Específicos · Ciência de Dados
Métricas: matriz de confusão, precisão, recall, F1, AUC-ROC; MSE/RMSE/MAE/R²
Toda métrica de classificação é uma razão entre as quatro casas da matriz de confusão. Escolher a métrica é escolher qual erro dói mais — e F1 é média harmônica, nunca a média simples.
Alta6 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Avaliar um modelo de classificação não é um assunto com muitas fórmulas soltas. É uma tabela de quatro casas e as razões que se extraem dela. Fixada a classe positiva e fixado o limiar de decisão, cada observação cai em exatamente uma casa: verdadeiro positivo, falso positivo, falso negativo, verdadeiro negativo. Acurácia, precisão, revocação, especificidade e F1 são todas frações formadas com esses quatro números — não há nada além disso para decorar.
Duas consequências organizam o tópico inteiro.
Primeira: a métrica se escolhe pelo erro que dói mais. A matriz tem dois tipos de erro e eles têm preços diferentes. O falso positivo acusa quem não devia ser acusado; o falso negativo deixa passar quem devia ter sido pego. Precisão olha o falso positivo — dos que o modelo chamou de positivos, quantos eram. A revocação, ou sensibilidade, olha o falso negativo — dos que eram positivos, quantos o modelo encontrou. Não existe “a melhor métrica”: existe a que mede o erro que custa caro no problema em questão. Acurácia, que trata os dois erros como iguais, é justamente a que engana em base desbalanceada.
Segunda: a métrica é ditada pelo tipo de saída do modelo, e as duas listas não se cruzam. Modelo que devolve classe é avaliado por matriz de confusão, precisão, revocação, F1 e AUC-ROC. Modelo que devolve número é avaliado por MSE, RMSE, MAE e R². Levar uma lista para o outro lado é o movimento mais barato que a banca faz aqui, e foi exatamente o que fez no item de MSE deste corpus.
Há ainda uma condição que se esquece de tão óbvia: a matriz de confusão só existe se o rótulo verdadeiro for conhecido. Sem classe real não há verdadeiro positivo nem falso negativo — não há o que confrontar. Por isso a existência de uma matriz de confusão prova, sozinha, que o modelo é supervisionado. É o ponto em que este tópico se apoia no de tipos de aprendizado: lá se decide o que está sendo treinado; aqui, como se sabe que funcionou — e o “aqui” só é possível quando lá havia rótulo.
Por que se usa (e o que custa)
Cada métrica resolve um problema da anterior e cria um novo.
Acurácia é a única que se lê sem explicação: a proporção de acertos. Custa caro em base desbalanceada — com 1% de fraudes, o modelo que nega tudo acerta 99% e não serve para nada. Sempre que a classe de interesse for rara, a acurácia deixa de informar.
Precisão e revocação consertam isso ao olhar apenas a classe positiva, mas vêm em par e em conflito: baixar o limiar aumenta a revocação e derruba a precisão; subir o limiar faz o contrário. Relatar uma só das duas é meio resultado, e é por isso que a banca gosta de oferecer uma delas como se fosse a avaliação completa.
F1 resolve o par juntando os dois num número só, e paga com a legibilidade: um F1 medíocre não diz qual das duas metades está ruim. Usa média harmônica justamente para que um valor baixo puxe o resultado para baixo — uma precisão de 0,99 com revocação de 0,01 dá F1 próximo de 0,02, enquanto a média aritmética daria 0,50 e esconderia o desastre.
AUC-ROC resolve outra limitação: todas as anteriores dependem de um limiar escolhido. A curva ROC percorre todos os limiares e a AUC resume essa varredura num número, o que permite comparar modelos antes de decidir o ponto de operação. Custa o inverso: a AUC não diz em que limiar operar, e é otimista quando a classe positiva é muito rara — situação em que a curva de precisão-revocação informa mais.
A formulação honesta para a prova: cada métrica compra uma propriedade e paga com informação descartada. Item que apresente uma métrica como boa em todos os cenários já enunciou o erro.
Como funciona
A matriz de confusão. Convenção usual, e a que o enunciado do corpus adota explicitamente: linhas são as classes reais, colunas são as classes preditas. A convenção inversa existe, então leia qual é a do item antes de montar as contas — trocar as duas troca precisão por revocação.
Com a classe positiva fixada:
- VP (verdadeiro positivo): era positivo, foi predito positivo.
- FN (falso negativo): era positivo, foi predito negativo. É o erro tipo II, o que deixa passar.
- FP (falso positivo): era negativo, foi predito positivo. É o erro tipo I, o alarme falso.
- VN (verdadeiro negativo): era negativo, foi predito negativo.
As razões, e o que cada denominador significa. O truque para não decorar errado é olhar o denominador: ele diz sobre qual população a métrica fala.
- Acurácia = (VP + VN) / total — fala sobre tudo.
- Precisão = VP / (VP + FP) — denominador é a coluna dos preditos positivos: fala sobre o que o modelo afirmou.
