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Concordância com 'se': passiva sintética × indeterminação do sujeito

Olhe a regência antes da etiqueta: transitivo direto com termo promovível, o “se” é apassivador e o verbo concorda; verbo com preposição, sujeito indeterminado e verbo no singular.

Altíssima26 itens no tópico

A ideia que organiza o assunto

Existem duas construções com se e um verbo na terceira pessoa, elas se parecem muito, e a diferença entre as duas é inteiramente do verbo, não do pronome:

Vendem-se casas. — vender é transitivo direto, casas é o que se vende, e por isso casas sobe a sujeito. O verbo concorda com ele e vai ao plural. O se é pronome apassivador: a oração está na voz passiva sintética.

Precisa-se de funcionários. — precisar de é transitivo indireto, funcionários está preso à preposição e preposição isola: nenhum termo ali pode virar sujeito. O verbo fica na terceira pessoa do singular para sempre. O se é índice de indeterminação do sujeito.

Toda a matéria cabe nessa oposição, e ela se decide com uma pergunta só: o verbo tem objeto direto para promover? Tendo, é apassivador e há sujeito; não tendo — porque o verbo é intransitivo, de ligação ou exige preposição —, é índice de indeterminação e o verbo não tem com o que concordar. É a mesma fronteira que a nota de Funções do que e do se descreve como a terceira pergunta do pronome e que a nota de Concordância verbal usa para decidir a flexão. Aqui ela é o assunto inteiro, e por isso vale ir mais fundo.

Fundo significa entender por que a banca escolheu justamente esta fronteira. Porque ela é a única em que o candidato consegue chegar à conclusão certa pelo caminho errado. Em vendem-se casas ninguém sabe quem vende; em precisa-se de funcionários também não. O agente está oculto nas duas, a frase soa impessoal nas duas, e a intuição diz “sujeito indeterminado” nas duas. Mas ocultar o agente não é indeterminar o sujeito. Na passiva sintética o sujeito está lá, escrito, é o paciente, e o verbo concorda com ele; o que sumiu foi o agente, que na voz passiva sempre pode sumir. A indeterminação é outra coisa: é não haver termo algum na oração ao qual atribuir a ação.

Essa confusão não é um efeito colateral do tópico — é o tópico. Dos 21 itens errados do corpus, 13 consistem exatamente nisso: apontar um se e declarar indeterminado (ou impessoal, ou “não expresso”) um sujeito que está escrito ali, duas palavras adiante. A defesa é sempre a mesma e é mecânica: antes de aceitar a palavra indeterminado, procure o sujeito. Ele costuma estar posposto, dentro de uma oração, ou escondido na desinência do verbo.

Como funciona

Primeiro: o se é pronome? Se ele abre uma oração inteira, é conjunção — condicional quando cabe caso, integrante depois de verbos de indagação (não se sabe se a primeira eleição foi para deputado). Conjunção não classifica sujeito nenhum, e itens do tipo caem fora deste tópico. Ficando preso a um verbo, antes ou depois dele, é pronome, e aí começa a análise.

Segundo: o verbo existe sem o pronome? Não existindo, o se é parte integrante do verbo e não exerce função: arrepender-se, queixar-se, lembrar-se, desenvolver-se, chocar-se, deparar-se. Nesses o sujeito é o agente e está expresso ou na desinência — nada a indeterminar.

Terceiro: o sujeito pratica a ação sobre si mesmo? Cabendo a si mesmo, é reflexivo: as cidades devem posicionar-se de forma diferente — são elas que se posicionam. Reflexivo tem sujeito agente, e por isso a paráfrase passiva (devem ser posicionadas) o trai: passiva entrega a ação a outrem.

Quarto, e só aqui: sobrou verbo com se, sujeito não agente. Agora vale a oposição do começo. Pergunte a transitividade:

o verbopode promover?o se éo verbo
transitivo direto, com termo sem preposição ao ladosimapassivadorconcorda com o paciente
transitivo indireto, intransitivo ou de ligaçãonãoíndice de indeterminação3.ª pessoa do singular, fixa

Três testes confirmam a leitura, em ordem de velocidade:

O teste da preposição — o mais rápido. Termo regido de preposição nunca vira sujeito. Havendo preposição colada ao verbo — fala-se de bombas, depara-se com os gastos, trata-se de um processo, precisa-se de funcionários —, não há promoção possível e o se é índice de indeterminação, por mais plural que seja o termo depois da preposição. Medido no corpus: os três únicos itens Certos que afirmam sujeito indeterminado são exatamente os três em que o verbo carrega preposição. Nenhum dos treze errados carrega.

