← tópicos

Básicos · Língua Portuguesa · Morfossintaxe

Concordância nominal: anexo, incluso, mesmo, meio, bastante, é proibido/necessário

Adjetivo não tem gênero nem número próprios — ele recebe os do substantivo que qualifica. Todo item pergunta qual é esse substantivo, e é aí que a banca troca o termo.

Altíssima28 itens no tópico

A ideia que organiza o assunto

Adjetivos, particípios, pronomes e numerais não têm gênero e número próprios. Eles recebem os do substantivo a que se prendem. Um adjetivo sozinho não é feminino nem masculino: composta só é feminino porque existe uma interseção em algum lugar do período mandando nele.

Daí decorre a única pergunta que resolve o assunto: qual é a palavra que esta forma variável qualifica? Achado esse substantivo, a flexão é automática — não há o que decidir. Não achado, nenhuma regra de concordância ajuda, porque todas elas pressupõem que você já sabe quem manda em quem.

E é exatamente aí que a prova opera. A CEBRASPE quase nunca erra a flexão: ela escreve o gênero e o número corretos e erra o termo que os governa. Diz que cuja concorda com dor quando concorda com presença; que misturados concorda com garrafas quando concorda com o PET e o isopor; que europeus concorda com milhares quando concorda com funcionários coloniais. O item parece verdadeiro porque a flexão confere — e confere mesmo, só que por outro motivo. Quem lê procurando “está no feminino, e o termo citado é feminino, então está certo” erra a metade dos itens do tópico.

A segunda operação da banca decorre da primeira. Quando há dois substantivos capazes de governar a mesma palavra — e há, com muito mais frequência do que se imagina —, trocar a flexão não é erro: é trocar de alvo. Ferramentas de pedra primitivas e ferramentas de pedra primitiva são ambas corretas; mudou quem é primitivo. O item que oferece essa troca e admite que o sentido muda costuma estar certo; o que oferece a mesma troca e promete que nada muda costuma estar errado.

Como funciona

São três passos, sempre nessa ordem, e o terceiro é o mais fácil.

Localize a palavra variável. É o adjetivo, o particípio, o predicativo, o pronome cujo, o numeral.

Pergunte de quem ela depende. Não “qual substantivo está perto”, e sim qual substantivo ela qualifica ou de qual ela é predicativo. Dois filtros eliminam a maior parte dos falsos candidatos:

Termo regido de preposição não governa nada. Em plásticos como o PET, empregado em garrafas, garrafas está depois de em e está fora do jogo. Em geoinformação em gestão urbana, gestão está depois de em e está fora do jogo. Preposição isola o substantivo.

Cada oração tem o seu próprio controlador. Em deixamos clara a intenção de que a linguagem simples seja adotada, clara é predicativo de intenção na oração principal e adotada concorda com a linguagem simples na oração seguinte. Duas palavras variáveis no mesmo trecho quase nunca respondem ao mesmo termo.

Só então confira gênero e número. A essa altura não há decisão a tomar.

O caso que a prova explora é aquele em que o passo dois devolve dois termos legítimos. Isso acontece em quatro construções, e vale a pena reconhecê-las de longe:

construçãoos dois controladores
adjetivo posposto a dois substantivosos dois núcleos (plural) ou só o mais próximo
X de Y + adjetivoo núcleo X ou o termo preposicionado Y
partitivo e numeral (a maioria de, 4,5 bilhões de)o coletivo/numeral ou o especificador
sujeito plural + predicativo nominal singular (as castanholas são uma espécie)o sujeito ou o predicativo

Nas quatro, as duas flexões são corretas. A pergunta do item deixa de ser “isso é gramatical?” e passa a ser “o que muda quando eu troco?”.

Fora dessas construções há um punhado de palavras que se comportam por conta própria — anexo, incluso, obrigado, meio, bastante, , mesmo, menos. Não são exceções à ideia central: todas obedecem à mesma pergunta, e o que varia é se a palavra está funcionando como adjetivo (e então concorda) ou como advérbio (e então não varia).

