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Ponto e vírgula, dois-pontos, travessão, parênteses, aspas
Trocar um sinal de isolamento por outro quase sempre mantém a correção — dos 21 itens que propõem a troca, 16 são Certo. O que derruba é aceitar o nome que o enunciado dá à função do sinal.
Altíssima56 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Estes cinco sinais não marcam pausa nem ênfase de leitura. Cada um faz uma promessa ao leitor sobre o que vem a seguir, e é essa promessa que o item cobra.
Dois-pontos anunciam. Ponto e vírgula hierarquiza. Travessão destaca. Parênteses rebaixam. Aspas devolvem a palavra a outra pessoa.
Daí decorre a única divisão que interessa. De um lado, uma família de isolamento — par de vírgulas, par de travessões, par de parênteses — em que os três membros fazem exatamente a mesma coisa e diferem apenas no grau de realce: o travessão puxa o aparte para a frente, o parêntese o empurra para trás, a vírgula o mantém no mesmo plano. De outro, uma família de anúncio — dois-pontos e travessão simples no fim do período — que promete que o que vem depois esclarece, lista ou cita o que veio antes.
O ponto e vírgula não pertence a nenhuma das duas: ele separa membros de mesmo estatuto. E as aspas não pontuam coisa alguma; elas atribuem autoria ou reserva.
Quem organiza o assunto assim responde quase todo item com duas perguntas: que promessa este sinal está fazendo? e que outro sinal faz a mesma promessa? Quem tenta decorar caso a caso erra, porque a banca varia o texto e mantém a pergunta.
Como funciona
Dois-pontos. Sempre catafóricos: apontam para frente. Anunciam três coisas, e só três — uma enumeração, um esclarecimento (definição, explicação, especificação de um termo que ficou em aberto) ou uma citação. O que eles explicam está sempre na oração imediatamente anterior, nunca em outro ponto do parágrafo. E há uma proibição que quase ninguém observa na escrita profissional: não se põem dois-pontos entre o verbo e o complemento que ele rege. Os fatores incluem: a, b, c é o mesmo erro de os fatores incluem, a, b, c, com outro sinal.
Ponto e vírgula. Dois ofícios. Primeiro, separar itens de uma enumeração que já trazem vírgulas internas — é o que impede a lista de virar um borrão. Segundo, coordenar orações de mesmo peso dentro de um único período, o que mantém a segunda sob o alcance do conectivo que abriu a primeira: em Nesse sentido, A vale mais que B; mais do que C, são necessárias D, o ponto final desfaria a subordinação das duas ao Nesse sentido. O que o ponto e vírgula não faz é introduzir aposto: ele não amarra um segmento ao termo anterior, porque pressupõe dois membros de igual estatuto.
Travessão. Isola com realce. Vem aos pares quando o trecho está encaixado no meio do período; dispensa o par quando o segmento isolado encerra o período, porque o ponto final absorve o segundo travessão — liberdade que o parêntese nunca tem. Há ainda o travessão de diálogo, que abre a fala de uma personagem: esse não tem substituto, e trocá-lo por vírgula destrói a marcação do discurso direto.
Parênteses. Isolam subordinando: o que está dentro deles é lateral por definição. Vêm sempre aos dois. Dentro de enumeração já pontuada por ponto e vírgula, são o sinal que impede o aparte de ser lido como mais um item da lista — e por isso retirá-los altera relações coesivas, não só o realce.
Aspas. Cinco valores, e a diferença entre eles decide muitos itens: citação (transcrição literal de fala alheia, quase sempre com verbo de dizer ao lado), palavra alheia sem transcrição (o vocábulo é de outro, atribuído no entorno por como ele chamava, no dizer de), ironia ou reserva (leia como assim chamado), sentido figurado e neologismo ou estrangeirismo.
Reticências e exclamação entram pela entonação: suspensão da fala, corte de citação, apelo ao leitor. São julgadas pelo efeito, não por regra sintática.
