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Referenciação: anáfora e catáfora; a que termo o pronome se refere
Anáfora olha para trás, catáfora para a frente — mas o item nunca se decide pela distância: decide-se pelo que o verbo aceita, por onde o pronome está e pelo que o núcleo pode retomar.
Altíssima146 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Referenciação é manter o mesmo referente vivo no texto trocando as palavras que o nomeiam. Quem faz isso são os retomadores: pronomes, possessivos, relativos, advérbios de lugar e tempo, sujeitos elípticos e expressões nominais inteiras (essa instituição, o autor, tais movimentos). Se o retomador aponta para algo já dito, há anáfora; se anuncia o que ainda vem, há catáfora.
Essa é a moldura. O que organiza o assunto para a prova, porém, é outra coisa: o item de referenciação quase nunca pergunta se há anáfora. Ele executa a operação no seu lugar e afirma o resultado:
o pronome “lhe” retoma “autor”, a forma pronominal “sua” tem como referente “povos forrageadores”, “Esse comércio” faz referência ao termo “gado”.
De 145 itens deste tópico, praticamente todos têm essa forma. Sua tarefa não é classificar nada: é refazer a identificação do antecedente por conta própria e só então olhar o nome que o item ofereceu. Quem lê o nome primeiro já perdeu, porque o nome oferecido é sempre plausível — é escolhido para ser.
E aqui está o que a medição deste tópico ensina, contra a intuição corrente: o antecedente verdadeiro não é o substantivo mais próximo, nem o mais distante, nem o mais importante. Nos itens errados em que a comparação de posição é nítida, o termo oferecido pela banca está mais perto do pronome em cerca de metade dos casos e mais longe na outra metade. Distância não é critério. O que é critério são três filtros, nesta ordem: a concordância, o que o verbo aceita como complemento e a posição sintática do pronome.
Como funciona
Primeiro filtro: concordância. Um retomador variável só volta a um sintagma
do mesmo gênero e número. os não retoma palavras; Elas não retoma
conhecimento; las não retoma crimes. Em geri-las e estudá-los, no mesmo
período, os dois pronomes se separam sozinhos: um é feminino plural e vai a
áreas, o outro é masculino plural e vai a crimes. O verbo da oração relativa
também serve de marca: em que recebem o nome de e-lixo, o plural de recebem
exige antecedente plural.
Esse filtro é gratuito e varre o texto todo. Mas convém saber exatamente onde ele não vale, porque é justamente lá que a banca trabalha:
- Possessivo não concorda com o dono, e sim com a coisa possuída. Em a sua
articulação aos sistemas de infraestrutura urbana,
suaconcorda com articulação; não há nada na forma que indique se o dono são as habitações ou as transformações. Todo item desua/seué, por construção, um item em que a concordância não decide — e há 28 deles no tópico. cujoconcorda com o possuído, não com o antecedente. Em na colônia, cujas perspectivas comerciais, o feminino plural é de perspectivas; o antecedente é o termo imediatamente à esquerda, qualquer que seja sua forma.queé invariável e nunca se deixa filtrar.- Os neutros
isso,isto,onão têm gênero nem número a conferir, porque retomam orações e trechos, não substantivos.
E há um fato medido que muda o uso desse filtro: nos 70 itens errados explicados, nenhuma vez o antecedente oferecido pela banca falhava na concordância. Ela já pré-filtrou. Use a concordância para montar sua própria lista curta de candidatos, nunca para refutar o item — o item foi construído para sobreviver a ela.
Segundo filtro: o que o verbo ou o predicado admite. É este que decide a maioria dos itens. Pergunte o que aquela posição aceita como preenchimento:
ele o realizara no quintal — realizar pede experimento, projeto, tarefa; nunca grupo de orientandos.
daquele que a escreve ou lê — escrever e ler pedem texto ou obra; não personagens, não ações.
