Básicos · Lógica e Estatística · Raciocínio lógico
Tautologia, contradição, contingência
Tautologia é a fórmula verdadeira em todas as linhas da tabela. Para derrubar uma, basta exibir uma linha falsa — e o resto do tópico se decide separando valor lógico de valor informativo.
Alta4 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Uma proposição composta pode ser verdadeira em algumas linhas da tabela-verdade e falsa em outras — esse é o caso normal. Duas situações fogem disso e recebem nome próprio:
- Tautologia: verdadeira em todas as linhas. O valor lógico não depende das partes.
- Contradição: falsa em todas as linhas.
- Contingência: verdadeira em algumas e falsa em outras, isto é, tudo o mais.
A consequência prática é assimétrica, e é ela que resolve os itens. Para afirmar que algo é tautologia, é preciso verificar a tabela inteira. Para negar, basta uma linha. Por isso a estratégia nunca é montar as 4 ou 8 linhas: é procurar, de propósito, a atribuição que faria a fórmula falhar. Se ela existir, acabou — o item está errado. Se a busca se mostrar impossível, você descobriu por quê, e essa razão é a explicação.
E há o atalho que dispensa a tabela: uma fórmula do tipo X ⇔ Y é tautologia
exatamente quando X e Y são equivalentes; uma fórmula do tipo X ⇒ Y é
tautologia exatamente quando Y é consequência lógica de X. Reconhecida a
equivalência clássica, o item cai sem conta nenhuma.
Como funciona
A busca pela linha falsa. Toda fórmula só pode ser falsa de poucas maneiras, e o conectivo principal diz quais:
| conectivo principal | é falsa quando |
|---|---|
| condicional X ⇒ Y | X verdadeira e Y falsa — uma única forma |
| bicondicional X ⇔ Y | X e Y com valores diferentes |
| disjunção X ∨ Y | as duas falsas |
| conjunção X ∧ Y | uma delas falsa |
Assim, para testar X ⇒ Y, suponha X verdadeira e Y falsa e veja se as duas
suposições convivem. Se forem incompatíveis, não há linha falsa: é tautologia.
Exemplo, com um item real do tópico: (Q ∧ (P ⇒ Q)) ⇒ (P ∨ Q). Suponha o
antecedente verdadeiro; então Q é verdadeira; então P ∨ Q é verdadeira e o
consequente não pode ser falso. Não há linha falsa — tautologia, sem montar
tabela.
E o contraexemplo, também real: [P ⇒ Q] ∧ P. Basta P falsa: P ⇒ Q fica
verdadeira, mas a conjunção com P falsa dá falso. Uma linha bastou.
Tautologia e informação. Uma frase da forma “A é A” é verdadeira em qualquer mundo possível, e é justamente por isso que não informa nada. “Um gazebo é um gazebo” tem conteúdo sempre verdadeiro e não define gazebo. As duas coisas são compatíveis, e essa compatibilidade é o que a banca cobra: verdade necessária e conteúdo informativo são propriedades distintas.
O que decide os itens
As equivalências que, postas em ⇔, produzem tautologia. Reconhecê-las
resolve o item de imediato:
| equivalência | forma |
|---|---|
| condicional em disjunção | (P ⇒ Q) ⇔ (~P ∨ Q) |
| contrapositiva | (P ⇒ Q) ⇔ (~Q ⇒ ~P) |
| De Morgan | ~(P ∧ Q) ⇔ (~P ∨ ~Q) |
| De Morgan | ~(P ∨ Q) ⇔ (~P ∧ ~Q) |
| distributiva | (P ∧ (Q ∨ R)) ⇔ ((P ∧ Q) ∨ (P ∧ R)) |
| dupla negação | ~(~P) ⇔ P |
As implicações que, postas em ⇒, produzem tautologia — as formas válidas
de argumento:
| nome | forma |
|---|---|
| modus ponens | ((P ⇒ Q) ∧ P) ⇒ Q |
| modus tollens | ((P ⇒ Q) ∧ ~Q) ⇒ ~P |
| silogismo hipotético | ((P ⇒ Q) ∧ (Q ⇒ R)) ⇒ (P ⇒ R) |
| silogismo disjuntivo | ((P ∨ Q) ∧ ~P) ⇒ Q |
| terceiro excluído | P ∨ ~P |
O que não é tautologia, por mais que pareça. A conjunção das premissas de um
argumento válido não é tautologia — é o condicional inteiro que é. [P ⇒ Q] ∧ P
é só o antecedente do modus ponens: verdadeira apenas quando P e Q são as duas
verdadeiras. Cortar o consequente de uma forma válida destrói a tautologia.
