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Tempos e modos verbais: valores, pretéritos, subjuntivo, correlação de tempos
Tempo diz quando o evento ocorre; modo diz o quanto o autor se compromete com ele. Quase todo item deste tópico troca um valor de compromisso por outro.
Altíssima80 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Um verbo flexionado carrega três informações, e é preciso separá-las antes de julgar qualquer item.
Tempo localiza o evento numa linha: antes, durante ou depois de um ponto de referência. Aspecto diz como o evento se distribui nesse intervalo: pontual, durativo, habitual, concluído. Modo não fala do evento — fala do enunciador: declara se ele assume aquilo como fato (indicativo), se o apresenta sem assumir (subjuntivo e futuro do pretérito) ou se convoca alguém a realizá-lo (imperativo).
Daí decorre a regra que organiza o assunto inteiro: tempo é o eixo menor; modo é onde os itens se decidem. A banca raramente erra ao dizer que uma forma está no passado. Ela erra — deliberadamente — ao dizer o que aquela forma faz. Uma hipótese vira certeza, uma asserção vira conjectura, uma finalidade vira desejo, uma projeção vira fato consumado.
Quem lê o item perguntando “isso está no pretérito?” acerta pouco. Quem lê perguntando “o autor está assumindo isso como fato, ou não?” acerta quase tudo — e ainda leva a mesma pergunta para Inferência e Ideia central, onde ela decide outros tantos itens.
Como funciona
O passado tem três relações, não três tempos. O pretérito perfeito fecha o evento (tomei um comprimido); o imperfeito o deixa aberto, e daí seus dois valores, duração e hábito (tentava escrever, vinha, apertava, avisava); o mais-que-perfeito antecede outro passado já presente no contexto (recorrera, matara, anteriores à recordação). O mais-que-perfeito nunca é o tempo do fato principal: é sempre relativo a outro passado, e se não houver esse outro passado por perto, a forma não teria função.
O presente tem três empregos, e a banca embaralha os três. O presente do momento da enunciação precisa de âncora dêitica (aqui estou eu escrevendo); o presente atemporal enuncia o que vale sempre, e é o padrão de todo texto que define, conceitua ou expõe (a corrupção se materializa a partir de trocas); o presente histórico narra o passado (em 1962, Darcy funda a UnB; na entrevista, ele afirma). Nenhum dos três significa “começou no passado e continua até agora” — esse valor é do pretérito perfeito composto (tem-se pesquisado, têm alcançado), e trocá-lo pelo presente é a armadilha mais repetida da lista.
O futuro tem um valor temporal e um valor modal. Chegará amanhã projeta; serão três horas, será a aula de Dona Palmira? supõe. Futuro do presente em pergunta, ou ao lado de uma alternativa, quase sempre é suposição — não tempo.
O futuro do pretérito quase nunca é tempo. São três valores: hipótese, ligada a uma condição explícita ou implícita (se lhe faltasse compreensão, seria imprudente; tudo se sanearia desde casas abertas); atenuação ou cortesia (gostaria, eu diria, deveria ser objeto de um tratado); e futuro do passado, que é o único em que o fato efetivamente ocorreu (a garantia de que nenhum governo seria reconhecido; Drever seria influenciado pelas descobertas). Antes de responder, procure o marco: havendo verbo no pretérito que instale o ponto de vista, é futuro do passado; havendo condição, é hipótese; não havendo nem um nem outro, é atenuação.
O subjuntivo nunca aparece sozinho. Ele é sempre licenciado por um gatilho, e identificar o gatilho é o que nomeia o valor:
- uma conjunção — para que (finalidade), embora, ainda que (concessão), antes que, até que (tempo), caso, a menos que (condição);
- o verbo da oração principal — querer, evitar, duvidar, temer, prever no sentido de determinar;
- um advérbio anteposto — talvez, quem sabe;
- um antecedente indefinido na relativa — uma carta que termine assim, acordos que mantenham, seja lá o que for que aconteça.
Sem gatilho, não há subjuntivo; e como cada oração tem o seu, duas formas no subjuntivo dentro do mesmo período não significam que uma governe a outra.
