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Colocação pronominal: próclise obrigatória, ênclise, mesóclise, locuções verbais
Colocação pronominal não se decide pelo som nem pelo gosto. Decide-se por uma pergunta só — existe, antes do verbo e sem pausa no meio, uma palavra que puxe o pronome?
Altíssima46 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
O pronome átono (me, te, se, lhe, o, a, nos, vos) não tem lugar próprio. Ele se encosta no verbo, e qual dos lados escolhe não é escolha dele: é consequência do que está escrito antes do verbo.
Daí sai a única pergunta que resolve o assunto: há um atrator antes do verbo, sem pausa entre os dois? Havendo, a próclise é obrigatória e a ênclise é erro. Não havendo, a ênclise é a colocação canônica — e a próclise também passa, desde que o verbo não abra o período.
Quem lê o item procurando “soa melhor assim” erra. Quem lê procurando a palavra atratora acerta, porque em três de cada quatro itens do tópico a banca faz exatamente uma coisa: desloca o pronome e afirma que a correção foi mantida (ou que foi destruída). O item nunca diz onde está o atrator. Achar o atrator é o trabalho inteiro.
Há um segundo fato, quase tão decisivo quanto o primeiro, e é o que a maioria dos candidatos ignora: quando o verbo não está sozinho, quando há locução — auxiliar mais infinitivo, gerúndio ou particípio —, o pronome ganha mais de um pouso legítimo, e a atração deixa de mandar sozinha. Um em cada cinco itens do tópico vive nessa brecha.
Como funciona
São três perguntas, sempre nessa ordem. A primeira elimina metade dos itens.
1. O verbo abre o período ou vem logo depois de uma pausa? Se abre, a próclise está proibida pela norma escrita: nenhuma frase do padrão culto começa por pronome átono. Define-se é correto; Se define não é. E o mesmo vale depois de vírgula: a pausa corta a ligação entre o que veio antes e o verbo. Em “Em um contexto de desregulamentação das relações de trabalho —, verifica-se a emergência de novas formas de emprego”, o longo adjunto anterior está separado por pausa, e por isso não atrai nada: a ênclise é obrigatória ali.
2. Há atrator imediatamente antes, sem pausa? Se há, a próclise é obrigatória e qualquer proposta de ênclise é erro. A lista é fechada e está abaixo.
3. O verbo está sozinho ou dentro de uma locução? Verbo sozinho: uma posição é obrigatória, a outra é erro. Locução verbal: normalmente duas ou três posições são corretas, e um item que chamar uma delas de obrigatória, ou outra de incorreta, já está errado.
Depois de decidir a posição, falta conferir a forma do pronome, porque ela muda quando ele muda de lado. Tirar o pronome da ênclise não é apagar um hífen:
torná-los → em próclise, os tornar (volta o -r; os torná não existe).
fazê-lo → em próclise, o fazer.
cercam + a → em ênclise, cercam-na (depois de nasal, -no, -na).
tornamos + nos → em ênclise, tornamo-nos (cai o -s).
Essas duas coisas são independentes: a forma pode estar impecável e a posição, proibida. Cercam-na está morfologicamente perfeito e ainda assim é erro depois de que.
O que decide os itens
Atraem a próclise — e a atração só vale se nada separar a palavra do verbo:
| categoria | exemplos que caíram |
|---|---|
| pronome relativo | que, quem, o qual, cujo, onde — “que se mostra”, “com quem se vive”, “ao longo da qual se iniciavam” |
| conjunção subordinativa | que, se, quando, porque, embora, conforme — “Sabemos que o homem se deslocava” |
| advérbio de negação | não, nunca, jamais, nem — “não se deve esquecer”, “Não se curem”, “não me deixe” |
| advérbio sem pausa | sempre, talvez, aqui, já, ainda |
| pronome indefinido, demonstrativo, interrogativo | ninguém, tudo, nenhum, isso, quem — “nenhuma que os ajudasse” |
| oração optativa | Deus o abençoe |
| em (nas) + gerúndio | em se tratando de |
Não atraem, embora o item jure que sim:
| não atrai | por quê |
|---|---|
| palavra que venha depois do verbo | atração é para a frente; “Estima-se que” e “constata-se não só” não têm atrator nenhum |
| expressão adverbial entre vírgulas | a pausa corta a ligação: “Estes, muitas vezes, se situam” admite as duas grafias |
| não dentro de locução fixa | em “não obstante a intenção que lhes tenha dado origem”, quem atrai é o relativo que, não o não |
| palavra denotativa de inclusão | até, mesmo, inclusive — “poderiam até se valer” não torna a próclise obrigatória |
| tempo, modo ou pessoa do verbo | flexão verbal nunca decidiu colocação; só o futuro decide, e decide mesóclise |
| sujeito anteposto | permite a próclise, não a obriga: “Ele me contou” e “Ele contou-me” valem os dois |
Locução verbal — onde o pronome pode pousar:
| construção | posições corretas |
|---|---|
| auxiliar + infinitivo | antes do auxiliar (se pode dar), depois do auxiliar (pode-se dar), depois do infinitivo (pode dar-se) |
| auxiliar + gerúndio | antes do auxiliar, depois do auxiliar, depois do gerúndio (está levando-as) |
| auxiliar + particípio | antes do auxiliar, depois do auxiliar (se havia equipado, havia-se equipado) — nunca depois do particípio |
| infinitivo, mesmo com atrator antes | próclise e ênclise: não os notar e não notá-los, ambos corretos |
| gerúndio simples, sem preposição | ênclise: baseando-se; se baseando não é da norma escrita |
Mesóclise — futuro do presente e futuro do pretérito sem atrator: far-se-á, dar-lhe-íamos. Com atrator, volta a próclise: não se fará. É a regra mais citada em cursinho e, nos 46 itens deste tópico, não decidiu nenhum. Saiba reconhecê-la; não gaste tempo nela.
