Básicos · Língua Portuguesa · Reescrita e significação
Reescrita mantendo sentido: ordem, voz ativa ↔ passiva, substituições
Nunca julgue a reescrita pela aparência: remonte a frase como o item manda e teste a frase nova — duas vezes, uma para a correção e outra para o sentido.
Altíssima125 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Todo item deste tópico tem a mesma forma. A banca executa uma operação sobre um trecho do texto — troca uma palavra, inverte a voz, transforma verbo em substantivo, muda um termo de lugar — e afirma um resultado: “os sentidos e a correção gramatical seriam mantidos”. O que se julga não é a operação. É a afirmação sobre ela.
Daí decorre o procedimento, e ele é um só: remonte a frase inteira como o item manda e depois julgue a frase nova. Não a proposta, não o fragmento entre aspas, não a impressão de que “parece igual”: a sequência completa que resultaria da mudança, lida como se fosse texto de prova. Quem responde pela aparência do trecho erra; quem escreve mentalmente a frase reconstruída acerta, porque o defeito quase sempre está fora do pedaço que o item destacou — está na palavra vizinha, que ficou sem preposição, sem concordância ou sem o termo a que se prendia.
E há duas perguntas, não uma. Correção e sentido falham de modo independente, e o item costuma prometer as duas.
A frase nova obedece à norma? Regência, concordância, crase, pontuação, colocação. Basta um destes cair.
A frase nova diz a mesma coisa? Mesmo agente, mesmo tempo, mesma relação lógica, mesmo termo modificado, mesmo referente.
O item é errado se qualquer uma das duas falhar. Nos 123 itens deste tópico, dos que a banca deu por errados 35% quebram apenas na correção, 40% apenas no sentido e 19% nas duas. Ou seja: quem confere só a gramática perde quatro itens em dez, e quem confere só o sentido perde três e meio em dez. Não há metade privilegiada — a defesa é fazer as duas perguntas, sempre, nessa ordem, porque a correção se verifica mais rápido e, quebrando, já encerra o item.
Como funciona
Cinco operações respondem por quase tudo. Cada uma tem uma condição de sobrevivência, e é essa condição que o item testa.
Voz ativa ↔ passiva. Na conversão, o objeto direto sobe a sujeito e o sujeito desce a agente da passiva, introduzido por por. A condição é o agente: ele tem de sobreviver, ou desaparecer legitimamente. Passiva analítica (ser mais particípio) comporta agente expresso; passiva sintética (se mais verbo) não comporta — “não se percebe o preconceito pela sociedade” é agramatical. E verbo intransitivo não tem passiva nenhuma. Vindo o agente expresso na ativa, a volta é sempre possível; vindo omitido, muitas vezes não há volta.
A armadilha embutida na passiva sintética é a concordância. Em se mais verbo transitivo direto, o sintagma que vem depois é o sujeito, e o verbo concorda com ele: perdem-se mais de 46 mil dias, obtêm-se melhores resultados, relacionaram-se essas substâncias. Como o sujeito fica posposto, ele sai do campo de visão, e é exatamente aí que a banca oferece o singular.
Nominalização. O verbo vira substantivo abstrato e a oração vira sintagma: buscando transformar → em busca da transformação. A condição é que todos os argumentos do verbo reapareçam como complementos do nome, com a preposição que o nome exige. Verbo rege objeto direto; substantivo rege complemento nominal preposicionado. Apoiar o pedido nominaliza-se em apoio ao pedido, nunca em apoio o pedido. E o substantivo tem de ser o cognato certo: provimento desfaz-se em prover, não em provir.
Deslocamento. Mover um termo é mudar o que ele modifica. A regra prática: advérbio, adjetivo e oração reduzida modificam o que está mais perto deles. Enquanto o termo continuar preso ao mesmo verbo ou ao mesmo nome, o deslocamento é neutro; assim que ele sair de dentro de uma oração encaixada para a principal, ou pular por cima do verbo, o sentido muda. Deslocamento raramente fere a correção — e é justamente por isso que o item costuma prometer as duas coisas.