O que decide os itens
O que cada sinal promete, e quem promete o mesmo:
| sinal | promessa | substituto aceito |
|---|---|---|
| dois-pontos | anuncia enumeração, esclarecimento ou citação | travessão simples; vírgula de aposto; conectivo explicativo (pois, ou seja) |
| travessão simples (fim de período) | destaca o que anuncia | dois-pontos; vírgula |
| par de travessões | isola com realce | par de vírgulas; par de parênteses |
| par de parênteses | isola rebaixando | par de travessões; par de vírgulas |
| par de vírgulas | isola no mesmo plano | par de travessões; par de parênteses |
| ponto e vírgula | separa membros de mesmo estatuto | vírgula, em enumeração |
| aspas | atribuem autoria ou reserva | itálico (fora do alcance dos itens) |
Trocas que a banca confirma como corretas:
| operação | por que passa |
|---|---|
| travessões ↔ parênteses ↔ par de vírgulas | mesma função de isolamento |
| dois-pontos ↔ travessão simples no fim do período | ambos anunciam |
| vírgula de aposto ↔ dois-pontos | ambos introduzem o aposto |
| ponto final ↔ dois-pontos entre afirmação e esclarecimento | a relação é de explicação |
| conjunção explicativa suprimida e vírgula → dois-pontos | o sinal assume o que a conjunção dizia |
| vírgulas de enumeração → ponto e vírgula, de forma uniforme | ambos separam itens de série |
| ponto e vírgula de enumeração → vírgula | a hierarquia é clareza, não exigência |
Trocas que a banca reprova:
| operação | por que falha |
|---|---|
| travessão de aposto → ponto e vírgula | o ponto e vírgula não amarra segmento a termo anterior |
| dois-pontos → vírgula mais conectivo (assim, portanto) | o conectivo nomeia outra relação e altera o sentido |
| vírgula ou dois-pontos depois de verbo transitivo | separa verbo de complemento |
| abrir com travessão e fechar com parêntese | sinais de isolamento não se misturam |
| suprimir um dos dois sinais de um par | par é indivisível |
| travessão de diálogo → vírgula | destrói a marcação do discurso direto |
Rótulos oferecidos × o que costuma estar lá:
| o item diz | verifique se não é |
|---|---|
| aspas de neologismo | palavra existente em sentido figurado, ou vocábulo atribuído a outro no próprio período |
| aspas de termo técnico | metáfora que o texto traduz logo depois com ou seja |
| aspas de oposição entre termos | núcleos coordenados de uma mesma série, que se somam |
| dois-pontos de síntese | especificação de termo catafórico, trazendo informação nova |
| dois-pontos de exemplificação | especificação integral, sem como nem por exemplo |
| dois-pontos que explicam um fato citado antes | explicação da oração imediatamente anterior |
| ponto e vírgula por causa de uma intercalação | separação de blocos que já têm vírgulas internas |
| parênteses de digressão | ressalva do autor sobre a palavra que ele acabou de usar |
| reticências de ideia incompleta | suspensão de fala, com o período sintaticamente completo |
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Cinquenta e seis itens, trinta e cinco Certos e vinte e um Errados. O tópico se divide em dois caminhos e a divisão é exata: vinte e oito enunciados propõem uma operação sobre a pontuação — trocar, suprimir ou reescrever — e vinte e oito apenas nomeiam a função de um sinal que já está no texto. Os dois caminhos se defendem de maneiras opostas, e o segundo é o mais caro: dos vinte e um itens errados, doze estão nele.
Caminho 1 — não mexer em nada e nomear errado a função do sinal. Doze dos vinte e um itens errados, 57%, e a marca registrada do assunto. Os outros dezessete itens deste caminho são Certo: não é o rótulo que é sempre falso, é o rótulo que nunca se confere sozinho. O item aponta um sinal que está corretamente empregado e diz por que ele está ali — e mente no porquê. Diz que as aspas marcam “um neologismo, empregado em um contexto coloquial” quando o próprio período atribui a palavra a Darcy Ribeiro; que indicam “um termo técnico” quando o texto traduz a expressão logo em seguida com ou seja; que assinalam “uma oposição de sentido” entre dois núcleos que a enumeração soma; que a palavra “foi inventada pelo autor” quando está no dicionário. Diz que os dois-pontos “introduzem a síntese das informações apresentadas anteriormente” quando o que vem depois é informação nova; que “introduzem exemplos” quando especificam integralmente um termo catafórico; que explicam um fato que o período nem discute. Diz que o ponto e vírgula “decorre da intercalação” de uma oração isolada por outro sinal; que os parênteses isolam “uma digressão” quando o aparte volta-se sobre a palavra imediatamente anterior; que as reticências “indicam a incompletude da ideia” num período com sujeito, verbo e complemento inteiros. Defesa: nomeie você mesmo a função antes de ler o rótulo. Para os dois-pontos, localize o termo que ficou em suspenso antes deles. Para as aspas, pergunte de quem é a palavra. Para o ponto e vírgula, conte as vírgulas do que está de cada lado.