Os três tempos do subjuntivo se escolhem pelo gatilho, não pelo sentido. Presente (seja) depois de conjunção concessiva, final ou de verbo volitivo; imperfeito (fosse) quando o eixo é passado ou quando a condição é contrafactual; futuro (for) apenas em oração condicional ou temporal introduzida por se, quando, enquanto, assim que, conforme, e em relativa de valor futuro. Trocar um pelo outro não gera uma segunda redação possível: gera agramaticalidade.
Imperativo e presente do subjuntivo são formalmente idênticos na terceira pessoa (acesse, imagine, levante). Quem os separa é a sintaxe: forma em oração subordinada é subjuntivo; forma em oração independente que convoca o interlocutor a agir é imperativo.
Aspecto é coisa das locuções. Ir, vir, estar, andar + gerúndio marcam processo em curso (foram sendo aprendidos, vêm se tornando, para ir se integrando); passar a + infinitivo marca início de estado; haver de + infinitivo exprime futuro sem estar no futuro (hão de esperar). Numa locução, quem carrega a flexão é o auxiliar, mas quem carrega o valor é a construção inteira — analisar o auxiliar isolado é exatamente o erro que a banca planta.
O que decide os itens
Os pares que a banca opõe:
| par | o que muda |
|---|---|
| perfeito × imperfeito | evento fechado × em curso, habitual ou de fundo |
| perfeito × perfeito composto | fato concluído × repetido/continuado até agora |
| mais-que-perfeito simples × composto | nada: fora = havia sido, pensara = tinha pensado |
| perfeito × mais-que-perfeito | fato do plano principal × fato anterior a ele |
| futuro do presente × futuro do pretérito | assumido × hipotético, atenuado ou futuro do passado |
| presente atemporal × presente do momento × presente histórico | verdade geral × agora da escrita × passado atualizado |
| indicativo × subjuntivo | assumo como fato × não assumo |
| imperativo × presente do subjuntivo | oração independente × oração com gatilho |
A correlação de tempos, que decide sozinha vários itens:
| na subordinada | na principal |
|---|---|
| se + futuro do subjuntivo (se houver) | futuro do presente ou presente |
| se + imperfeito do subjuntivo (se houvesse) | futuro do pretérito |
| verbo principal no presente | presente do subjuntivo (evitam que chegue) |
| verbo principal no passado | imperfeito do subjuntivo (pediram que fosse) |
Substituições: o que passa e o que não passa. Vale a pena decorar as duas listas, porque 29 dos 80 itens do tópico são propostas de troca.
| passa | não passa |
|---|---|
| mais-que-perfeito simples ↔ composto | forma que o gatilho não licencia (talvez coexistem, quando controlem) |
| perfeito ↔ presente histórico | particípio inexistente (escrevido) |
| imperfeito narrativo ↔ perfeito (nascia / nasceu) | troca que desfaz a correlação (se houver → se houvesse) |
| auxiliares do mesmo grupo aspectual (estão se tornando / vêm se tornando) | troca do auxiliar que muda a construção (estivesse impregnada → tivesse) |
| indicativo ↔ subjuntivo em relativa ou completiva que admite os dois | troca que cruza o valor do tempo, quando o item promete manter os sentidos |
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Medido sobre os oitenta itens do tópico, todos explicados: quarenta e dois Certo e trinta e oito Errado.
A primeira coisa que a medição mostra não é um rótulo, é uma divisão do tópico em dois blocos de tamanhos muito diferentes quanto ao risco. Vinte e nove itens propõem uma substituição de forma verbal e cinquenta e um apenas nomeiam o que uma forma é ou faz. Os que propõem a troca são majoritariamente Certo — dezoito contra onze. Os que apenas nomeiam concentram o perigo: vinte e sete dos trinta e oito itens errados, 71%, não mexem uma letra no texto; eles põem um rótulo numa forma que já está lá, e erram o rótulo. Se você só tiver tempo para treinar uma coisa neste tópico, treine ler o predicado do enunciado — “expressa”, “indica”, “sinaliza”, “denota”, “justifica-se por” — com a mesma desconfiança com que leria uma proposta de reescrita.