O teste do plural — o mais barato. Verbo no plural não tem sujeito indeterminado, porque a indeterminação prende o verbo no singular. Logo, todo se ao lado de forma plural é apassivador (ou reflexivo, ou parte integrante), e nunca índice. Oito dos 21 itens errados morrem só com isso: distinguem-se três tipos, não se poderiam resolver todas as questões, encontram-se os direitos, misturaram-se dois processos, abriram-se as urnas, nem se lembram, os dias que se seguiram.

O teste da passiva analítica — o mais seguro. Converta: misturaram-se dois processosdois processos foram misturados; abriram-se as urnasas urnas foram abertas. Funcionando a conversão, o se era apassivador e as duas formas dizem o mesmo. Não funcionando — precisa-se de funcionários não vira funcionários são precisados —, era índice de indeterminação. Esse teste tem a vantagem de decidir também os itens que propõem a reescrita, que são um quarto do tópico.

Uma palavra sobre o se de realce. Com verbo intransitivo, há duas saídas, e o que decide é se sobrou na oração um sintagma nominal sem preposição e sem função. Sobrando, ele é o sujeito e o se é expletivo, suprimível: vagou-se um cargo (= vagou um cargo), foi-se o tempo. Não sobrando, o sujeito é indeterminado: vive-se bem aqui. A simplificação “verbo intransitivo implica indeterminação” é justamente o que a banca cobra.

O que decide os itens

Três estados de sujeito, e o item mente sobre qual é:

estadocomo se reconheceexemplo do corpus
determinadohá termo, expresso ou na desinência, a que atribuir a açãoLouva-se a tendência brasileira; Destaca-se (…) o efeito; Nem se lembram (eles)
indeterminadonenhum termo da oração pode ser sujeito, porque o verbo pede preposição ou não tem objetoFala-se de bombas eletrônicas; quando se depara com os gastos
oração sem sujeitoverbo impessoal, de lista curta e fechadahaver existencial, fazer de tempo, verbos de fenômeno

A terceira coluna é a que o candidato esquece: verbo seguido de oração não é verbo sem sujeito. Em Basta pensar na longa história dos tabloides, o sujeito é a oração pensar na longa história dos tabloides; em Sabe-se como as estratégias sempre funcionaram, o sujeito é a oração iniciada por como, e o se é apassivador. Pergunte “o quê?” depois do verbo: se a resposta é uma oração inteira, essa oração é o sujeito.

Os seis valores do se, com o que cada um faz ao verbo:

valoro verbosujeitoflexão
conjunção integrantedepois de saber, perguntar, avaliar, verificaro da oração que ela abrelivre
conjunção condicionalcabe casoo da oração que ela abrelivre
parte integrante do verbopronominal: não existe sem o pronomeagente, expressoconcorda com o sujeito
reflexivo ou recíprocotransitivo, cabe a si mesmoagente, expressoconcorda com o sujeito
apassivadortransitivo direto com termo promovívelpaciente, expressoconcorda com o paciente
índice de indeterminaçãoVTI, VI ou VLindeterminado3.ª singular, fixa

Pares que a banca opõe, e o que decide cada um:

×decide
apassivador × índice de indeterminaçãoo verbo tem objeto direto?
apassivador × reflexivoo sujeito sofre ou pratica? cabe a si mesmo?
apassivador × expletivo de realceapagando o se, a voz muda? mudando, não era realce
apassivador × parte integranteo verbo existe sem o pronome?
sujeito indeterminado × agente ocultona passiva o agente some, mas o sujeito fica
sujeito indeterminado × oração sem sujeitoimpessoal é lista fechada: haver, fazer, fenômenos
sujeito indeterminado × pronome indefinidoninguém, alguém, tudo são sujeito simples expresso
sujeito indeterminado × sujeito pospostosujeito depois do verbo continua sendo sujeito

A concordância, item por item. Reconhecido o apassivador, a flexão é obrigatória e não facultativa: encontram-se os direitos econômicos, nunca encontra-se os direitos. Em locução verbal, quem concorda é o auxiliar: se devem efetivar as ações, podem-se observar os efeitos — e não deve-se efetivarem. E o infinitivo flexiona quando a inserção do apassivador lhe dá sujeito próprio: a importância de se cultivarem bons relacionamentos.