Desenvolvimento e redução de oração. Sem que se leve ↔ sem se levar; embora não sejam ↔ mesmo não sendo; pautada ↔ que seja pautada; é… que ↔ frase sem realce. Operação quase sempre neutra: o que se confere é se o sujeito do verbo novo pode ser recuperado e se a pontuação acompanhou. Desfeita uma construção clivada (foi com o retorno que os conselhos entraram), o termo realçado volta a ser adjunto anteposto — e adjunto anteposto pede vírgula. O item que prevê essa vírgula costuma estar certo; o que não a prevê, errado.
Substituição. De palavra plena, confira sinonímia e regência: o verbo novo pede a mesma preposição? De conectivo, confira a relação lógica, que é o que o conectivo carrega — e ela muda inteira sem que a frase perca um til.
O que decide os itens
Voz e o pronome se
| construção | o que exige | onde cai |
|---|---|---|
| passiva analítica | ser + particípio; admite agente com por | particípio tem de concordar com o sujeito |
| passiva sintética | se + VTD; não admite agente | verbo concorda com o sujeito posposto |
| índice de indeterminação | se + VTI, VI ou de ligação | verbo fica sempre no singular |
| se parte integrante do verbo | verbos pronominais (contrapor-se, dirigir-se) | não tem passiva correspondente |
| forma pronominal reflexiva | sujeito age sobre si (exilou-se) | não equivale a foi exilado |
Verbos que não aceitam sujeito — a reescrita que puser um sintagma nominal antes deles já está errada: haver (existir), fazer (tempo), tratar-se de. “O preconceito se trata de uma opinião” e “Essa trata-se de um dos tipos” são o mesmo erro. E haver impessoal trocado por existir obriga ao plural: Há muitas especulações → Existem muitas especulações.
Regência: o que muda quando o verbo muda
| original | proposta | o que a proposta exige |
|---|---|---|
| instituiu a democracia | deu início à democracia | preposição + crase |
| evidenciar a discussão | dar destaque à discussão | preposição + crase |
| satisfaz a voracidade | atende à avidez | preposição + crase |
| submete-se às regras | deve respeitar as regras | retirar preposição e acento |
| para apoiar o pedido | em apoio ao pedido | preposição do nome |
| consiste em | regência fixa |
Palavras que mudam de valor com a posição
| antes | depois | diferença |
|---|---|---|
| alguma coisa | coisa alguma | afirma × nega |
| a meta última | a última meta | definitiva × final da série |
| senhora furiosa | levantou-se furiosa | adjunto adnominal × predicativo |
| sensores operam integrados | sensores integrados operam | modo de operar × tipo de sensor |
| Logo, isso reflete | reflete logo | conclusão × tempo |
| sejam ainda melhores | ainda sejam melhores | intensidade × permanência |
| Igualmente, para Hall | permite igualmente | conectivo textual × advérbio de modo |
Conectivos: cada um carrega uma relação
| grupo | conectivos | relação |
|---|---|---|
| conformidade | conforme, consoante, segundo | permutam livremente |
| delimitação | quanto a, no que se refere a, no tocante a | âmbito, não causa |
| causa | devido a, em razão de, já que, uma vez que | causa |
| alternância | seja… seja, ou… ou | uma coisa ou outra |
| adição corretiva | não só… mas também | as duas coisas |
| exclusão | não… mas sim | nega a primeira |
| concessão | embora, conquanto, mesmo que, mesmo sendo | oposição |
Locução conjuntiva é bloco fechado: uma vez que, à medida que, ao passo que, de modo que. Retirar um elemento não encurta o conectivo, destrói-o — vez que não é forma da norma culta.
