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Regência verbal: assistir, aspirar, visar, implicar, preferir, obedecer etc.
Quem escolhe a preposição é o verbo, e o verbo escolhe conforme o sentido em que está sendo usado. Erre a regência e você erra em cascata — a crase, o relativo e o próprio significado da frase.
Altíssima39 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Regência é a relação entre um verbo e o complemento de que ele precisa. E ela é propriedade do verbo, não da frase: não se descobre olhando a palavra que vem depois, descobre-se perguntando ao verbo o que ele exige.
São só três respostas possíveis. O verbo pede complemento sem preposição (transitivo direto: ver algo, impactar algo, acarretar algo); pede complemento com preposição (transitivo indireto: assistir a algo, obedecer a algo, resultar em algo); ou não pede complemento nenhum (intransitivo: chegar, surgir, brilhar, resultar na acepção de “advir”).
Duas consequências organizam tudo o que cai.
A primeira: a regência muda com o sentido. O mesmo verbo, em duas acepções, tem duas regências, e a preposição é o que distingue as duas — assistir a uma sessão é ver, assistir um doente é auxiliar; aspirar ao cargo é almejar, aspirar o ar é sugar; visar a um objetivo é ter por fim, visar o cheque é pôr visto. Não é ornamento gramatical: é a frase querendo dizer outra coisa.
A segunda: a regência é a nascente de três outros assuntos. A preposição que o verbo exige é o primeiro dos dois ingredientes da crase — sem ela não há o que fundir, e a metade da disciplina que trata de acento grave depende desta aqui. É também a preposição que aparece diante do pronome relativo (a que, de que, com o qual). E é ela que decide se um item de reescrita mantém ou destrói a frase.
Antes de tudo isso, porém, vem uma pergunta que a banca explora mais do que qualquer par de acepções: aquele termo é mesmo complemento? Um terço dos itens errados do tópico chama de complemento o que é sujeito posposto.
Como funciona
Pergunte ao verbo, não à frase. Isole o verbo, ponha um sujeito qualquer e complete: alguém assiste — o quê? a quê? A resposta vem antes de você olhar o texto, e é ela que você confere contra o texto.
Troque o complemento por um pronome. É o teste mais rápido que existe:
substituível por o, a, os, as → transitivo direto (impactar a saúde → impactá-la);
substituível por lhe, a ele, a ela → transitivo indireto (obedecer às normas → obedecer-lhes).
É esse teste que resolve rogou-lhe que dormisse: como o verbo pede lhe, o complemento nominal correspondente é ao menino, jamais o menino.
Antes de classificar, verifique se é complemento. Verbo intransitivo não tem objeto: o que vier depois dele é sujeito, ainda que a ordem engane. O teste é desinverter:
Resultou daí um extraordinário desenvolvimento → um extraordinário desenvolvimento resultou daí. Sujeito.
surgiu a necessidade de espaços → a necessidade de espaços surgiu. Sujeito.
brilhava o brilho da água → o brilho da água brilhava. Sujeito.
Verbo de ligação também não tem complemento — tem predicativo: em “Ridicularizar Descartes tornou-se moda”, quem é sujeito é a oração Ridicularizar Descartes, e moda é predicativo.
Quando o verbo admite as duas regências, a reescrita passa. Atender os estudantes e atender aos estudantes; adentrar um salão e adentrar em um salão; constar dos papiros e constar nos papiros; juntar-se a alguém e juntar-se com alguém; convidar a e convidar para. Nesses, o item que propõe a troca é Certo — e são muitos.
O que decide os itens
Os pares de sentido — o núcleo clássico do assunto:
| verbo | com preposição | sem preposição |
|---|---|---|
| assistir | assistir a = ver, presenciar; caber (direito) | assistir = auxiliar, prestar assistência |
| aspirar | aspirar a = almejar, desejar | aspirar = sugar, inalar |
| visar | visar a = ter por objetivo | visar = mirar; pôr visto em documento |
| proceder | proceder a = realizar; proceder de = originar-se | proceder = ter fundamento |
| implicar | implicar em = enredar alguém; implicar com = importunar | implicar = acarretar, ter como consequência |
| querer | querer a = estimar | querer = desejar |
Duas notas que decidem itens sozinhas. Diante de infinitivo, visar e aspirar costumam dispensar a preposição: visam alterar estilos cognitivos está correto, e não porque visar mudou de acepção. E implicar, no sentido de acarretar, é transitivo direto — implicava a reorganização, nunca implicava na reorganização.
O trio que a banca opõe o tempo todo:
| verbo | construção | efeito da troca cega |
|---|---|---|
| resultar | resultar em algo | resultaria em discriminação |
| acarretar | acarretar algo | acarretaria em é erro |
| implicar | implicar algo | implicava a reorganização; implicava na é erro |
Trocar resultar em por implicar mantém a correção (implicariam novas experiências). Trocar resultar por acarretar sem tirar o “em” destrói. É a mesma sinonímia com duas regências diferentes.
Verbos que só aceitam objeto direto — e cuja “variação” o item inventa:
| verbo | correto | o que a banca propõe |
|---|---|---|
| orientar | orientaria alunos | orientaria aos alunos |
| impactar | impactar a saúde mental | impactar na saúde mental |
| demandar (= exigir) | demandar reconhecimento | demandar por reconhecimento |
| namorar, perdoar (coisa), pagar (coisa) | objeto direto | acréscimo de a ou em |
Verbos que exigem a preposição — e cuja supressão o item propõe:
| verbo | exige |
|---|---|
| ajudar + infinitivo | ajudam a reduzir |
| remontar (= datar de) | remonta ao Segundo tratado |
| remeter (= referir-se) | remete a uma proposta — não é facultativo |
| obedecer, desobedecer | obedecer a |
| referir-se, dirigir-se | referir-se a |
| chegar (lugar, resultado) | chegar a — nunca chegar em, na norma escrita |
Verbos com dois complementos — o item costuma negar o segundo: obrigar alguém a algo (obrigar a economia global a convocar outras fontes), rogar a alguém que, pedir a alguém que, informar algo a alguém.