Caminho 2 — trocar um sinal por outro e mentir sobre o resultado. Nove dos vinte e um errados. Aqui a medição inverte a intuição do candidato: vinte e um itens propõem substituir um sinal por outro, e dezesseis são Certo — três em cada quatro. Travessões por parênteses, parênteses por travessões, travessões por vírgulas, dois-pontos por travessão, vírgula por dois-pontos, ponto final por dois-pontos, vírgulas de enumeração por ponto e vírgula — tudo isso passa, porque os sinais de uma mesma família fazem a mesma promessa e diferem só no realce. Realce perdido não é correção perdida. As cinco trocas que falham falham por motivo estrutural, não estilístico, e três delas caem para o lado da promessa: o ponto e vírgula oferecido como equivalente do travessão de aposto; os dois-pontos trocados por vírgula mais assim, o que substitui explicação por consequência; e a forma verbal “incluem”, que “poderia ser seguida tanto de vírgula quanto de dois-pontos” e com qualquer um dos dois separaria verbo de complemento. As outras duas caem para o lado contrário: negam uma troca lícita, alegando que ela “prejudicaria a correção gramatical do texto” ou que “manteria a correção do texto, mas não a sua coerência”.
Sete dos nove itens de operação prometem preservação — e dois inventam uma perda. “Manteria a correção”, “preservaria a correção gramatical e os sentidos”, “não prejudicaria”, “poderia ser seguida tanto de vírgula quanto de dois-pontos”: essas sete são falsas. Mas duas vão pelo avesso — “prejudicaria a correção gramatical” para uma troca de dois-pontos por travessão que é perfeitamente lícita, e “manteria a correção do texto, mas não a sua coerência” para uma substituição que preserva as duas. Atenção a esta última. Em reescrita, item que concede uma perda costuma ser Certo; aqui a concessão foi justamente a mentira. Não trate a concessão como selo de honestidade: verifique a perda alegada como verificaria a promessa.
O par pela metade aparece, mas não domina. Três dos vinte e um errados — a supressão do segundo travessão de um par, e duas vezes a vírgula que vem logo depois do travessão de fechamento, apresentada como supérflua. Nesses dois últimos, a sequência ”—,” engana: o travessão fecha um encaixe interno e a vírgula fecha outra estrutura, normalmente um adjunto adverbial anteposto longo ou o par maior que isola tudo entre sujeito e verbo. Apagá-la deixa a vírgula sobrevivente separando termos essenciais. Defesa: diante de ”—,”, pergunte o que cada um dos dois sinais está fechando; eles quase nunca fecham a mesma coisa.
Os dois-pontos são o sinal mais perigoso do tópico. Dezessete itens os envolvem e nove são Errados — mais do que qualquer outra marca. Travessão aparece em vinte e um itens com apenas sete erros; parênteses, em sete com um; ponto e vírgula, em cinco com dois; aspas, em onze com quatro. Se o item fala em dois-pontos, redobre a checagem do rótulo antes de aceitar.
As aspas nunca caem por correção. Onze itens, quatro errados, e os quatro são rótulo falso. Nenhum item do tópico propõe inserir, retirar ou trocar aspas: elas só são cobradas pela função. Decore os cinco valores e o problema acaba.
Erros clássicos
Achar que cada sinal tem lugar exclusivo. Travessão, parêntese e par de vírgulas são intercambiáveis; dois-pontos e travessão simples também. A troca custa ênfase, e ênfase não é correção. Três em cada quatro itens de substituição são Certo.
Aceitar o rótulo que o item oferece. Metade dos itens errados não mexe no texto: apenas descreve a função do sinal, e descreve errado. Nomeie a estrutura antes de ler a explicação do enunciado.
Pôr dois-pontos depois do verbo. Os requisitos incluem: a, b, c é escrita corrente e é erro. Dois-pontos não anulam a proibição de separar verbo de complemento — só a disfarçam.
Confundir especificar com exemplificar. Quando os dois-pontos respondem a um termo catafórico definido — estas são as exceções, o critério é, aqui está o segredo —, o que vem depois é a lista completa. Exemplificação exige marca explícita: como, por exemplo, tais quais.
Tomar ponto e vírgula por sinal de aposto. Ele separa membros de igual estatuto; não amarra um segmento ao termo que o antecede. Travessão de aposto nunca vira ponto e vírgula.
Esquecer que travessão dispensa par no fim do período e parêntese não. É por isso que uma troca entre os dois às vezes exige suprimir uma marca em vez de substituí-la — e é por isso que a proposta soa estranha e mesmo assim está certa.
Chamar de neologismo o que está no dicionário. Antes de aceitar esse rótulo, pergunte se a palavra circula fora daquele texto. Circulando, as aspas marcam figuração, ironia ou palavra de outrem.
LidoPraticado