- Revocação (sensibilidade, recall, taxa de verdadeiros positivos) = VP / (VP + FN) — denominador é a linha dos reais positivos: fala sobre o que existia.
- Especificidade = VN / (VN + FP) — a revocação da classe negativa.
- F1 = 2 × (precisão × revocação) / (precisão + revocação) — a média harmônica das duas.
A curva ROC. Varre-se o limiar de decisão de 1 a 0 e, para cada valor, marca-se o par (taxa de falsos positivos, taxa de verdadeiros positivos), isto é, (1 − especificidade, sensibilidade). O canto superior esquerdo é o modelo perfeito; a diagonal é o sorteio. A AUC é a área sob essa curva e tem uma interpretação probabilística direta: é a probabilidade de o modelo atribuir pontuação mais alta a um positivo do que a um negativo sorteados ao acaso. Por isso comparar modelos pela AUC é o uso previsto da medida — maior AUC, melhor separação entre as classes.
Calcular a AUC: paramétrico × não paramétrico. A distinção caiu em item e é puro significado de prefixo. O método não paramétrico — regra trapezoidal sobre os pares observados, equivalente à estatística de Mann-Whitney — não supõe forma de distribuição alguma: usa os dados como estão. O método paramétrico, o modelo binormal, é que assume uma distribuição, tipicamente normalidade das pontuações nos dois grupos, e estima a curva a partir dos parâmetros ajustados.
Métricas de regressão. Existem para saída contínua e comparam previsto com observado. MSE é a média dos quadrados dos erros; RMSE é a sua raiz, o que devolve o resultado à unidade original da variável; MAE é a média dos erros absolutos, menos sensível a valores extremos porque não eleva ao quadrado; R² é a proporção da variância da resposta explicada pelo modelo. Dos quatro, só o MSE foi medido no corpus deste tópico — e num item em que aparece justamente para ser levado indevidamente ao lado da classificação. RMSE, MAE e R² não têm item próprio até aqui.
Storytelling e leitura de painel. Um item do tópico não é métrica nenhuma: é comunicação de resultado. O princípio é o da redução — define-se a mensagem, elimina-se o que não a sustenta e conduz-se o olhar do gestor a poucos indicadores. Densidade visual aumenta a carga cognitiva e dilui a narrativa; num painel estratégico, mais elementos é menos decisão.
O que decide os itens
Qual métrica para qual saída — a separação que decide o item de MSE:
| saída do modelo | métricas |
|---|---|
| classe (classificação) | matriz de confusão, acurácia, precisão, revocação, especificidade, F1, AUC-ROC |
| número contínuo (regressão) | MSE, RMSE, MAE, R² |
Precisão × revocação — o par que a banca troca de lugar:
| precisão | revocação (sensibilidade) | |
|---|---|---|
| fórmula | VP / (VP + FP) | VP / (VP + FN) |
| denominador | coluna dos preditos positivos | linha dos reais positivos |
| erro que controla | falso positivo (alarme falso) | falso negativo (deixou passar) |
| pergunta | dos que acusei, quantos eram? | dos que existiam, quantos achei? |
| sobe quando | o limiar sobe | o limiar desce |
F1 — média harmônica, nunca aritmética. A harmônica é sempre menor que a aritmética quando os dois valores diferem, e igual apenas quando são iguais. Se o valor oferecido for exatamente a média simples de precisão e revocação, o item está errado antes de a conta fechar.
AUC-ROC — o que a curva é e o que ela não é:
| conceito | regra |
|---|---|
| eixos da ROC | y = sensibilidade; x = 1 − especificidade (taxa de falsos positivos) |
| o que varia ao longo da curva | o limiar de decisão, não o modelo |
| AUC | probabilidade de pontuar um positivo acima de um negativo sorteados ao acaso |
| comparação | maior AUC, melhor discriminação — independe do limiar escolhido |
| método não paramétrico | trapezoidal / Mann-Whitney — não supõe distribuição |
| método paramétrico | binormal — supõe distribuição, tipicamente normal |
Pré-requisito que decide item sozinho. Matriz de confusão exige classe real conhecida; classe real conhecida é rótulo; rótulo é aprendizado supervisionado. Modelo não supervisionado não tem contra o que confrontar a predição, logo não tem matriz de confusão.
Números que caem
| fórmula do F1 | 2 × (P × R) / (P + R) — média harmônica |
| faixa de acurácia, precisão, revocação e F1 | 0 a 1 |
| AUC de um classificador aleatório | 0,5 (a diagonal da ROC) |
| AUC de um classificador perfeito | 1,0 (canto superior esquerdo) |
| AUC abaixo de 0,5 | pior que o sorteio, não apenas fraco |
| exemplo do corpus: VP 60, FN 40, FP 20, VN 80 | precisão 0,75; revocação 0,60 |
| F1 desse exemplo | 66,7% (a média aritmética, 67,5%, é a isca) |
| acurácia desse exemplo | (60 + 80) / 200 = 70% |
| erro tipo I × erro tipo II | falso positivo × falso negativo |
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Medido sobre os 6 itens do tópico: 2 Certo e 4 Errado. A amostra é pequena e as proporções valem pouco, mas os quatro erros são de quatro moldes distintos e reconhecíveis, o que já ensina.