Determinantes e número
| original | proposta | o que arrasta junto |
|---|---|---|
| todo aquele | todos | verbo e pronomes vão ao plural |
| cada um de nós | todos nós | tem → temos |
| diz respeito à ação | à qualquer ação | indefinido não aceita artigo: a qualquer |
| cujo | cujo já vem determinado, nunca leva artigo | |
| a mesma fonte poder ser | quem flexiona é o auxiliar: poderem ser |
Tempo e aspecto — a troca mais barata de sentido com a frase intacta: presente atemporal (regra) × pretérito perfeito (episódio encerrado); tem-se transformado (processo em curso) × está transformada (resultado); houve e há (cena presente) × aparecerão (previsão); ouvira × havia ouvido (equivalentes, estes sim).
Como a CEBRASPE derruba você aqui
99 dos 123 itens prometem manutenção — “seriam mantidos”, “não prejudicaria”, “manteria”, “estariam preservados”. Dos que a banca deu por errados, 20 quebram só na correção, 23 só no sentido, 11 nas duas e 3 não quebram nada. Os quatro grupos abaixo estão em ordem de frequência real.
Deslocar um termo e prometer que o sentido fica. É o maior grupo do lado do sentido: nove itens errados. A operação nunca fere a gramática, e o enunciado aposta que você vai confundir “continua correto” com “continua igual”. “Alguma coisa” deslocado vira “coisa alguma” e nega o que afirmava. “Ainda” movido de junto de reconhece para junto de podem troca o ato de reconhecer pelo efeito reconhecido; movido de “sejam ainda melhores” para antes do verbo, troca intensidade por permanência. “Igualmente” e “logo”, isolados por vírgula no início do período, são conectivos que ligam parágrafos; colados ao verbo, viram advérbio de modo e de tempo, e o elo se desfaz. “Até” incide sobre o termo imediatamente à direita, e no início do período passa a incluir a oração inteira. A oração final “para diminuir o racismo ambiental”, tirada de dentro da relativa, deixa de qualificar tomadas e passa a qualificar incluem. E o adjunto “no ano 2000”, arrancado do aposto que datava o prêmio Nobel, passa a datar a pesquisa. Defesa: pergunte de que termo a palavra dependia antes e de que termo dependerá depois. Mudou o termo, mudou o sentido — e o item que prometer as duas coisas está errado.
Converter a voz e errar a concordância. É o maior grupo do lado da correção. Um quinto dos itens do tópico mexe em voz passiva ou no pronome se, e o defeito plantado é quase sempre o mesmo: a passiva sintética com o verbo no singular e o sujeito no plural, posposto. “Perde-se mais de 46 mil dias”, “se obtém melhores resultados”, “relacionou-se essas substâncias”, “substituísse ‘incluem’ por considera”, “não se traduz … os textos mais simples” — em todos, o sintagma depois do verbo é sujeito paciente e exige o plural. A variante inversa aparece quando a banca converte analítica em sintética e esquece o agente: “Não se percebe o preconceito positivo, em geral, pela sociedade” não existe em português. E há a inversão de papéis: “foi exilado” trocado por “exilou-se” transfere a ação do regime militar para a própria vítima; “que se lhe contrapôs” reescrito como “que foi contraposto a ele” transforma quem agiu em quem sofreu, porque o se ali é parte integrante do verbo, e verbo pronominal não tem passiva. Defesa: com se diante de verbo transitivo direto, ache o sintagma posposto — é o sujeito; com conversão de voz, siga o agente até o fim da frase.
Trocar um verbo e deixar o complemento como estava. O grupo que mistura os dois lados. A troca lexical é aceitável, a regência é que não acompanha: “submete-se às regras” virando “deve respeitar às regras”, com preposição sobrando diante de verbo transitivo direto; “evidenciar a discussão” virando “dar destaque a discussão”, com a preposição e a crase faltando; “para apoiar o pedido” virando “em apoio o pedido”, sem o complemento nominal; “provimento de mercados” desfeito em “provir mercados”, com o cognato errado. O mesmo mecanismo comanda as inserções: incluir qualquer diante de “à ação” apaga o artigo e o acento fica proibido. Defesa: depois de trocar o verbo, releia o encontro dele com o complemento. Preposição sobrando ou faltando ali decide o item sozinha, e você nem chega a discutir sinonímia.