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Deslocar o pronome e mentir sobre o resultado. Trinta e três dos 46 itens. A fórmula se repete quase palavra por palavra: “Estaria mantida a correção gramatical do texto caso o pronome fosse deslocado para a posição enclítica”, “prejudicaria a correção gramatical do texto”, “poderia ser corretamente deslocado para logo após a forma verbal”. Metade dessas propostas é legítima e metade é armadilha, de modo que não existe atalho: você tem de reconstruir a frase como proposta e julgar a frase nova.
O que a proposta esconde, na esmagadora maioria das vezes, é um pronome relativo. Ele sozinho decide um terço do tópico. Em “que se mostra”, “que a mantêm coesa”, “que se consubstancia”, “que efetivamente se abre”, “os adultos que a cercam”, “em que as questões legais se tornaram”, “com quem se vive”, “nenhuma que os ajudasse” — em todos, a ênclise proposta é erro, e o item afirma que está tudo bem. Defesa: antes de julgar a nova frase, olhe uma palavra para a esquerda. Se lá estiver um que, um quem ou um qual, a resposta já saiu.
A jogada também vem invertida, e é a que mais engana quem estudou: o item diz que o deslocamento prejudicaria a correção, e não prejudica. Em “O direito se constitui em esfera especial”, “pode-se conceituar” → pode conceituar-se, e “dirigiu-se” → se dirigiu, a segunda grafia é tão correta quanto a primeira. Reconstruir a frase resolve os dois sentidos da armadilha; decorar “ênclise é o certo” não resolve nenhum.
Apontar o atrator errado. Nove dos 24 itens errados. O item mantém a colocação que está no texto, o que dá a ele um ar de verdade, e erra na justificativa: “a próclise justifica-se pela presença do vocábulo ‘não’ no início do trecho” quando quem atrai é o relativo; “é obrigatória a próclise em razão da expressão adverbial ‘muitas vezes’” quando a expressão vem entre vírgulas; “justifica-se pela flexão de tempo na forma verbal”, que não é categoria de atração; “é obrigatória, haja vista o emprego do vocábulo ‘até’”.
Dentro dessa família há uma variedade que se reconhece de olhos fechados: o “atrator” vem depois do verbo. Em “Estima-se que” o item atribui a ênclise à conjunção que; em “constata-se não só seu incômodo”, à palavra não. Nos dois casos a palavra citada está à direita do verbo, e atração não anda para trás. Ali a ênclise se explica por outra coisa — o verbo abre a oração.
Defesa: quando o item explicar por que o pronome está onde está, releia só o que vem antes do verbo, até a vírgula mais próxima. Se a palavra citada não estiver nesse pedaço, o item já está errado.
Confundir “possível” com “obrigatório”. O item diz “a colocação dos pronomes ‘me’ e ‘se’ exemplifica dois casos de próclise obrigatória” sobre “Ele me contou isso sem mágoa nenhuma e se despediu ainda sorrindo”, onde há apenas sujeito anteposto: as duas próclises são corretas e nenhuma é obrigatória. Mesma engenharia em “não sendo admitida a ênclise pronominal” diante de infinitivo, que sempre admite. Facultativo e obrigatório não são sinônimos, e a banca conta com você tratando o que viu no texto como a única forma possível.
A operação contrária aparece com a mesma frequência e tem a mesma resposta: chamar de facultativo o que é obrigatório. “O emprego da forma pronominal ‘se’ anteposto à forma verbal é facultativo”, dito de “Não se curem além da conta”, onde a negação torna a próclise obrigatória.
Esconder o segundo verbo. Quando o item propõe mexer em duas ocorrências de uma vez — “as formas pronominais ‘se’, em ‘se volta’ e ‘se ergueram’ (…) fossem empregadas logo após as formas verbais” —, basta uma delas quebrar. Volta-se é correto; ergueram-se não é, porque vem depois de “parece que”. Defesa: em item com duas ocorrências, teste as duas e pare na primeira que cair.
Erros clássicos
Começar a frase com pronome átono. Se verifica, Me parece, Se define. É o erro mais barato do tópico e o mais cobrado: a proibição é posicional e não tem exceção na norma escrita.
Achar que a vírgula não muda nada. Muda tudo. Advérbio colado atrai; advérbio entre vírgulas não atrai. “Sempre se diz” × “Sempre, se diz”.
Pôr pronome depois de particípio. Equipado-se, absolvido-me, feito-lhe não existem. Em locução com particípio, o pronome fica antes do auxiliar ou depois dele, nunca no fim.
Mover o pronome sem consertar o verbo. Torná-los vira os tornar, não os torná. Fazê-lo vira o fazer. O acento e o corte do -r só existem por causa da ênclise; saindo dela, desfaça os dois.
Tratar a colocação como questão de elegância. Se baseando não é menos formal do que baseando-se: é incorreto na norma escrita. E pode dar-se não é mais rebuscado do que pode-se dar: são as duas igualmente corretas.
Decorar a lista de atratores e esquecer que o infinitivo escapa. Mesmo precedido de negação e de preposição, o infinitivo aceita ênclise: a não os notar e a não notá-los valem os dois. Quase todo item que diz “obrigatória” a respeito de um infinitivo está errado por isso.
LidoPraticado