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Ideia central × secundárias; tese e argumentos
Todo item traz uma afirmação verdadeira sobre o texto — e o que decide não é o conteúdo, é o papel que o item atribui a ele. Verdadeiro mas não central continua sendo Errado.
Altíssima272 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Quase nenhum item deste tópico é falso por dizer algo que não está no texto. A banca lê o texto com cuidado, recolhe de lá termos, números, exemplos e nomes verdadeiros, e monta com eles uma frase que afirma alguma coisa sobre o texto: que aquilo é o tema central, que aquilo é o que o autor defende, que aquilo é causa daquilo outro, que aquele trecho define, critica, exemplifica ou conclui.
Essa segunda camada é onde o item se decide. Há sempre duas perguntas, e a primeira quase nunca é a que derruba:
- O conteúdo afirmado está no texto? Costuma estar.
- O papel que o item atribui a esse conteúdo é o papel que ele tem no texto? É aqui que o item cai.
Daí decorre a regra que governa o tópico inteiro: verdadeiro mas não central continua sendo Errado. Um item pode reproduzir com fidelidade absoluta uma frase do quarto parágrafo e ser Errado porque disse que aquilo é o tema central. Um item pode acertar o efeito e errar a causa. Pode acertar os dois e errar quem faz o quê. Quem lê perguntando “isso está no texto?” acerta metade dos itens por sorte; quem lê perguntando “isso é o que o texto está fazendo?” acerta por método.
Como funciona
Achar a tese
A tese é aquilo que o resto do texto existe para sustentar. Ela não responde a nenhuma pergunta feita dentro do texto — são os argumentos que respondem a ela. Três lugares a entregam quase sempre:
O verbo de decisão. Em texto institucional ou normativo, os considerandos vêm com reconhece, considera, observa, e a tese vem com o verbo que decide: aprova, recomenda, institui, conclui. Localizado esse verbo, a ideia central está localizada.
O parágrafo de fecho. Em texto que argumenta por acúmulo de exemplos, a tese costuma estar na síntese final, não na abertura. Leia o último parágrafo antes de julgar o que é central.
O conector adversativo. No entanto, contudo, todavia, mas marcam onde o texto muda de direção — e o que vem depois do conector pesa mais do que o que veio antes. Um texto que expõe vantagens e depois diz no entanto não está defendendo as vantagens.
Separar tese de argumento
O argumento responde por quê? à tese; a tese não responde a nada. Teste prático: inverta a ordem com porque. Se A porque B faz sentido e B porque A não, A é a tese.
Os argumentos aparecem em três formatos recorrentes, e é útil reconhecê-los porque o item vai cobrar a função de cada um, não o conteúdo:
| formato | como se reconhece | o que o item costuma perguntar |
|---|---|---|
| dado numérico | percentual, valor, série | a que afirmação o número responde |
| exemplo | por exemplo, como no caso de | se é ilustração ou se é o melhor caso |
| citação de autoridade | dois-pontos, aspas, segundo | para que o autor a trouxe |
Um dado numérico em texto argumentativo nunca está lá para ser memorizado: está para sustentar a frase imediatamente anterior. Um exemplo introduzido por por exemplo é ilustração, não hierarquia. Uma citação é usada para o que o autor diz que ela prova — e quando ele a apresenta com pensa como eu, ela é reforço da tese, não contraponto.
Perguntar o papel de cada parágrafo
Antes de julgar qualquer item longo, resuma cada parágrafo em um verbo: define, exemplifica, contrapõe, quantifica, conclui, ressalva. Metade dos itens errados do tópico afirma que certo trecho cumpre um papel que o parágrafo ao lado cumpre — que o primeiro período define onde ele apenas enuncia um efeito, que o segundo parágrafo incentiva onde ele apenas descreve.
O que decide os itens
Os pares que a banca opõe. É a lista a revisar na véspera: cada linha é a troca que produz um item Errado a partir de uma frase verdadeira.
| o texto faz | o item diz | por que cai |
|---|---|---|
| descreve, expõe | incentiva, defende, recomenda | expor mecanismo não é aderir a ele |
| propõe (é preciso, deve-se) | constata (mudou, já ocorre) | proposta não é diagnóstico |
| constata com termo técnico | critica, denuncia | descrever anomalia não é condená-la |
| enuncia um efeito | apresenta a definição | efeito e definição ocupam lugares diferentes |
| arrola um deles | o principal, o maior | enumeração sem hierarquia |
| diz entre outros motivos | é resultado de | fator entre vários vira causa única |
| diz por meio de | deve-se a, decorre de | instrumento vira causa |
| compara etapas | compara campos | o superlativo fica, o eixo muda |
| diz por exemplo | um dos mais efetivos | ilustração vira hierarquia |
| propõe verificar se produz | garante, assegura | condição a aferir vira resultado |
| diz não substituem, se complementam | sejam remanejados | complementaridade vira substituição |
| ressalva (seria um erro reduzir) | reduz | o autor já vacinou o texto contra isso |
| fala por metáfora | lê ao pé da letra | o veículo da imagem vira assunto |
| atribui a X | atribui a Y, também citado | dois nomes no texto, funções diferentes |
A direção das relações. Três verbos concentram os itens de inversão: refletir/espelhar, originar/resultar de, preceder/decorrer. São verbos orientados: basta trocar sujeito e objeto para produzir um item Errado que parece transcrição. Leia sempre quem está na posição de sujeito.
Os quantificadores. Todo, toda a, sempre, apenas, a totalidade, a maior parte, pela primeira vez, independentemente de quase nunca estão no texto-base. Quando o item os traz, volte ao trecho e recupere a expressão original — costuma ser grande parte, muitos, um deles, alguns.