1.866 pessoas morreram nessas ocorrências — morre-se em acidentes, não em notificações, que são o registro do acidente.
o destino dela era murchar, perder as pétalas — só flor murcha.
isso significa menos de 20 anos — só um processo se mede em tempo.
Terceiro filtro: a posição sintática. Algumas relações são fixas e resolvem o item antes de qualquer leitura:
- Sujeito e objeto da mesma oração não são correferentes sem reflexivo. Em
todos queriam vê-los afastados,
losnão pode ser todos; em a Dúvida começava a redesenhar, reanimando-a,anão pode ser Dúvida; em Não conseguiu derrubá-lo,lonão pode ser quem não conseguiu. - O relativo prende-se ao sintagma imediatamente à esquerda. Quando duas relativas se coordenam com e, ambas dependem do mesmo antecedente — o substantivo que apareceu dentro da primeira não herda a segunda.
- Pronome dentro de aposto ou de oração encaixada pertence àquele aposto ou àquela oração, não ao sujeito da principal. Travessões e vírgulas de aposto funcionam como cerca.
- O pronome
odepois de ser, estar, parecer e ficar é predicativo, retoma um predicativo anterior e fica invariável: ela sempre o foi, a postura ereta o é. - Sujeito elíptico é retomada e conta como elo da cadeia.
A direção. Catáfora existe e cai, mas é minoria; quando aparece, vem marcada. Demonstrativo seguido de dois-pontos anuncia o que vem depois (é esta a proposta: a defesa de uma sociedade aberta); demonstrativo dentro de aposto intercalado por travessões costuma apontar para o resto da frase (e esta foi a maior façanha da minha geração — repensar radicalmente a universidade). Fora dessas marcas, presuma anáfora.
Nem todo retomador aponta para o texto. Neste exato instante, agora,
aqui e o Este dentro de fala citada são dêiticos: apontam para a situação
de enunciação. Você e a gente podem ser genéricos, sem referente
determinado. E dentro de locução cristalizada (domínio à valentona) não há
referente nenhum a recuperar. Antes de procurar antecedente, confirme que existe
um a procurar.
O que decide os itens
Por classe de retomador — o que filtra e o que não filtra:
| retomador | concordância | o que decide de fato |
|---|---|---|
| pronome pessoal reto (ele, ela, eles) | sim | papel na cena: quem age × quem sofre |
| oblíquo átono (o, a, os, as, lo, no) | sim | o que o verbo aceita como objeto |
oblíquo lhe/lhes | não marca gênero | o beneficiário ou possuidor, nunca o agente já expresso |
| possessivo (sua, seu) | não (concorda com o possuído) | “de quem é isso?” — reescreva com de + candidato |
relativo que | não (invariável) | posição à esquerda; verbo da relativa no plural ou singular |
o qual, a qual, os quais | sim | escolhido justamente para desfazer ambiguidade |
cujo | concorda com o possuído | antecedente é o termo à esquerda; possuído é o da direita |
neutros isso, isto, o | não | encapsulam oração ou trecho, não substantivo |
| demonstrativo + substantivo | sim | o núcleo do sintagma restringe o que pode ser retomado |
| ordinais (a primeira, a segunda) | sim | só funcionam sobre uma enumeração; contam na ordem do texto |
| sujeito elíptico | concordância verbal | sujeito do período anterior |
O núcleo do retomador seleciona o antecedente. Este é o filtro mais rentável dos itens com expressão nominal:
| núcleo | só pode retomar |
|---|---|
| esse fato, essa evidência | uma proposição, uma oração inteira |
| nessas condições | uma situação, não o enquadramento normativo em volta |
| esse movimento, essa transição, esse processo | uma mudança, com antes e depois |
| tais movimentos | movimentos — ideias não entram |
| este texto | um texto, não o conjunto de ideias sobre ele |
| desses conceitos | os conceitos nomeados, não o rótulo genérico que os anuncia |
| nessas ocorrências | eventos, não os registros dos eventos |
| o uso dele, suas aplicações | o objeto usado, não aquilo sobre o que ele age |
| o caminho, a proposta, o objetivo | um propósito, não o fato indesejado que o motivou |
| como tal | o segundo termo da comparação anterior |
Distinções que a banca opõe:
| × | |
|---|---|
| anáfora × catáfora | olha para trás × anuncia o que vem (marcada por dois-pontos ou aposto) |
| este × aquele em par coordenado | este retoma o último citado; aquele, o primeiro |
| dêixis × anáfora | aponta para a enunciação × aponta para o texto |
| genitivo objetivo × subjetivo | o medo deles = causado por eles × sentido por eles |
| evento × registro | acidente × notificação; crime × boletim |
| vetor × patógeno | mesmo campo semântico não é mesmo referente |
| referente × função sintática | acertar quem é não garante acertar sujeito/objeto |
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Medido sobre 135 dos 145 itens do tópico. Pouco mais da metade dos itens é errada (54%), o que já diz que aceitar a leitura oferecida é a pior política possível.
