← tópicos

Básicos · Língua Portuguesa · Ortografia oficial

Porquês: por que, por quê, porque, porquê

Separado pergunta, junto responde — e o acento marca substantivo.

Altíssima56 itens no tópico

A ideia que organiza o assunto

São quatro grafias e duas perguntas. A primeira separa metade do assunto da outra metade: a sequência pergunta ou responde? Perguntando, escreve-se separado; respondendo, junto.

Por que falharam os programas de formação? Porque se descurou a formação cooperativa.

A segunda pergunta trata do acento, e é ainda mais simples: a forma está funcionando como substantivo? Substantivo aceita determinante e plural — o porquê, os porquês, um porquê —, e é essa a única forma acentuada em meio de período. No fim da frase, antes de pausa forte, a tônica final também recebe acento: Não foi, e não sei por quê.

Daí decorre tudo. Mas o corpus mostra outra coisa, e é ela que decide a prova. Em 56 itens do tópico, apenas nove testam a grafia. Nos outros, porque é apenas a dobradiça com que a banca prende uma afirmação a uma justificativa — X ocorre porque Y, a palavra está no plural porque concorda com Z — e o item se decide não na ortografia, mas na verificação da causa. Quem estuda só a regrinha das quatro formas acerta nove itens e erra os outros quarenta e sete.

Como funciona

Por que (separado, sem acento) tem dois empregos, e os dois se testam por substituição.

Interrogativo, direto ou indireto — vale por qual razão, por que motivo:

Por que arquitetura? / Não sei por que o sistema caiu.

Note o segundo exemplo: não há ponto de interrogação, e continua separado. A interrogativa indireta é a armadilha mais rentável do assunto.

Relativo, com antecedente expresso — vale pelo qual, pela qual, pelos quais:

Essa é a razão por que pode entregar a outros a tarefa. (= pela qual)

a primeira pandemia por que passou a humanidade (= pela qual passou)

Por quê (separado, com acento) é o mesmo por que, mas diante de pausa forte — final de período, antes de ponto, de ponto de interrogação ou de reticências. O acento é da tonicidade em posição final, não do sentido.

Porque (junto, sem acento) é conjunção: causal, quando explica o fato enunciado; explicativa, quando justifica o que se acabou de afirmar. Troca por já que, uma vez que, visto que, pois posposto.

estava engordando, porque a única distração em casa era comer

Porquê (junto, com acento) é substantivo: significa o motivo, pede determinante e flexiona no plural.

Ninguém explicou o porquê da decisão. / São muitos os porquês.

O erro de prova mais limpo do tópico é o que ignora essa exigência: “motivo porquê” não existe, porque falta o determinante — ali cabe motivo por que, relativo.

O que decide os itens

formateste que a confirmaexemplo
por quecabe por qual razãoPor que falharam os programas?
por quecabe pelo qual / pela quala razão por que entregou a tarefa
por quêcabe por qual razão e vem antes de pausa forteEle saiu, mas não disse por quê.
porquecabe já que, uma vez que, pois pospostoNão bebo porque vou dirigir.
porquêcabe o motivo, aceita artigo e pluralExplique o porquê disso.

Substituições que a banca propõe, e o que decide cada uma:

troca propostavale?por quê
porquejá que / uma vez quesimmesma classe, mesma relação causal
porquepois pospostosimposposto é causal-explicativo; iniciando período, seria conclusivo
por que (relativo) → pela qualsimo relativo tem antecedente expresso
comopor que em interrogativa indiretasimmuda o sentido, não a correção
Por quePorque em perguntanãojunto não pergunta
Por quePor qualnãopor qual é adjetivo, exige substantivo depois
razão pela qualmotivo porquênãoporquê substantivo pede determinante
por serem (reduzida causal) → por que eramnãosem antecedente, o relativo não tem função
gerúndio circunstancial → porque + verbosim, se o sujeito recuperado for o mesmolimitandoporque limita

Vizinhos que caem no mesmo item: onde só se troca por em que / no qual, nunca por que sozinho; cujo exprime posse, concorda com o termo possuído e jamais é seguido de artigo, de modo que “que os” não o substitui.