Levar uma métrica para a família errada de modelo. “MSE (mean squared error) é uma medida usada para a avaliação da acurácia de modelos de classificação” — o MSE mede a distância entre um número previsto e um número observado, o que só existe em regressão. O restante da frase é convincente de propósito: fala em fidelidade de acerto e em atributo alvo, vocabulário que serve às duas famílias. A defesa é olhar apenas a saída do modelo: classe pede matriz de confusão, número pede erro médio.
Trocar a média harmônica pela aritmética. “o F1-score, que é a média harmônica entre precisão e sensibilidade, atingiu 67,5%”, sobre uma matriz em que a precisão é 0,75 e a revocação é 0,60. O item define corretamente o F1 e entrega o número da média simples — (0,75 + 0,60) / 2 = 0,675 — quando a harmônica dá 0,667. É o molde mais perigoso do tópico, porque a definição correta na primeira metade baixa a guarda de quem lê. Quando o enunciado trouxer a matriz e pedir um valor, calcule; e desconfie de imediato se o número oferecido for a média simples das duas parcelas.
Fazer um método não paramétrico exigir distribuição. “o método não paramétrico para calcular a área sob a curva (AUC) assume que os dados seguem uma determinada distribuição” — o prefixo já contém a resposta. Não paramétrico é precisamente o que dispensa suposição sobre a forma da distribuição; quem a assume é o método paramétrico, o binormal. Item que faça um método não paramétrico exigir normalidade se contradiz sozinho, aqui como em estatística.
Inventar a causa e inverter o sinal. “o excesso de elementos visuais e métricas detalhadas fortalece o storytelling ao aumentar a precisão técnica” — excesso aumenta carga cognitiva e dilui a mensagem; o painel fica mais denso, não mais preciso. Em visualização de dados, a banca oferece sempre a mesma troca: mais informação apresentada como mais qualidade. O ganho alegado é o que está errado.
O molde dos itens Certo. Os dois itens corretos do corpus não trazem truque: afirmam uma condição de existência (“inequivocamente, essa matriz de confusão refere-se a um modelo de aprendizagem de máquina supervisionada”) e uma comparação direta de AUC (0,91 > 0,77 > 0,59, logo a primeira curva é a melhor). Vale a observação porque contraria um hábito: advérbio absoluto nem sempre marca erro. Inequivocamente aqui é legítimo, porque sem rótulo verdadeiro a matriz de confusão não pode sequer ser construída — é necessidade lógica, não exagero retórico.
Ainda não medido, mas conhecido do assunto. Precisão e revocação isoladas não foram objeto de nenhum item próprio até aqui, nem RMSE, MAE ou R². Quando aparecerem, o molde previsível é o mesmo da troca de nome: a fórmula de uma sob o rótulo da outra, e a confusão entre sensibilidade e especificidade.
Erros clássicos
Trocar o denominador de precisão e revocação. É o erro que mais custa em item com matriz numérica. Amarre pelo denominador: precisão divide pela coluna predita positiva, revocação divide pela linha real positiva. Se o item inverter a orientação da matriz e você não perceber, os dois valores trocam de lugar e a conta inteira sai coerente — e errada.
Calcular F1 como média simples. Ela só coincide com a harmônica quando precisão e revocação são iguais. Em qualquer outro caso a harmônica é menor, e é justamente esse valor menor que a banca substitui pelo maior.
Confiar na acurácia em base desbalanceada. Com classe positiva rara, a acurácia alta é atingida ignorando-se a classe de interesse. É por isso que precisão, revocação e F1 existem.
Achar que a AUC indica o limiar a usar. Ela resume o desempenho sobre todos os limiares — serve para escolher o modelo, não o ponto de operação. Escolher o limiar é uma decisão posterior, tomada sobre o custo relativo dos dois erros.
Esquecer que 0,5 é o piso útil da AUC. A faixa nominal vai de 0 a 1, mas 0,5 é o sorteio; abaixo disso o modelo está sistematicamente invertido, não apenas fraco.
Aplicar métricas de classificação a modelo de regressão, e vice-versa. Nenhuma matriz de confusão descreve saída contínua, e nenhum MSE descreve acerto de classe. A pergunta que resolve é sempre a mesma: o modelo devolve uma classe ou um número?
Esperar métrica de desempenho onde não há rótulo. Avaliar agrupamento não é avaliar classificação: sem classe verdadeira não há verdadeiro positivo, logo não há precisão, revocação, F1 nem AUC. Item que meça um modelo não supervisionado com a matriz de confusão pediu o impossível.
LidoPraticado