Trocar o conectivo e chamar isso de sinônimo. A frase continua impecável e a relação lógica muda inteira. “No que se refere à qualidade” virando “devido à qualidade” transforma delimitação de âmbito em causa. “Não apenas… mas também” virando “não… mas sim” transforma soma em exclusão — some o apenas, some a primeira metade da afirmação. “Seja para obter, seja para extorquir, seja para causar” virando uma lista com e transforma alternativas em finalidades cumulativas, e ainda quebra o paralelismo ao nominalizar só dois dos três itens. O gerúndio de meio, “taxando mais algumas rendas”, virando “para taxar”, troca instrumento por objetivo. Defesa: nomeie a relação antes e depois — conformidade, âmbito, causa, alternância, adição, oposição, finalidade. Se o nome mudou, o item está errado, por mais natural que a frase tenha ficado.
Duas notas que valem pontos. Primeira: a reescrita proposta é texto de prova e pode conter erro grosseiro. “Cuja a incapacidade”, “à um primeiro olhar”, “segue par à par com”, “poder serem interpretadas”, “apartir de”, “dia-a-dia” — seis itens se decidem varrendo a forma proposta em busca de crase impossível, cujo com artigo, infinitivo flexionado no verbo errado e grafia aglutinada. Faça essa varredura primeiro: ela custa dois segundos e encerra o item. Segunda: quando o próprio item concede que uma das duas coisas muda — “manteria a correção, embora o sentido fosse alterado”, “alteraria o sentido e poderia comprometer a coerência”, “reduziria a ênfase” — ele normalmente está certo: nove dos quatorze itens dessa forma são gabarito C. A banca mente prometendo tudo, não admitindo perdas. Mas confira mesmo assim a metade que o item deu por mantida: em “se obtém melhores resultados” ela admitiu a mudança de sentido e mentiu na correção.
E o caso simétrico, raro mas real. Três itens errados afirmam prejuízo onde não há nenhum: “os sentidos seriam alterados” ao trocar estar a se corresponder por estar se correspondendo; “prejudicaria a coerência” ao suprimir o é… quem de “Às vezes é ela quem diz”; “os sentidos seriam alterados” ao antepor o aposto em “Forma de comunicação…, a cultura é herança”. Nos três, a operação é neutra e o item inventa o dano. Ênfase não é sentido, e realce retirado não é informação perdida.
Erros clássicos
Julgar a proposta sem remontar a frase. É a origem de quase todos os erros do tópico. O defeito costuma estar na palavra que o item não citou.
Achar que “continua correto” significa “continua igual”. Deslocamento, troca de conectivo e troca de tempo verbal deixam a frase impecável e mudam o que ela diz.
Esquecer a concordância na passiva sintética. Se mais verbo transitivo direto: o que vem depois é sujeito. Vendem-se casas, não vende-se casas.
Manter o agente ao converter para a passiva sintética. Por/pela junto de se é erro de construção, não de estilo.
Confundir os três se. Apassivador (admite passiva analítica), índice de
indeterminação (verbo no singular) e parte integrante do verbo pronominal (não
tem passiva). O teste é tentar a conversão para ser mais particípio.
Nominalizar sem devolver a preposição. O verbo rege direto; o nome rege preposicionado. Apoiar o pedido → apoio ao pedido.
Desmontar locução conjuntiva. Uma vez que não vira vez que; à medida que não vira à medida.
Desfazer clivagem sem pôr a vírgula. Retirados é/foi e que, o termo realçado vira adjunto anteposto e a vírgula passa a ser obrigatória.
Aceitar troca de pessoa verbal como neutra. Sugerimos por sugeri muda quem responde pelo ato; a si mesmo por lhe muda quem recebe.
Confundir par quase homógrafo. Interação × iteração, sobre × sob, prover × provir, estratégia × meta. Gramaticalmente intercambiáveis, semanticamente incompatíveis.
LidoPraticado