Nomear o antecedente errado — 83% de todos os itens errados. É o tópico inteiro em uma linha. A fórmula se repete quase sem variação: “retoma”, “faz referência a”, “tem como referente”, “remete a”, “refere-se a”, seguidos de um substantivo do texto. Em “a forma pronominal ‘lhe’ retoma ‘autor’”, quem sente medo é a vítima; em “‘Esse comércio’ faz referência ao termo ‘gado’”, o comércio estava dois períodos atrás e gado nem sequer nomeia uma atividade; em “o vocábulo ‘o’, em ‘ele o realizara’, retoma ‘grupo de seus poucos orientandos’”, não se realiza um grupo de pessoas.
E aqui está o resultado que mais importa: a proximidade não é regra em nenhuma das duas direções. Entre os itens errados em que dá para comparar posições, o termo oferecido está mais perto do pronome que o antecedente verdadeiro em cerca de metade dos casos — “num fator subjacente a um sistema complexo (…) outros fatores que dele dependem”, em que a banca oferece sistema complexo e a resposta é fator; “Esse carvão (…) no solo (…) o uso dele”, em que oferece solo e a resposta é carvão; “a doença (…) não me levou desta para outra melhor”, em que oferece doença e a resposta é vida. Mas na outra metade o termo oferecido está mais longe, e é o mais saliente do parágrafo: o sujeito, o tópico, o nome próprio do começo. “‘sua’ tem como referente ‘povos forrageadores’” quando a resposta é a terra, que está colada ao pronome; “‘Elas’ faz referência a ‘toxinas’” quando a resposta é lectinas, do período anterior imediato; “‘ela’ retoma ‘a raça’” quando a resposta é a norma. Defesa: nunca decida por distância. Aplique os três filtros e deixe que o resultado caia onde cair.
Segundo resultado, igualmente útil: em 70 itens errados, nenhuma vez o antecedente oferecido falhou na concordância. A banca não erra gênero nem número — ela escolhe entre os candidatos que já passaram por esse crivo. Logo, a concordância serve para você montar a lista curta, e a decisão sempre se dá no filtro seguinte. Quem confere só a concordância e aprova o item está confirmando exatamente o que foi preparado para ser confirmado.
Acertar o antecedente e mentir sobre outra coisa. Uma família menor, mas que derruba quem para cedo. O item identifica corretamente a retomada e acrescenta uma afirmação falsa ao lado: “o termo ‘ela’ retoma a expressão ‘opinião pública’ (…) e exerce a função sintática de sujeito” — retoma mesmo, mas é complemento de indiferente a, e o sujeito é a oração reduzida inteira. Em “o pronome ‘que’ (…) exerce a função de sujeito da oração em que ocorre e retoma ‘as empresas’”, erram-se as duas coisas: o relativo é objeto e retoma impactos. A variante mais sutil inventa a justificativa: “dado o emprego da primeira pessoa do plural em ‘realizamos’, entende-se que o referente de ‘sua’ corresponde ao autor do texto e ao leitor” — pessoa verbal não escolhe dono de possessivo, e o dono é o cérebro, sujeito da oração. Defesa: depois de confirmar o referente, leia o item outra vez procurando o segundo predicado. Um item só é certo se todas as suas afirmações forem verdadeiras.