O que decide os itens

Adjetivo e dois substantivos — a posição decide o que é permitido:

posiçãogêneroso que vale
pospostoiguaisplural (credibilidade e imagem públicas) ou só o mais próximo (imagem pública)
pospostodiferentesmasculino plural (desafios e aspirações humanos) ou só o mais próximo (aspirações humanas)
antepostoquaisquernormalmente só com o mais próximo (boa fé e coragem)
anteposto, sendo nome próprioquaisquerplural obrigatório (as heroicas Maria e Joana)

Palavras com regra própria — variam quando são adjetivo, ficam invariáveis quando são advérbio:

palavravarianão varia
anexo, inclusocomo adjetivo: seguem anexas as planilhas, inclusas as despesasna locução em anexo
obrigadoconcorda com quem agradece: obrigada, disse ela
meionumeral adjetivo: meia dúzia, meia porçãoadvérbio (= um pouco): ela está meio cansada
bastanteadjetivo (= muitos): bastantes razõesadvérbio (= muito): falou bastante
adjetivo (= sozinho): ficaram sósadvérbio (= somente): só chegaram dois
mesmo, própriopronome de reforço: ela mesma, elas própriasadvérbio (= realmente): elas chegaram mesmo
menos, alerta, salvosempre invariáveis: menos pessoas, ficaram alerta
caro, barato, muitoadjetivo: livros carosadvérbio: os livros custaram caro

Estruturas em que o controlador não é quem parece:

escreve-sequem mandaquem não manda
da dor, cuja presençapresença (o consequente)dor (o antecedente)
é impossível acusara oração acusar… — daí o masculino singularqualquer nome dentro dela
tornaram possíveis a divisão e um ambienteos objetoso sujeito essas sociedades
deixamos clara a intençãoo objeto intençãoo sujeito nós
analisado como uma criseo sujeito da passivacrise, que é predicativo introduzido por como
parece bizarra a escolhaa escolha, sujeito pospostonada à esquerda do verbo

É necessário, é preciso, é bom, é proibido — invariável só quando o sujeito vem sem determinante, em sentido genérico: é necessário cautela, é proibido entrada. Com artigo, possessivo ou oração adjetiva restritiva, a concordância volta a ser obrigatória: são necessários os dados do Ministério da Saúde, que demoram um pouco mais.

Como a CEBRASPE derruba você aqui

Medido sobre os 28 itens deste tópico no corpus, todos explicados: 15 Certo e 13 Errado.

Apontar o termo errado como aquele que governa a concordância — 7 dos 13 itens errados. É mais da metade, e a fórmula é sempre a mesma: o item descreve corretamente a flexão e atribui a um termo que não pode governá-la. cuja não concorda com dor, e sim com presença; misturados não concorda com garrafas, que está dentro de empregado em garrafas; europeus não concorda com milhares, e sim com funcionários coloniais; entendida não concorda com gestão, e sim com geoinformação; analisado não concorda com o crise que vem depois de como; possíveis não concorda com essas sociedades, que é o sujeito, e sim com os objetos que foram tornados possíveis; associado não concorda com soneca habitual, que é o sujeito da oração principal, e sim com um maior volume total do cérebro, antecedente do que na adjetiva em que o particípio está. Repare no que os sete têm em comum: o termo oferecido tem o mesmo gênero e o mesmo número do verdadeiro, ou está mais perto dele. É por isso que conferir a flexão não resolve nada. Defesa: antes de aceitar o termo que o item aponta, aplique os dois filtros — ele está depois de uma preposição? ele pertence a outra oração? Se estiver, não é ele.

Prometer que a troca de flexão não custa nada — 3 dos 13. Aqui a operação proposta é gramaticalmente possível, e o item afirma que “seriam mantidos o sentido e a correção”. A correção é mantida mesmo, porque existe um segundo controlador disponível; o sentido é que muda, porque o segundo controlador é outra coisa. Instrumentalizada no masculino passaria a concordar com O costume; carregados no feminino passaria a concordar com memória. Defesa: quando o item promete as duas coisas ao mesmo tempo, confira as duas separadamente — e desconfie da promessa de sentido, que é a que costuma ser falsa.

