Básicos · Língua Portuguesa · Ortografia oficial
Acentuação gráfica: oxítonas/paroxítonas/proparoxítonas; hiatos; acordo ortográfico
Acento existe por dois motivos distintos — posição da tônica ou estrutura da sílaba —, e todo item de "mesma regra" se resolve separando os dois.
Altíssima8 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Um acento gráfico no português responde a uma de duas perguntas, nunca às duas.
A primeira é onde está a sílaba tônica: proparoxítona, paroxítona ou oxítona. É a regra de posição, e ela olha a terminação da palavra para decidir.
A segunda é como a sílaba tônica está construída: um i ou um u sozinho em hiato, um ditongo aberto, uma necessidade de distinguir duas palavras homógrafas. É a regra de estrutura, e ela ignora completamente a posição da tônica.
Essa separação é a chave do tópico inteiro, porque a pergunta mais frequente da banca é se duas palavras se acentuam pela mesma regra. Homicídios e caíram têm acento agudo na mesma letra e parecem irmãs; uma se acentua por posição e a outra por estrutura, e o item é Errado. Quem compara terminações erra; quem pergunta primeiro “é posição ou é estrutura?” acerta antes de contar sílabas.
Como funciona
Regra de posição. Comece sempre por ela, porque é a que classifica.
Proparoxítonas — tônica na antepenúltima sílaba — são todas acentuadas, sem exceção e qualquer que seja a terminação: república, cárcere, pirólise, agrícolas, lâmpada. Esta é a única classe sem subdivisões, e por isso itens que comparam duas proparoxítonas são quase sempre Certos.
Paroxítonas — tônica na penúltima — são a maioria das palavras da língua e por isso só se acentuam quando a terminação é incomum. A lista das terminações que puxam acento é fechada e vale a pena decorá-la: -i(s), -us, -um, -uns, -l, -n, -r, -x, -ps, -ã(s), -ão(s), -om, -ons e ditongo (táxi, vírus, álbum, fácil, hífen, caráter, tórax, ímã, órfão, história). A terminação em ditongo é a mais cobrada de todas.
Oxítonas — tônica na última — acentuam-se quando terminam em -a, -e, -o (seguidos ou não de s), -em, -ens e nos ditongos abertos -éu, -éi, -ói: cajá, café, cipó, armazém, parabéns, herói.
Regra de estrutura. Ela entra por cima da classificação anterior e explica acentos que a regra de posição jamais produziria.
Hiato de i e u. O i ou o u tônico, sozinho na sílaba, precedido de vogal, recebe acento: saída, país, baú, egoísta, caíram. Não se acentua se for seguido de nh (rainha, moinho), se formar sílaba com outra letra além do s (ruim, cairdes) ou, em paroxítonas, se vier precedido de ditongo (feiura, baiuca). Caíram é o caso exemplar: é paroxítona terminada em -m, terminação que não puxa acento; o acento vem inteiramente do hiato.
Ditongos abertos. Levam acento em oxítonas e monossílabos — chapéu, anéis, herói, dói. Em paroxítonas o acento caiu em 1990: ideia, heroico, assembleia, jiboia.
Acento diferencial. Restaram dois obrigatórios — pôr (verbo) contra por (preposição) e pôde (pretérito) contra pode (presente) — e um facultativo, fôrma. Todos os outros foram abolidos.
Acento de flexão. Em ter, vir e derivados o circunflexo marca número: ele tem × eles têm, ele vem × eles vêm, ele detém × eles detêm, ele mantém × eles mantêm. Aqui o acento não é ortografia, é concordância: retirá-lo não produz outra grafia da mesma palavra, produz o verbo no singular.