Trocar a direção — vender catáfora como anáfora. Poucos itens, mas os dois do corpus seguem o mesmo desenho e o reconhecimento é imediato. “a forma pronominal ‘esta’ (…) retoma a ideia expressa no período imediatamente anterior”, quando o período é “Ousamos ali — e esta foi a maior façanha da minha geração — repensar radicalmente a universidade”: a façanha vem depois do aposto. E “a forma pronominal ‘esta’, em ‘é esta a proposta da busca de um mundo melhor’, retoma o que se afirma no segundo período”, quando a proposta está enunciada logo adiante, depois dos dois-pontos. Defesa: demonstrativo antes de dois-pontos ou dentro de aposto intercalado aponta para a frente. Olhe o que vem depois da pontuação antes de caçar antecedente atrás.
Esticar o alcance da retomada. O item acerta o elo e amplia o território: “o termo ‘os filósofos’ refere-se à classe de filósofos em geral”, quando o período anterior nomeara Erasmo e Spinoza; “‘Nessas condições’ retoma tudo aquilo que se afirma no período anterior”, quando retoma apenas a condição de acesso a água poluída; “‘desses conceitos’ retoma, de forma imediata e restrita, o termo ‘fenômenos’”, quando retoma cidades inteligentes e indústria 4.0. A variante mais frequente é a lista: o item enumera quatro antecedentes e um deles não cabe — “‘tais movimentos’ refere-se a ‘ideias liberais’, ‘convulsões sociais’, ‘Inconfidência Mineira’ e ‘Revolução Pernambucana’”, em que ideias não são movimentos. Defesa: quando o item lista, teste elemento por elemento contra o núcleo do retomador; um único incompatível já derruba o conjunto.
Propor uma substituição e mentir sobre o resultado. Família pequena, mas transferível de outros tópicos: “poderia ser substituído por A abordagem ativista, sem prejuízo dos sentidos originais”, “a substituição de ‘essas pessoas’ por elas preservaria a coesão textual”, “a expressão ‘mesmo que’ poderia ser substituída por contanto que”. Defesa: reescreva a frase com a forma proposta e leia o resultado inteiro. A troca tem de manter duas coisas — o referente e a gramaticalidade — e, no caso dos conectivos, a relação lógica: concessiva não vira condicional.
Erros clássicos
Tratar proximidade como regra. Nem “o mais perto”, nem “o mais importante”. Metade dos itens errados do tópico existe só porque o candidato decidiu por distância.
Aplicar concordância ao possessivo. Sua concorda com a coisa possuída. Em item de sua/seu, a forma não informa nada: reescreva com de mais cada candidato e veja qual leitura o texto sustenta.
Achar que este é sempre catáfora. Este retoma o que está imediatamente antes com muita frequência (este óbvio, este texto). A direção se decide localizando o trecho, não pela forma do demonstrativo.
Procurar antecedente onde não há. Dêiticos, você genérico e locuções cristalizadas não retomam nada. O item que negar a existência de referente específico pode ser exatamente o certo.
Recortar um substantivo de dentro do trecho encapsulado. Quando o retomador é neutro ou tem núcleo abstrato (fato, ideia, processo), o antecedente é uma oração inteira. Pegar a última palavra antes do pronome é o erro que a banca planta com mais regularidade.
Supor que sujeito e objeto da mesma oração podem coincidir. Sem se ou si, não podem. Reponha o sujeito oculto antes de resolver qualquer pronome átono preso a um gerúndio ou infinitivo.
Parar no antecedente. Metade das armadilhas restantes está na segunda metade do enunciado: a função sintática, a data, a justificativa, a classe gramatical. Leia o item até o ponto final.
LidoPraticado