”, “estabelece-se relação de oposição entre as duas orações”. O item que propõe uma troca e afirma que nada se perde — 53 itens, praticamente um terço, e metade deles é errada: “poderia ser substituído por Z, sem prejuízo dos sentidos e da correção gramatical”, “estariam mantidos os sentidos e a coerência caso se substituísse”, “a correção seria mantida caso o parágrafo fosse assim iniciado”. A hipótese de que a substituição fosse a armadilha dominante se confirma em parte: ela é um terço dos itens e tem a pior taxa entre os dois formatos propriamente linguísticos, mas o item que apenas nomeia o valor é mais frequente do que ela.
O terceiro formato não é de português. São 33 itens de outras matérias — direito administrativo, constitucional, ética, informática, atualidades, agronomia — em que o conector está na justificativa do próprio item: “a administração responderá solidariamente, uma vez que a responsabilidade por omissão é objetiva”, “o rootkit não causa dano, uma vez que sua característica principal é apagar dados de pendrives”. Vinte e três deles são errados — 70%, a maior taxa do tópico. A fórmula é sempre a mesma: uma afirmação e, depois de uma vez que, já que ou porquanto, a razão que a sustenta. O erro mora quase sempre na segunda parte. Defesa: julgue as duas metades separadamente e, mesmo quando a razão for verdadeira, pergunte se ela basta para sustentar a conclusão — João é de fato o superior hierárquico, e mesmo assim o recurso não devia ser dirigido a ele.
Vistos os formatos, estas são as trocas que a banca de fato executa.
Confundir conclusão com explicação. É o eixo mais carregado do tópico: 19 dos itens errados giram em torno dele, e o par causa/explicação aparece em 26. A banca chama Portanto de explicação, então de explicação, Entretanto de conclusão, afinal de conclusivo, Em suma de explicação, Quer dizer de conclusão, com isso de conclusão imediata, pois posposto de conclusão quando está anteposto e de explicação quando está posposto. E propõe as trocas correspondentes: porquanto por logo, Mas por Portanto, destarte por contudo, Dessa forma por Assim como, Ao contrário por Por isso, e a inserção de portanto entre dois períodos que não deduzem nada um do outro. Defesa: conclusão e explicação apontam para lados opostos do mesmo raciocínio — a conclusão vem depois do argumento, a explicação vem antes do fato. Leia a frase resultante e teste se cabe por isso entre as duas partes. Não cabendo, o conclusivo está errado, por mais natural que a sequência pareça.
Trocar causa por concessão, e vice-versa. Dez itens errados envolvem concessão. Apesar descrito como causa; Ainda que substituído por Desde que; porquanto substituído por conquanto — duas vezes, com a mesma formulação; Entretanto substituído por Conquanto — também duas vezes. Conquanto aparece em cinco itens e quatro são errados: é a isca mais rentável do tópico, porque parece reforço de contudo e significa embora. Defesa: memorize o par pelo prefixo — por- remete a porque, logo causa; con- acompanha embora, logo concessão. E confirme pelo modo verbal: se a frase original está no indicativo, a troca por um concessivo já falha na sintaxe antes de falhar no sentido.
Acertar o valor e errar a regência. Esta é a variante fina, e ela derruba quem estuda só listas de sinônimos. Embora por Apesar de: mesmo valor concessivo, mas um pede oração com subjuntivo e o outro pede nome ou infinitivo. Entretanto por Conquanto: um coordena, o outro subordina e deixa o período sem principal. Ao mesmo tempo por Ao passo que: locução adverbial trocada por conjunção subordinativa, com o mesmo efeito. pois por posto que, que além de concessivo exige subjuntivo. Defesa: em item de substituição, reconstrua a frase inteira com a forma proposta e leia-a como se fosse texto de prova. Um verbo que ficou sem oração principal, um infinitivo que virou finito, uma preposição a mais ou a menos — malgrado de não existe, apesar sem de tampouco — já decide o item, e você nem precisa julgar a equivalência semântica.
Chamar de comparação o que é adição, e de proporção o que é comparação. Dez itens errados estão neste bloco. assim como, fechando uma enumeração, soma e não compara; tanto… quanto diante de nomes soma, e só compara quando há tão mais adjetivo; como eu compara e não estabelece proporcionalidade; a ponto de é consequência e não proporção; enquanto adversativo não vira à medida que. Defesa: proporção exige que duas grandezas variem juntas e comparação exige um elemento de intensidade antes (tão, tanto, tal). Não havendo variação conjunta, não há proporção; não havendo intensificador, não há comparação.
Acertar a relação e errar os polos. Um grupo pequeno mas regular: o item reconhece que há oposição, exemplificação ou contraste, e aponta o termo errado como um dos polos. O mas que opõe as ideias interessantes à ausência de ideias úteis nos exames é descrito como opondo o experimento aos exames; o como que exemplifica efeitos indesejáveis é descrito como exemplificando políticas restritivas; o mas que opõe totalmente realista a enredo inventado é descrito como opondo o romance à lista inteira de modalidades de ficção. Defesa: o conector se liga ao termo imediatamente anterior a ele, não ao sujeito distante do período. Em período longo, localize o sintagma colado ao conector antes de decidir o que se opõe a quê.
Um contrapeso importante: nem toda negação de equivalência é falsa. A banca também usa a forma invertida — “a substituição prejudicaria a coesão e a correção gramatical”, “a coerência não seria mantida” — e nesses casos o item costuma estar certo. Não responda pelo formato. E há trocas entre valores diferentes que passam: Quando por Se em enunciado genérico, porque o tempo hipotético e a condição se tocam; Isso quer dizer que por Logo, porque o que vem depois é de fato deduzido. O que decide é sempre o conteúdo da relação, nunca o rótulo da expressão.
Erros clássicos
Achar que porquanto conclui. O quanto engana. É sinônimo de porque. Troca segura: porque, pois, já que, uma vez que, visto que. Troca proibida: logo, portanto, por conseguinte.
Achar que conquanto reforça contudo. Significa embora. Cinco itens do tópico o oferecem como substituto de um adversativo coordenado; quatro são errados.
Achar que posto que é causal. No uso corrente é; na norma que a banca cobra, é concessivo.
Achar que não obstante nega ou explica. É concessão pura: apesar de, a despeito de, malgrado. Intercalado entre vírgulas, vale por contudo.
Confundir à medida que com na medida em que. A primeira marca proporção; a segunda, causa.
Tratar sobretudo, inclusive, apenas, até e mesmo como conectores. São denotativos: realçam, incluem ou excluem um termo, mas não estabelecem relação lógica entre orações.
Esquecer que pois muda de valor com a posição. Abrindo a oração logo após a vírgula, vale por porque; deslocado para depois do verbo, entre vírgulas, vale por portanto. E não é concessivo em nenhuma das duas.
Julgar a substituição só pelo sentido. Metade dos itens de troca morre na regência, não na semântica. Reconstrua a frase antes de responder.
LidoPraticado