Como a CEBRASPE derruba você aqui

Usar o “porque” como dobradiça e mentir do outro lado dela. É a jogada que domina o tópico: trinta dos trinta e sete itens errados. O enunciado prende uma afirmação verdadeira a uma justificativa falsa, e a grafia está impecável — ela não é o alvo. O Fundo Amazônia “está bloqueado porque a Alemanha e a Noruega suspenderam os repasses”, quando a suspensão foi o efeito, e a causa foi a extinção do comitê gestor. A decisão da autoridade “foi acertada, porque não há previsão legal para contratação direta”, quando a inexigibilidade não cabia mas a dispensa por valor cabia. O email é seguro “porque instituições públicas possuem servidores com antivírus que garantem a segurança total”. Os testes não paramétricos não servem a grandes amostras “porque são menos precisos”. A CPI não pode quebrar sigilo telefônico “porque essa medida constitui cláusula de reserva de jurisdição” — e o que a reserva alcança é a interceptação, não a quebra de registros. Defesa: leia o item em duas metades. Confira a primeira sozinha; confira a segunda sozinha; e só então pergunte se a segunda realmente causa a primeira, e não o contrário.

Inverter causa e consequência mantendo os dois fatos verdadeiros. Subconjunto do anterior, e o mais difícil de ver, porque nada no item soa falso. A senhora “revoltou-se antes do tempo” e “não viu a condenação do conde”: os dois fatos estão no texto, mas o segundo é consequência do primeiro, e o item o apresenta como sua causa. Os internautas querem mais “porque ainda não têm o conhecimento básico”, quando o texto diz o contrário — “já sabem o básico: querem mais”. Defesa: teste a inversão em voz alta. Se “porque B, A” não se sustenta, então B não causa A, por mais verdadeiros que A e B sejam.

Justificar uma flexão pelo termo errado. Sete itens. A estrutura é sempre “a palavra X está no feminino/plural porque concorda com Y”, e Y é o substantivo mais próximo, não o correto: “afastados” concordaria com “problemas” quando concorda com “monólogos”; “realizada” com “transmissão” quando concorda com “educação sanitária”; “terem” e “abrirem” com “vizinhos” quando o sujeito das reduzidas é outro. E, no caso mais bonito, “Fazia” estaria no singular “porque concorda com o termo ‘calor’” — quando fazer de fenômeno é impessoal e não tem com quem concordar. Defesa: reconstrua a oração reduzida na forma desenvolvida e pergunte quem pratica a ação. Proximidade não é referência.

Trocar a forma e afirmar que a correção se mantém. Catorze itens do tópico propõem substituição, e sete deles são falsos. Aqui a grafia importa de verdade: Porque no lugar de Por que em pergunta direta; Por qual sozinho no lugar de Por que; motivo porquê no lugar de razão pela qual; por que eram no lugar de uma reduzida causal. Defesa: aplique o teste de substituição antes de julgar a frase nova — cabe por qual razão? cabe pela qual? cabe já que? cabe o motivo? Uma das quatro responde sempre.

Erros clássicos

Achar que sem ponto de interrogação não há pergunta. Não sei por que ele saiu é interrogativa indireta e se escreve separado. É o erro mais caro do assunto.

Escrever porquê sem determinante. Motivo porquê, razão porquê e sei porquê no meio da frase são todos incorretos. Sem o, um ou esse antes, a forma acentuada não entra.

Esquecer que por quê final não muda de sentido. O acento vem da posição tônica antes de pausa forte, não de significado próprio. Por que ele saiu? e Ele saiu por quê? são a mesma pergunta.

Confundir pois posposto com pois inicial. Não vou, pois está chovendo é causal e equivale a porque. Pois vá é conclusivo e não equivale a nada disso.

Ler “razão por que” como erro de grafia. É a forma correta do relativo, e quando ela aparece bem escrita num item errado, o alvo é o conteúdo que ela liga — não a ortografia.

Aceitar a causa porque os dois fatos são verdadeiros. Verdade das partes não é verdade da relação. A maior parte deste tópico se ganha exatamente aí.

Praticar56 itens