O que decide os itens
| a palavra se acentua por | reconhece-se por | exemplos |
|---|---|---|
| proparoxítona | tônica na antepenúltima sílaba | república, cárcere, pirólise, agrícolas |
| paroxítona terminada em ditongo | -ia, -ie, -io, -ua, -ue, -uo, -ea finais | próprio, ciência, área, experiência, usuário, audiência, homicídios |
| paroxítona de terminação incomum | -i, -us, -um, -l, -n, -r, -x, -ã, -ão | júri, vírus, álbum, fácil, pólen, açúcar, tórax |
| oxítona | termina em -a, -e, -o, -em, -ens | sofá, café, cipó, também, parabéns |
| hiato de i/u tônico | i ou u sozinho na sílaba, depois de vogal | saída, país, baú, caíram, conteúdo, egoísta |
| ditongo aberto | -éu, -éi, -ói em oxítona ou monossílabo | chapéu, anéis, herói |
| diferencial | par homógrafo de classe distinta | pôr, pôde |
| flexão de número | ter, vir e derivados no plural | têm, vêm, detêm, mantêm |
O que 2009 tirou — a data em que o Acordo passou a vigorar no Brasil é o divisor que a banca explora:
| saiu | continua |
|---|---|
| trema: conseqüência, lingüiça | trema em nome próprio estrangeiro: Müller |
| ditongo aberto em paroxítona: idéia, heróico, jibóia | ditongo aberto em oxítona: herói, chapéu, anéis |
| hiato -oo e -ee: vôo, enjôo, crêem, lêem | circunflexo de têm, vêm, detêm (flexão de número) |
| acento diferencial: pára, pêlo, pólo, pêra | pôr e pôde; facultativo fôrma |
| i/u tônico em hiato após ditongo, em paroxítona: feiúra | i/u tônico em hiato nos demais casos: saída, país |
O intruso preferido em listas de “mesma regra” — a palavra com i ou u tônico em hiato colocada entre paroxítonas terminadas em ditongo. Conteúdo no meio de experiência, usuário e audiência parece o quarto membro da série e acentua-se por outro motivo. O mesmo truque monta homicídios e caíram.
Como a CEBRASPE derruba você aqui
A pergunta dominante é “mesma regra?” — cinco dos oito itens explicados. A fórmula é quase sempre a mesma: “Os vocábulos X e Y são acentuados graficamente de acordo com a mesma regra de acentuação gráfica”. Três desses cinco são Certos, e nos três as palavras comparadas são proparoxítonas (república e cárcere, pirólise e agrícolas) ou paroxítonas terminadas em ditongo crescente (próprio, ciência, área). Nos dois Errados há sempre uma palavra de hiato infiltrada entre palavras de regra de posição: caíram ao lado de homicídios, conteúdo ao lado de experiência, usuário e audiência. Defesa: antes de conferir a regra, procure o intruso. Um i ou um u tônico sozinho na sílaba é hiato, e hiato não pertence a nenhuma regra de posição.
Os três itens restantes deslocam a pergunta para o que o acento significa. Não perguntam por que a palavra é acentuada, e sim o que o acento informa: se pôr precisa do circunflexo, se têm pode perdê-lo, se o agudo de detém denuncia singular. Nesses casos o acento não é ortografia — é gramática. Retirar o circunflexo de têm não muda a grafia da palavra: muda o número do verbo e quebra a concordância com o sujeito. Defesa: quando o item propuser retirar um acento, pergunte se ele marca posição ou flexão. Se marcar flexão, a retirada nunca é neutra.
Acertar o fato e errar a justificativa. O item afirma corretamente que o agudo de detém indica terceira pessoa do singular e atribui essa concordância ao substantivo errado — saúde em vez de o paciente, sujeito elíptico da relativa. É o mesmo movimento que o corpus registra em Crase, onde o item mantém o acento certo e justifica-o pela regência do termo errado. Defesa: metade verdadeira não valida a outra metade. Quando o item explicar, refaça a análise sobre o termo que ele aponta — em relativa com que, localize o sujeito antes de aceitar qualquer atribuição.
Esta seção foi escrita contra apenas oito itens explicados. As proporções citadas — cinco de oito, três de cinco — são indicativas, não estáveis; o que já se pode afirmar com segurança é a forma das perguntas, não a sua frequência relativa.
Erros clássicos
Comparar terminações escritas em vez de classificar a tônica. Área e ciência têm finais diferentes no papel e a mesma regra na análise: as duas são paroxítonas terminadas em ditongo crescente.
Chamar caíram de proparoxítona. É paroxítona — ca-Í-ram. O acento é do
hiato, não da posição.
Acentuar rainha, moinho, ruim. O hiato de i pede acento, mas não
quando vem seguido de nh ou quando o i forma sílaba com outra consoante.
Achar que vôo e crêem ainda levam acento. Os hiatos -oo e -ee perderam o
circunflexo em 1990: voo, enjoo, creem, leem, veem.
Tratar têm como questão de grafia. É concordância. Localize o sujeito
antes de decidir.
Esquecer que pôr e pôde sobreviveram. São os dois únicos diferenciais
obrigatórios que restaram; tudo o mais — pára, pêlo, pólo, pêra — caiu.
LidoPraticado