E o caso tratar-se de, que vale por si. Não tem sujeito, o termo depois de de é complemento, e o verbo fica no singular para sempre: trata-se de processos globais. A nota de Concordância verbal o arrola entre os verbos que não dão com o que concordar, e é assim que ele deve ser decorado.

Como a CEBRASPE derruba você aqui

Medido sobre os 26 itens deste tópico no corpus, todos explicados: 21 Errado e 5 Certo. Aceitar a classificação oferecida custa quatro de cada cinco itens.

Declarar indeterminado um sujeito que está escrito — 13 dos 21, 62%. É a operação central, e é mais concentrada do que em qualquer outro tópico de português deste corpus. As fórmulas são poucas e reconhecíveis: “o sujeito da oração (…) é indeterminado”, “o vocábulo ‘se’ tem a função de indeterminar o sujeito”, “está empregado como um recurso para indeterminar o sujeito”, “a partícula ‘se’, em ambas as suas ocorrências, indica que é indeterminado o sujeito”. E o sujeito que o item nega está sempre em uma de quatro posições: posposto ao verbo (Louva-se a tendência brasileira, Destaca-se (…) o efeito que cada instrumento busca neutralizar, distinguem-se três tipos de corrupção, Tendo-se transferido o governo português); dentro de uma oração (Sabe-se como as estratégias funcionaram, Não se ignora que paira uma teia de normas); no relativo (o que se observa, a prestação que se paga a toda hora); ou na desinência (Nem se lembram, os dias que se seguiram).

Defesa, e ela é puramente mecânica: aplique os dois testes na ordem. Primeiro o plural — havendo forma plural, o item já caiu. Depois a preposição — não havendo preposição colada ao verbo, não há indeterminação possível. Os três Certos do tópico passam nos dois testes e os treze Errados falham em pelo menos um.

Afirmar que duas ocorrências têm a mesma classificação — 6 de 7 errados. A nota de Funções do que e do se mediu dez de onze; aqui, seis de sete. O resultado é o mesmo e a explicação também: o examinador recorta duas ocorrências justamente porque elas divergem. “Tanto em ‘desenvolveu-se’ quanto em ‘Constata-se’, a partícula ‘se’ desempenha a mesma função sintática” — parte integrante e apassivador. “A partícula ‘se’, em ambas as suas ocorrências, indica que é indeterminado o sujeito”, dito de quando se trata da construção da imagem (…), ressalta-se o papel dos veículos — índice de indeterminação e apassivador, e só o primeiro é indeterminado. “O vocábulo ‘se’ é empregado para indeterminar o sujeito de ambas as orações”, dito de tendo-se transferido o governo português e tendo-se operado a independência — apassivador nas duas, e as duas com sujeito. “Em ambas as orações (…) a estratégia de indeterminação do sujeito”, dito de nem se lembram e que se paga — pronominal e apassivador.

O único Certo do grupo diz exatamente qual é a exceção: “as duas ocorrências do pronome ‘se’ têm o papel de indeterminar os agentes responsáveis pela ação de falar”, dito de quando se fala em comunicação (…) que se está falando na transmissão de informações. As duas coincidem porque são o mesmo verbo com a mesma regência. É o mesmo formato do único Certo medido na nota de Funções, onde as duas ocorrências eram o mesmo verbo pronominal. Guarde assim: o item de identidade cai, salvo quando as duas ocorrências repetem verbo e preposição.

