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Amostragens probabilísticas e não probabilísticas
O desenho amostral cria dependência. Sem reposição, ou dentro do mesmo conglomerado, as seleções nunca são independentes — e é aí que estão dois dos três itens.
Alta3 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Amostragem é a arte de responder sobre 1.000 tendo olhado 100. O que torna isso legítimo é uma coisa só: o mecanismo de sorteio é conhecido, logo a probabilidade de cada elemento entrar na amostra é calculável. É essa a fronteira entre amostragem probabilística e não probabilística, e não o cuidado do pesquisador ou o tamanho da amostra.
Mas a ideia que de fato organiza os itens é outra, mais fina: o desenho amostral não só define probabilidades, ele cria dependência entre elas.
- Se o sorteio é sem reposição, retirar um elemento muda o que sobra. As variáveis observadas são identicamente distribuídas, mas não independentes.
- Se o sorteio é por conglomerados, escolher o conglomerado arrasta todos os seus elementos juntos. Dois elementos do mesmo conglomerado entram ou ficam de fora sempre juntos: dependência perfeita, não aproximada.
Independência é a hipótese confortável — a que permite multiplicar probabilidades, somar variâncias sem covariância e usar as fórmulas de manual. Por isso ela é justamente o que a banca afirma sem direito.
A base de evidência, com honestidade. São 3 itens neste tópico. Dois deles afirmam independência onde o desenho amostral produz dependência — um em amostra aleatória simples sem reposição, outro entre dois elementos do mesmo conglomerado —, e ambos são Errado. O terceiro, Certo, trata da relação entre tamanho da amostra e erro máximo admitido. Nenhum item trata de amostragem não probabilística, apesar de o título do tópico anunciar a oposição probabilística × não probabilística: conveniência, cota, julgamento e bola de neve não aparecem uma única vez no corpus. Três itens não autorizam percentuais; autorizam apontar onde a banca bateu, duas vezes em três, e é isso que a seção das pegadinhas faz.
Por que se usa (e o que custa)
Recensear é caro, lento e, em muitos casos, impossível. A amostra troca exatidão por viabilidade: paga-se em erro amostral — a diferença entre a estimativa e o parâmetro, que existe mesmo quando tudo é feito corretamente — e ganha-se velocidade, custo e, com frequência, qualidade de medida, porque é possível treinar e supervisionar bem 50 entrevistadores e não 5.000.
O custo tem duas faces que a banca cobra. A primeira é que precisão se compra
com tamanho, e o câmbio é ruim: o erro cai com a raiz de n, de modo que
reduzir o erro pela metade exige quadruplicar a amostra. A segunda é que
amostragem não probabilística é mais barata e não permite inferência
controlada: sem probabilidade de seleção conhecida, não há como calcular erro,
e nenhum tamanho de amostra conserta isso.
Como funciona
Amostragem aleatória simples (AAS). Todo subconjunto de tamanho n tem a
mesma chance. Cada indivíduo tem probabilidade de inclusão n/N — a fração
amostral. Com reposição, as observações são independentes e identicamente
distribuídas. Sem reposição, continuam identicamente distribuídas, mas as
seleções se condicionam: sorteado um, os demais competem por 999 vagas em vez de
1.000. Daí o fator de correção para população finita, (N − n)/(N − 1), que
reduz a variância do estimador.
Amostragem estratificada. Divide-se a população em estratos internamente homogêneos e sorteia-se dentro de cada um. Ganha-se precisão, porque a variabilidade entre estratos sai da conta. Todo estrato é representado.
Amostragem por conglomerados. Divide-se em conglomerados internamente
heterogêneos, cada um idealmente um retrato da população, e sorteiam-se os
conglomerados inteiros. Ganha-se logística — visita-se um quarteirão, não 30
endereços espalhados —, perde-se precisão. E aqui está a consequência que decide
itens: a unidade sorteada é o conglomerado, não o elemento. Numa população de
20 elementos distribuídos em seis conglomerados, com dois conglomerados
sorteados, a probabilidade de um elemento entrar na amostra é a probabilidade de
o seu conglomerado ser sorteado — 5/15 = 1/3 —, e dois elementos do mesmo
conglomerado têm probabilidade conjunta igual a 1/3, não a 1/9.
Amostragem sistemática. Ordena-se a população e sorteia-se apenas o ponto de
partida, tomando depois cada k-ésimo elemento. Barata; perigosa se a ordenação
tiver periodicidade que coincida com k.
Tamanho de amostra e erro. Para estimar uma proporção,
n = z²·p(1 − p)/E², com E o erro máximo admitido. O erro está no
denominador: quanto maior o erro que se aceita, menor a amostra necessária, e
vice-versa. A relação é inversa — e, por estar ao quadrado, é brutal: aceitar
metade do erro custa quatro vezes a amostra. Note ainda o que não está na
fórmula: o tamanho N da população. Para população grande, o n necessário
praticamente não depende de quantas pessoas existem.