Contradição e contingência. Os três conceitos do título do tópico não têm o
mesmo peso no corpus: nenhum dos itens levantados pede contradição ou
contingência — todos os quatro pedem tautologia. As definições acima ficam
registradas porque são baratas de guardar e porque ~T é contradição sempre que
T é tautologia, mas a expectativa medida é de item sobre tautologia.
Como a CEBRASPE derruba você aqui
A medição está fechada, e ela é menor do que parece. São 4 itens explicados: 3 Certos e 1 Errado — e os quatro são de tautologia: nenhum cobra contradição ou contingência, que o título também promete. Menor ainda: dois dos três Certos são o mesmo item, a resposta “um gazebo é um gazebo”, repetida em dois números do mesmo caderno. A amostra real são, portanto, três enunciados distintos.
Com um único item errado não há padrão a declarar, e não há percentual honesto a citar. Há um item, e o que ele faz está descrito abaixo; o que é apenas conhecido do assunto vem rotulado como não medido.
A forma válida amputada. O item exibe um pedaço de uma forma clássica — o
antecedente sozinho, ou a conclusão sozinha — e chama o pedaço de tautologia.
[P ⇒ Q] ∧ P é o exemplo do tópico: parece modus ponens, e é apenas a metade
dele. Defesa: a tautologia mora no condicional inteiro, premissas ⇒ conclusão.
Se não houver a seta principal ligando as duas partes, desconfie e teste com
P falsa.
O reforço verbal. É o mesmo item, e vale registrar à parte porque é o que o faz passar: o enunciado repete a definição — “isto é, independentemente dos valores lógicos V ou F atribuídos a P e Q, o valor lógico de [P÷Q]vP será sempre V” — e a repetição soa como demonstração. Não é: é a mesma afirmação duas vezes. Defesa: ignore a glosa e teste a fórmula.
A equivalência com um sinal trocado — conhecida do assunto, não medida aqui.
O único item de bicondicional da amostra é Certo: (P ⇒ Q) ⇔ ((~P) ∨ Q) é a
definição de condicional material, e a banca a enunciou sem adulterar nada. A
troca segue previsível — em X ⇔ Y, muda-se um sinal dentro de Y, ~P ∨ Q vira
P ∨ ~Q, uma De Morgan perde uma negação, uma contrapositiva vira recíproca —,
e fica registrada como expectativa. Defesa: não leia; reescreva a condicional
como disjunção e compare símbolo a símbolo.
A tautologia que não informa. É metade da amostra — os dois números em que o gazebo aparece —, e nos dois o gabarito é Certo. O candidato rejeita o item por achar que “sempre verdadeiro” e “não esclarece nada” se contradizem. Não se contradizem: é a definição. Defesa: separe o valor lógico do valor informativo antes de julgar.
Erros clássicos
Confundir tautologia com proposição verdadeira. “Hoje é terça” pode ser verdadeira hoje e falsa amanhã; tautologia é o que não pode ser falso em nenhuma linha.
Confundir tautologia com contradição. Uma é V em todas as linhas, a outra é F em todas. Ambas são independentes das partes, e é essa semelhança que faz a troca passar despercebida.
Achar que contingência é um defeito. Contingência é o caso comum: quase toda proposição composta é contingente.
Montar a tabela inteira quando uma linha bastaria. Para derrubar uma tautologia afirmada, procure primeiro a linha que faz o conectivo principal falhar. Se a fórmula é uma condicional, essa linha é única e você a encontra em segundos.
Aceitar que a tautologia prova alguma coisa sobre o mundo. Ela é verdadeira por forma, não por conteúdo — e por isso mesmo não acrescenta informação.
LidoPraticado