O espelho disso, e é a regra mais rentável do tópico: quando o item admite a perda, ele acerta. Nos 28 itens, todas as cinco afirmações do tipo “manteria a correção, embora alterasse o sentido”, “apesar de alteradas as relações de concordância”, “porém alteraria o sentido original” são Certo. Não é coincidência: a banca mente prometendo que nada muda, não admitindo que algo muda. Um item que já pagou o preço da mudança normalmente está descrevendo uma construção de dois controladores, e você só precisa confirmar que os dois existem.

Estender a uma segunda palavra o que vale para a primeira — 1 dos 13. “Os termos ‘clara’ e ‘adotada’ estão em relação de concordância com a palavra ‘intenção’” — metade verdadeira. Clara é predicativo de intenção; adotada está na oração seguinte e concorda com a linguagem simples. Defesa: quando o item agrupa duas palavras sob uma justificativa só, confira cada uma isolada.

Invocar uma regra que não existe — 1 dos 13, e é o formato mais descarado. “os termos do trecho ‘é responsável’ poderiam ser flexionados no plural — são responsáveis —, sem prejuízo da correção do texto, dada a previsão gramatical de concordância nominal e verbal, nesse tipo de construção, com os elementos mais próximos — ‘carros, caminhões e ônibus’”. O sujeito é O transporte rodoviário por carros, caminhões e ônibus, cujo núcleo é transporte: a lista de veículos vem depois de por e está fora do jogo pelo primeiro filtro. Concordância com o mais próximo é real, mas vale para adjetivo posposto a substantivos coordenados — não autoriza verbo nem predicativo a concordar com um termo preposicionado. Defesa: regra citada por nome dentro do item é para ser conferida contra o seu domínio, nunca aceita pela aparência técnica. É o único item do tópico que escreve o nome da regra que invoca, e é justamente aquele em que a regra invocada não existe.

O 13.º item errado fica por conta de é necessário, e vale sozinho porque é a única construção do tópico com uma exceção nomeada: a reescrita proposta era “É necessário, para as unidades da Federação, dados do Ministério da Saúde, que demoram um pouco mais”, e o invariável só se sustenta com sujeito genérico e sem determinante. Aqui o sujeito vem especificado por do Ministério da Saúde e pela adjetiva restritiva que demoram, e a própria reescrita mantém esse plural em demoram. Defesa: diante de é necessário, é preciso, é bom e é proibido, olhe para o sujeito antes de olhar para a fórmula — determinante ou adjetiva restritiva devolvem a concordância obrigatória.

Erros clássicos

Conferir o gênero em vez de conferir o termo. Cuja é feminino e dor é feminino, e mesmo assim o item está errado. Concordância igual entre dois termos não prova qual deles manda — só a posição e o sentido provam.

Achar que o adjetivo concorda com o núcleo mais importante. Em ferramentas de pedra primitivas o adjetivo pode qualificar pedra, que é o termo secundário. Quem escolhe é a flexão, não a hierarquia.

Esquecer que em anexo é invariável e anexo não é. Seguem anexas as notas; seguem em anexo as notas. A primeira concorda porque anexas é adjetivo; a segunda não, porque a locução inteira é adverbial.

Flexionar obrigado pelo interlocutor. Concorda com quem agradece: uma mulher diz obrigada mesmo falando com um homem.

Tratar meio e bastante como palavras de uma classe só. Meia dúzia e meio cansada; bastantes razões e falou bastante. A pergunta não é qual a palavra, é qual a função.

Deixar o predicativo concordar com o sujeito quando ele é do objeto. Elas tornaram possíveis a divisão do trabalho e um ambiente favorável: possíveis olha para o que foi tornado possível, nunca para quem tornou.

Praticar28 itens