Nomear o valor errado da forma. É o maior grupo isolado: cerca de quinze dos itens errados. A forma é corretamente localizada, o modo às vezes até é corretamente identificado, e então o item declara o que aquilo significa — e declara outra coisa. “Chegue” estaria no subjuntivo “por expressar um desejo”, quando está em oração final introduzida por para que; “enquanto não for possível” “expressa uma vontade”, quando exprime condição temporal; “mantenham” “expressa um fato improvável”, quando exprime fato desejado; “imagine” “expressa um desejo do autor do texto em relação ao leitor”, quando exorta; “tentava” “designa uma ação anterior à veiculada na oração”, quando o imperfeito marca simultaneidade; “Será a aula de Dona Palmira” “projeta o acontecimento em questão (a aula) para o futuro”, quando o futuro ali supõe. Defesa: nunca aceite um valor pela aparência. Localize o gatilho — conjunção, verbo da principal, advérbio, antecedente indefinido, condição — e deixe que ele nomeie o valor.
Lavagem de modalidade — e aqui ela corre nos dois sentidos. Em Inferência e em Ideia central, a medição mostrou um mecanismo único: hipótese, projeção no futuro do pretérito, intenção declarada ou recomendação apresentadas como fato consumado. Ele está presente aqui, como se esperaria do tópico em que a modalidade é gramatical e não lexical, e responde por cerca de um terço dos itens errados — mas com uma diferença que vale conhecer, porque muda o que se procura. Nos outros tópicos a lavagem só vai num sentido; neste, a direção inversa é ligeiramente mais frequente.
No sentido conhecido, a banca converte o não assumido em fato: o futuro do pretérito “sanearia” seria empregado “para expressar a certeza da impossibilidade do saneamento”; o subjuntivo “termine” provaria que a carta real “na realidade, não se encerra” com aquelas palavras; do futuro “haverá” se concluiria “que Jean Paul Prates ainda não foi efetivado na presidência da PETROBRAS”; “reajustariam” e “revisariam” “expressam ações que estavam prestes a acontecer no passado”; trocar era por seria deixaria a afirmação “mais categórica que a que se verifica no texto”.
No sentido inverso, ela pega uma asserção no indicativo e a rebaixa a conjectura: o presente do indicativo “evidencia a intenção do autor de exprimir hipóteses, conjecturas, estimativas”; “narrará” “sinaliza a provável ocorrência da ação de narrar”; “seria”, que é futuro do passado assumido pela narração, “indica um distanciamento entre a opinião da autora e o conteúdo da frase”; o futuro do presente de “dormirás, amarás, sonharás, morrerás talvez” estaria “flexionado em modo verbal que denota ideia de incerteza”, quando a incerteza vem do advérbio; e o mais-que-perfeito “passara”, que assevera que o ano virou, seria subjuntivo e daria ao período “o sentido de uma suposta alegação”, quando o que ele registra é um fato consumado que o menino não viu.
Defesa, para as duas direções: pergunte de quem é o compromisso. Indicativo assevera; subjuntivo e futuro do pretérito suspendem; advérbio modaliza sem mexer no modo — e o teste é retirar o advérbio e ver se a dúvida sai junto com ele.
Propor uma substituição — e aqui a banca mente menos do que em outros tópicos. São 29 itens, 18 Certo e 11 Errado. Em Crase, em Vírgula e em Reescrita, a promessa de manutenção quase sempre é falsa; aqui ela é verdadeira em quase dois terços dos casos, porque muitas trocas verbais são de fato inócuas: fora por tinha sido, havia ocorrido por ocorrera, tinha pensado por pensara, nascia por nasceu, pediu por pede, diria por dizia, teria por tem, estão se tornando por vêm se tornando. Não responda Errado por reflexo. Os onze que caem caem por dois motivos distintos e fáceis de separar, e a medição os separa sozinha: os quatro que prometem manter “os sentidos” são os únicos em que a forma proposta é gramatical. Nos outros sete, a forma proposta simplesmente não é licenciada pelo contexto — talvez anteposto não aceita indicativo, quando não aceita presente do subjuntivo, embora não aceita imperativo, estar + particípio não aceita ter, se houver não convive com a principal de se houvesse, escrevido não existe. Defesa: leia primeiro o que o item promete. Promessa de correção e coerência costuma sobreviver; promessa que inclua os sentidos, numa troca que cruze o valor do tempo ou do modo, não sobrevive nunca.