Os percentuais. Dois erros, sempre os mesmos. Reduzir em 40% deixa 60%, e não 40% — traduza toda meta para o valor final. E todo percentual incide sobre um conjunto: 10% das universitárias não é 10% das mulheres brasileiras; pergunte sempre “dez por cento de quê”.
O que autoriza uma inferência negativa. Duas construções autorizam, e só elas: quando o texto diz que uma norma criou, instituiu ou abriu a possibilidade de algo, pode-se afirmar que antes não havia; quando diz que sem X não existiria Y, pode-se afirmar que X precede Y. Fora daí, o item que afirma ausência, inexistência ou anterioridade está acrescentando.
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Manter o conteúdo e trocar um termo por um vizinho. É um terço dos itens errados, e a palavra trocada é sempre a que carrega a relação, não a que carrega o assunto. Dependência vira interdependência; desafio vira entrave; arrependimento vira infelicidade; complementar vira remanejar; essencialmente econômica vira eminentemente política; descreve-se vira incentiva-se. O restante da frase é cópia do texto, e é justamente por isso que a leitura de relance aprova o item. Defesa: quando o item reformula uma frase do texto, isole o único termo que mudou e pergunte se ele cabe no papel que o texto deu àquela ideia — prefixos (inter-, co-, auto-) e adjetivos de natureza (essencialmente, eminentemente) são os dois pontos de troca preferidos.
Esticar o alcance da afirmação. Quase três em dez. O item copia com exatidão um fato do texto e alarga a base sobre a qual ele vale: o percentual das universitárias passa a valer para todas as brasileiras, o relatório sobre o Brasil passa a valer para o mundo, o exemplo passa a ser o melhor exemplo, um dos desafios passa a ser o principal problema, o método criado passa a ser o primeiro já tentado, quem precisa defender seu direito passa a ser todos os cidadãos. Nesta família cabe também a forma mais cara do tópico: a ideia secundária promovida a central. O item diz o tema central do texto é e apresenta o argumento que o autor cita para refutar, ou um detalhe verdadeiro do quarto parágrafo, ou a objeção técnica que o texto inteiro combate. Defesa: antes de aceitar o tema proposto, pergunte de que lado o autor está em relação a ele; e ao ver um quantificador ou um superlativo, procure no texto a palavra exata que o autorizaria.
Inventar ou inverter a causa. Um em cada cinco. Duas informações verdadeiras, contíguas no mesmo parágrafo, aparecem amarradas por um porque, por, deve-se a ou é resultado de que o texto não escreveu — ou aparecem com a seta trocada, de modo que o efeito vire causa (as práticas de discriminação resultam da estratificação social, quando o texto diz que levam a ela). A variante refinada troca o tipo de vínculo: pela influência dos conselhos no lugar de por meio dos conselhos, torna fácil a solução no lugar de torna a solução possível, em prol de um bem maior onde o texto apenas constata. Defesa: localize no texto o conector real entre as duas informações. Se o que há é entretanto, além disso ou um ponto final, a causa foi inventada; se há um conector, confira em que direção ele aponta.
Afirmar uma operação de leitura que o texto não executa. Cerca de um quarto dos itens do tópico não fala do assunto do texto, mas do próprio texto: o tema central é, o texto defende, a citação é usada para, o texto narra em três etapas, destaca-se uma crítica, a definição é apresentada no primeiro período, os exemplos ilustram. Nesses itens o conteúdo pode estar irrepreensível e a operação alegada não se confirmar: o primeiro período enuncia um efeito e não define; a narrativa tem dois movimentos e não três; a citação fala da IA em geral e não da arquitetura; o autor critica o modelo da formação continuada e não defende que ela não ocorra. Defesa: leia esses itens em duas partes. Primeiro o conteúdo, depois o verbo que descreve a operação — e confira o verbo contra o parágrafo que o item indica, não contra a impressão geral do texto.
Erros clássicos
Aceitar o item porque as palavras vieram do texto. Todas vieram. É o padrão de construção do tópico, não uma coincidência.
Recusar o item porque as palavras não vieram do texto. O erro simétrico, e igualmente caro. Item certo quase nunca transcreve: ele reformula com sinônimos. O que não pode mudar é a relação entre as ideias, não o vocabulário.
Julgar pelo primeiro parágrafo. Em texto que argumenta por acúmulo, a tese está no fecho. Em texto com adversativa no meio, a tese está depois dela.
Apagar a modalização. É provável, pode ter, talvez, parece são parte do que o texto afirma. Item que transforma hipótese em afirmação categórica está errado mesmo reproduzindo o conteúdo.
Ler metáfora como informação. Quando o texto sustenta uma imagem por parágrafos — a roupa que não serve mais, a balança e a espada, a sede que é a própria água —, o item errado toma o veículo da imagem pelo assunto.
Confundir proposta com constatação. É preciso, deve-se, cabe, urge marcam o que o autor quer; mudou, passou a ser, já ocorre marcam o que ele diz existir. Nenhum item sobrevive à troca entre os dois.
Contar etapas que o texto não narra. Item que divide o texto em fases obriga a contar os blocos efetivamente narrados. Uma etapa apenas pressuposta pela história — o encontro, o desfecho, o depois — não conta.
Esquecer que o autor já se defendeu. Frases como seria um erro reduzir, não substituem, mas se complementam, não se poderá imputar a responsabilidade a existem no texto porque o autor previu a leitura simplificadora. É exatamente essa leitura que a banca vai oferecer no item seguinte.
LidoPraticado