Onde a regência vira crase. O verbo fornece a preposição; o artigo vem da palavra seguinte; o acento só existe com os dois. Chegam à paisagem é correto, chegam à um metro de altura não é — a preposição está lá, o artigo feminino não, porque um metro é masculino e indeterminado. Quem só decorou “chegar pede a” cai nessa.
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Chamar de complemento o que é sujeito. Sete dos 21 itens errados — a maior concentração do tópico, e ela não está em nenhuma lista de “verbos que mudam de sentido”. O molde é sempre o mesmo: “o segmento X funciona sintaticamente como complemento da forma verbal Y”, com o termo apontado depois do verbo. Em “Chegou o novo cartão do Banrisul”, “surgiu a necessidade de espaços e práticas”, “Resultou daí um extraordinário desenvolvimento”, “brilhava o brilho da água deles”, “Conforme estabelece o projeto de lei” e “Ridicularizar Descartes tornou-se moda”, o termo é o sujeito posposto ou o predicativo, e o verbo não tem complemento nenhum.
O item explora dois hábitos ao mesmo tempo: o de ler “o que vem depois do verbo é objeto” e o de confiar na ordem direta. Defesa: desinverta a oração antes de classificar. Se o termo puder vir na frente e o verbo concordar com ele, é sujeito — e, se o verbo concorda, a discussão de regência nem começa.
O molde também aparece Certo, com a mesma cara, e é aí que o candidato assustado erra para o outro lado: “o verbo obrigar rege dois complementos”, “a oração que a sobrevivência não é assegurada exerce a função de complemento de assentou”, “o pronome nos funciona como complemento de acompanhará”. O teste é o mesmo, e ele responde os dois.
Substituir o verbo e manter a preposição do antigo. “A correção gramatical e o sentido do texto seriam mantidos caso a forma verbal resultaria (…) fosse substituída por acarretaria” — e a frase fica acarretaria em discriminação. O sinônimo é perfeito e a regência é outra. Defesa: ao ver uma proposta de troca de verbo, não avalie o sinônimo; escreva a frase nova inteira e veja o que sobrou de preposição no meio dela.
Inserir, suprimir ou trocar a preposição. Nove itens, e aqui a distribuição é quase meio a meio, de modo que a impressão não ajuda. Errado quando o verbo não admite a variação: orientaria aos alunos, impactar na saúde mental, demandar por reconhecimento, supressão do a em ajudam a reduzir. Certo quando admite: atende(r) a um público × atender um público, adentrar (em) um salão, constar dos/nos papiros, juntou-se a/com, convidar a/para, ter que/ter de. Defesa: a pergunta não é “soa bem”, é “este verbo, neste sentido, aceita as duas?”.
Dizer que a preposição é facultativa quando ela é obrigatória. “É facultativo o uso da preposição a para introduzir o complemento da forma verbal remete.” É a mesma engenharia dos itens de crase: a banca oferece uma terceira via que não existe. Ou o verbo rege a preposição, ou não rege. Sem meio-termo.
Acertar a regência e errar a acepção. “A ausência da preposição a (…) justifica-se pelo fato de que o verbo visar está empregado com a acepção de validar.” A conclusão está certa — ali não cabe preposição —, mas pela razão errada: visar está no sentido de ter por objetivo, e o que dispensa a preposição é o complemento ser um infinitivo. Defesa: quando o item explicar a regência pelo sentido, traduza o verbo no contexto e veja se a tradução cabe. “Validar” não cabe em “Algumas visam alterar estilos cognitivos”.
Um aviso medido. Assistir e obedecer são os dois verbos que todo mundo decora — e não decidiram um único item deste corpus. O que decidiu foi implicar, resultar, acarretar, atender, pensar, aspirar, visar e, acima de tudo, a diferença entre sujeito e complemento. Saiba os clássicos, mas não invista neles o tempo que pertence ao resto.
Erros clássicos
“Implicar em”. O erro campeão da língua. Implicar, no sentido de acarretar, é transitivo direto: a mudança implica riscos. Com em, o verbo passa a significar enredar ou importunar.
Achar que sinônimo carrega regência. Acarretar não herda o em de resultar; pensar não herda o sobre de refletir; converter-se não herda a ausência de preposição de tornar-se — é preciso pôr o em.
Concluir a transitividade pela posição. O termo que vem depois do verbo pode ser sujeito. Falta dois meses e surgiu as necessidades são erros de concordância que nascem exatamente daí.
Tratar “chegar em” e “ir na” como norma escrita. São correntes na fala e reprovados na prova: cheguei ao escritório, fui à reunião.
Esquecer que o “se” denuncia a regência. Espera-se que os genéricos sejam baratos: como esperar é transitivo direto, o se é apassivador e a oração é sujeito — não há sujeito indeterminado nem complemento. Só verbo transitivo indireto ou intransitivo produz índice de indeterminação.
Parar na preposição e não olhar o artigo. Chegar a está certo; chegam à um metro de altura está errado. A regência entrega a preposição, mas a crase ainda precisa do artigo, e ele depende da palavra seguinte.
LidoPraticado