Inventar o gatilho. Quatro itens. O subjuntivo está lá, o valor até está certo, e o item atribui a forma a quem não a rege: o emprego de “aconteça” “decorre do uso de ‘for’, também flexionado no subjuntivo”, quando decorre da indefinição do antecedente; “evolua” seria “determinado pela forma verbal ‘enfrentemos’, também no subjuntivo”, quando quem o rege é antes que; “levante” estaria no imperativo “devido ao emprego da conjunção ‘Embora’”, quando conjunção subordinativa jamais rege imperativo; e um item constrói a cadeia inteira — visto que X, conclui-se que Y, em obediência ao paralelismo temporal — com as três pontas falsas. Defesa: proximidade não é regência. Identifique a conjunção que introduz cada oração antes de vincular uma forma à outra.
Classificar a forma na classe errada, escondida numa lista. Cinco itens, e todos seguem o mesmo desenho: o item enumera formas, acerta a maioria e encaixa uma que não pertence ao grupo. “Imagine-se” e “Escuta” são imperativos, mas “Entende?” é presente do indicativo; “prevê” e “cobra” estão no presente do indicativo, mas “alinhe” está no subjuntivo; “hão” não “corresponde a uma forma abreviada de haverão”, e sim ao presente do indicativo dentro da locução haver de + infinitivo; Susanita não emprega imperativo “em todas as falas dirigidas a Mafalda”; e “passara”, no período O ano passara sem que ele o visse, é mais-que-perfeito do indicativo, de modo que as orações não “estão construídas com verbos no modo subjuntivo” — há uma forma em cada modo. Defesa: quando o item traz formas no plural, classifique uma a uma; basta que uma esteja em outro modo para o item cair. Desconfie da terminação em -e na terceira pessoa dos verbos de primeira conjugação (alinhe, pague, negue), que é subjuntivo e não indicativo, e da terminação em -ara (passara, acertara, recorrera), que é indicativo e não subjuntivo.
Um detalhe medido que vale um item: nos três itens em que o enunciado emprega a palavra imperativo, o gabarito foi Errado nas três vezes. Não é regra, mas é sinal: a banca usa o rótulo justamente porque as formas do imperativo se confundem com as do subjuntivo e do indicativo.
Ligar o tempo predominante ao propósito do texto. Sete itens, e a diferença entre o certo e o errado é um acréscimo de uma linha. “O predomínio do pretérito perfeito justifica-se pela apresentação de eventos que ocorreram e se concluíram antes da produção do texto” é Certo. O mesmo enunciado com “cujos efeitos, além de ainda serem sentidos no momento atual, afetam o tempo presente” é Errado, porque esse acréscimo descreve o perfeito composto. O mesmo vale do outro lado: o presente do indicativo de um texto que define é atemporal, e dizer que ele serve para “descrever eventos que ocorriam no momento da produção do texto”, para “aproximar o leitor do exato momento em que a autora escrevia o texto” ou que “as ações apresentadas tiveram início no passado e se estendem até o momento atual” é errado nas três versões. Defesa: leia a frase até o fim. A primeira metade costuma estar certa; o erro mora na oração que vem depois da vírgula.
Erros clássicos
Confundir pretérito perfeito com pretérito perfeito composto. Alcançaram é fato fechado; têm alcançado é fato repetido até agora. É o par mais explorado do tópico e não há troca entre eles que preserve o sentido.
Achar que mudar de modo não muda nada. Muda sempre: o modo é a declaração de compromisso do autor. A troca pode manter a correção — e frequentemente mantém —, mas o sentido ela altera por definição.
Ler talvez, possivelmente ou quem sabe como se fossem modo verbal. São advérbios. A dúvida que eles introduzem é lexical; retire a palavra e ela some.
Esquecer que o mais-que-perfeito é relativo. Ele só existe em função de outro passado. Sem esse segundo ponto no contexto, a forma não teria razão de estar ali — e é isso que se confere antes de aceitar qualquer troca por perfeito.
Tratar o futuro do pretérito como tempo. Só num dos seus três valores ele designa algo que aconteceu. Nos outros dois, ele existe justamente para não afirmar.
Aceitar for onde o contexto pede seja. As duas formas do subjuntivo não são variantes estilísticas: cada uma tem os seus gatilhos, e trocar uma pela outra produz erro, não uma segunda redação.
Julgar a troca pela aparência da forma proposta. Reconstrua o período inteiro com a forma nova, confira o gatilho, confira a correlação com a principal e só então responda — e verifique antes o que o item prometeu manter.
LidoPraticado