Propor uma reescrita e prometer que a correção se mantém — 6 itens, 4 deles errados, e aqui não há atalho. A nota de Funções do que e do se já havia medido que “manteria a correção gramatical” não denuncia item errado neste território, e o resultado se repete: das quatro promessas de manutenção, uma é verdadeira (cultivarse cultivarem, com o infinitivo flexionado porque ganhou sujeito); das duas alegações de prejuízo, uma é verdadeira (deve-se efetivarem, que quebra a concordância do auxiliar). Os erros se concentram em dois pontos. O primeiro é desfazer a concordância do apassivador: “a forma verbal ‘encontram’ poderia ser flexionada no singular: encontra-se os direitos econômicos” aparece duas vezes no corpus, com o mesmo gabarito. O segundo é converter em passiva o que não é passiva: “‘não se choque’ poderia ser substituído por não seja chocada” — chocar-se com é pronominal de complemento preposicionado e não tem objeto direto para promover. E há o espelho, que também é Errado: “a substituição de ‘misturaram-se’ pela locução foram misturados prejudicaria os sentidos e a correção” — prejuízo nenhum, porque passiva sintética e passiva analítica são equivalentes exatas. Defesa: reconstrua a frase proposta por inteiro e leia só o par sujeito-verbo.

Trocar a etiqueta por uma vizinha legítima — 3 itens. Nunca é um absurdo: a etiqueta oferecida é sempre uma das funções reais do se, aplicada à ocorrência errada. “Conclui-se do emprego do vocábulo ‘se’ que a oração está na voz passiva”, dito de as cidades devem posicionar-se — reflexivo, e o sujeito é agente. “A partícula ‘se’ exerce função de realce, podendo ser omitida”, dito de Abriram-se as urnas — apassivador, e a supressão trocaria sujeito paciente por sujeito indeterminado. “O pronome ‘se’ classifica-se como índice de indeterminação”, dito de Vagou-se um cargo na Assembleia Provincial — expletivo, porque vagar é intransitivo e um cargo é o sujeito.

Inventar a causa — 2 itens, e a forma é reconhecível de longe. “A colocação do pronome ‘se’ antes da forma verbal justifica-se para reforçar a indeterminação do sujeito oracional”: colocação pronominal se decide por atração — ali, pelo relativo que —, jamais por intenção de sentido. E “a flexão verbal na terceira pessoa do singular justifica-se pela concordância do verbo com o sujeito da oração, cujo núcleo é o termo ‘expressão’”, dito de Trata-se de um processo global: a flexão está certa, o dono dela é que não existe. Este segundo é o formato dominante da nota de Concordância verbal — descrever certo a flexão e atribuí-la ao termo errado — aparecendo aqui uma vez.

Erros clássicos

Concluir “sujeito indeterminado” porque não se sabe quem faz. Na voz passiva também não se sabe, e o sujeito está escrito. Agente oculto e sujeito indeterminado são coisas diferentes, e essa confusão sozinha responde por quase dois terços dos itens errados do tópico.

Ignorar o plural do verbo. Distinguem-se, encontram-se, abriram-se, misturaram-se já resolvem o item: índice de indeterminação nunca pluraliza.

Escrever “encontra-se os direitos”, “vende-se casas”, “aluga-se apartamentos”. O termo é sujeito, não objeto: o verbo vai ao plural. É o erro mais cobrado da construção, e a banca o oferece como reescrita “sem prejuízo”.

Flexionar o principal em vez do auxiliar. Deve-se efetivarem é erro; devem-se efetivar as ações é certo. Em locução, quem concorda é o auxiliar.

Achar que infinitivo nunca varia. Ganhando sujeito próprio pela inserção do apassivador, ele flexiona: de se cultivarem bons relacionamentos.

Chamar de reflexivo o apassivador. Reflexivo exige que o sujeito pratique a ação sobre si mesmo. Vendem-se casas não é uma casa se vendendo; as cidades posicionam-se, essas sim, a si mesmas.

Confundir indefinido com indeterminado. Ninguém ignora tem sujeito simples expresso: o pronome indefinido ninguém. Indefinido é classe de palavra; indeterminado é estado do sujeito.

Chamar de impessoal o verbo que traz o sujeito em forma de oração. Basta pensar nisso tem sujeito — a oração pensar nisso. Impessoal é lista curta: haver existencial, fazer de tempo, verbos de fenômeno.

Esquecer que sujeito posposto é sujeito. Destaca-se como a principal diferença o efeito que cada instrumento busca neutralizar: o sujeito está ali, no fim da frase, depois até do predicativo.

Aceitar a identidade entre duas ocorrências. Seis de sete itens que afirmam isso estão errados. A exceção é o mesmo verbo com a mesma regência repetido — e só ela.

Praticar26 itens