O que decide os itens
Independência, por desenho amostral:
| desenho | as seleções são independentes? | por quê |
|---|---|---|
| AAS com reposição | sim | o sorteado volta; nada muda para o próximo |
| AAS sem reposição | não | cada retirada altera a população restante |
| conglomerados, elementos do mesmo conglomerado | não, dependência total | entram e saem juntos |
| conglomerados, elementos de conglomerados distintos | não, mas fracamente | competem pelas mesmas vagas de conglomerado |
Estratos × conglomerados — o par que mais se inverte:
| estratificada | conglomerados | |
|---|---|---|
| grupos são | homogêneos por dentro | heterogêneos por dentro |
| sorteia-se | dentro de cada grupo | grupos inteiros |
| participam da amostra | todos os grupos | alguns grupos |
| efeito na precisão | aumenta | reduz |
| motivo de uso | precisão | custo e logística |
Probabilística × não probabilística:
| probabilística | não probabilística | |
|---|---|---|
| probabilidade de seleção | conhecida e positiva para todos | desconhecida |
| exemplos | AAS, estratificada, conglomerados, sistemática | conveniência, cota, julgamento, bola de neve |
| permite calcular erro amostral | sim | não |
corrige-se aumentando n | — | não |
Tamanho de amostra:
| se aumenta | o n necessário |
|---|---|
o erro máximo admitido E | diminui (relação inversa) |
a confiança exigida (o z) | aumenta |
a variabilidade p(1 − p) | aumenta, com máximo em p = 0,5 |
a população N | praticamente não muda |
Números que caem
| quantidade | valor |
|---|---|
fração amostral, n = 100 em N = 1.000 | 0,1 |
| fator de correção para população finita | (N − n)/(N − 1) = 900/999 ≈ 0,90 |
p(1 − p) máximo, usado quando p é desconhecido | 0,25, em p = 0,5 |
| reduzir o erro pela metade custa | 4 vezes a amostra |
| 6 conglomerados, 2 sorteados: inclusão de um elemento | 5/15 = 1/3 |
| dois elementos do mesmo conglomerado, probabilidade conjunta | 1/3, e não 1/9 |
Como a CEBRASPE derruba você aqui
A medição está fechada. Os 3 itens do tópico estão explicados: 1 Certo e 2 Errados. Dois itens errados não são distribuição de frequências, e não há percentual honesto a citar — mas os dois fazem o mesmo movimento, em dois desenhos amostrais diferentes, e é isso que vale registrar.
Afirmar independência — 2 dos 3 itens, e os dois são Errado. É o único padrão que este corpus sustenta, e ele aparece em dois desenhos diferentes: “as variáveis aleatórias X1, … , X100 são independentes”, dito de uma amostra que o próprio enunciado declarou sem reposição; e “E6 e E7 são eventos independentes”, ditos de dois elementos que a tabela do enunciado coloca no mesmo conglomerado. Nos dois casos a frase é atraente porque é a hipótese que simplifica a conta. A defesa é um reflexo em duas etapas: volte ao enunciado e localize o desenho amostral; depois pergunte se saber o resultado de um sorteio muda a probabilidade do outro. Se muda, não há independência — e “sem reposição” e “mesmo conglomerado” são as duas palavras que garantem que muda.
Deslocar o erro amostral para o lugar errado da relação. O terceiro item é
Certo e diz que o tamanho amostral é inversamente proporcional ao erro máximo
fixado. Vale a pena notar de onde vem o acerto: E está no denominador da
fórmula de n. Quem tiver decorado a frase “amostra maior, erro menor” e não a
fórmula ainda chega à resposta; quem tiver trocado o sentido da relação marca
Errado sem motivo.
Conhecido do assunto, não medido aqui. Duas inversões clássicas não aparecem nestes três itens e continuam valendo a atenção: trocar a homogeneidade interna do estrato pela heterogeneidade interna do conglomerado, e afirmar que aumentar a amostra corrige o viés de uma amostragem não probabilística.
Erros clássicos
Tratar amostra sem reposição como se fosse com reposição. São i.i.d. só no segundo caso. Sem reposição há dependência, e é dela que sai o fator de correção para população finita.
Achar que “amostra de tamanho 2” em conglomerados significa dois elementos. A unidade sorteada é o conglomerado.
Inverter estrato e conglomerado. Estrato é homogêneo por dentro e entra sempre; conglomerado é heterogêneo por dentro e é sorteado.
Achar que amostra grande conserta amostra mal desenhada. Sem probabilidade de
seleção conhecida não há inferência controlada, e nenhum n resolve isso.
Supor que o tamanho da população determina o tamanho da amostra. N quase
não entra na fórmula; quem manda são erro, confiança e variabilidade.
Confundir erro amostral com erro de medida. O primeiro existe por se ter observado parte do todo e é calculável; o segundo vem do instrumento e da coleta.
LidoPraticado