Básicos · Língua Portuguesa · Ortografia oficial
Maiúsculas/minúsculas; grafia s/z, x/ch, g/j
A grafia de uma palavra não se adivinha pelo som — decide-se pela origem, pelo sufixo ou pela classe; e o que a banca chama de "ortografia" quase sempre é uma reescrita disfarçada.
Altíssima15 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Ortografia parece o assunto mais arbitrário da disciplina, e é o mais mecânico. O ouvido não distingue análise de analize, enxergar de enchergar, viagem de viajem — mas a escrita distingue, e distingue por razões que se repetem: a origem da palavra, o sufixo que a formou ou a classe gramatical a que ela pertence. Quem decora listas esgota a memória; quem aprende os poucos padrões regulares resolve a maioria dos itens e guarda a memória para as exceções, que são poucas.
Há uma segunda ideia, e no corpus ela pesa mais do que a primeira. A maior parte dos itens rotulados como ortografia não pergunta como se escreve uma palavra. Pergunta se uma reescrita — deslocar um termo, trocar um sinal de pontuação, unir dois períodos — mantém a correção e o sentido, e menciona maiúsculas e minúsculas apenas como ressalva de procedimento: “feitos os devidos ajustes de maiúsculas e minúsculas”. Essa fórmula não é o objeto do julgamento; é a licença que o enunciado dá para você não se preocupar com a letra inicial. Quem lê o item procurando um erro de grafia não encontra nada e responde no escuro.
Como funciona
Três perguntas resolvem quase toda dúvida de grafia.
De onde a palavra veio? Análise tem s porque o grego tinha s; pesquisa, despesa e empresa também. O z de deslize e cortiço é etimológico do mesmo modo. A etimologia não se consulta na prova, mas ela explica por que famílias inteiras andam juntas: se análise tem s, analisar e analisado terão s.
Qual sufixo a formou? Este é o caminho produtivo, e o único que se pode aplicar sem dicionário. Substantivo derivado de adjetivo com -eza leva z (beleza, pobreza, nobreza); adjetivo derivado de substantivo com -oso leva s (gostoso, venturoso); verbo derivado de palavra que já tem s conserva o s (pesquisar, de pesquisa), e verbo derivado de palavra sem s usa -izar (civilizar, de civil; realizar, de real). Analisar tem s porque vem de análise; catequizar tem z porque vem de catequese por sufixação com -izar.
Que classe é a palavra? É o que separa viagem de viajem, conserto de concerto, mas de mais, sob de sobre, a fim de de afim. A grafia aqui é consequência da função: viagem é substantivo, viajem é forma do verbo viajar. Troque a palavra por outra da mesma classe e o item se resolve.
Com hífen e acento o raciocínio é outro: não há padrão a inferir, há regra escrita. E há uma data. O Acordo Ortográfico de 1990, obrigatório no Brasil desde 2016, aboliu o trema, aboliu o hífen das locuções, aboliu o acento dos ditongos abertos ei e oi em paroxítonas e reduziu os acentos diferenciais a dois. Toda vez que um item oferece duas grafias como igualmente válidas, comece verificando se uma delas é simplesmente a forma anterior a essa data.
O que decide os itens
Padrões regulares de s e z
| padrão | exemplos |
|---|---|
| sufixo -eza / -ez (substantivo de adjetivo) | beleza, nobreza, altivez, rapidez |
| sufixo -esa / -isa (título, origem) | princesa, duquesa, poetisa, profetisa |
| sufixo -oso / -osa (adjetivo) | gostoso, formoso, venturosa |
| sufixo -ês / -esa (origem, gentílico) | português, francesa, camponesa |
| depois de ditongo | coisa, maisena, lousa, pausa |
| verbo derivado de palavra com s | analisar (análise), pesquisar (pesquisa), alisar (liso) |
| verbo com -izar sobre palavra sem s | civilizar, realizar, humanizar, economizar |
Padrões regulares de x e ch
| padrão | exemplos |
|---|---|
| depois de ditongo | caixa, peixe, ameixa, trouxa, feixe |
| depois da sílaba inicial en- | enxergar, enxame, enxoval, enxaqueca |
| depois da sílaba inicial me- | mexer, mexerica, mexilhão (exceção: mecha) |
| origem indígena ou africana | xavante, xingar, xará, xucro |
| com ch, palavras de origem francesa ou espanhola | chefe, chalé, chumbo, mochila, chope |
Exceções que a banca gosta: encher e derivados (enchente, enchimento), porque vêm de cheio; recauchutar; guache.
Padrões regulares de g e j
| padrão | exemplos |
|---|---|
| substantivos em -agem, -igem, -ugem | viagem, coragem, origem, ferrugem |
| terminações -ágio, -égio, -ígio, -ógio, -úgio | estágio, privilégio, prodígio, relógio, refúgio |
| com j, palavras de origem indígena, africana ou árabe | jibóia, jiló, canjica, pajé, alforje |
| com j, formas de verbos em -jar | viajem, viajemos (de viajar); arranje (de arranjar) |
| com j, derivados de palavra com j | lojista (loja), sarjeta, gorjeta, cerejeira |
Exceções de -agem com j: pajem, lambujem.
Maiúscula e minúscula
| escreve-se com minúscula | escreve-se com maiúscula |
|---|---|
| cargos e títulos: o presidente, o ministro, o papa | quando fazem parte de nome próprio de órgão: Ministério da Saúde |
| disciplinas e cursos: estudo matemática, fez direito | disciplinas em contexto escolar formal e de currículo: prova de Português |
| pontos cardeais como direção: ao norte do estado, seguiu para o sul | pontos cardeais como região: o Nordeste brasileiro, o Sul do país |
| dias, meses e estações: segunda-feira, março, inverno | nomes de épocas e fatos históricos: a Idade Média, a Inconfidência Mineira |
| gentílicos e idiomas: brasileiro, o português | nomes próprios de pessoa, lugar e instituição |
Pares que a banca opõe
| par | como decidir |
|---|---|
| viagem × viajem | substantivo × verbo |
| conserto × concerto | reparo × espetáculo musical |
| sessão × seção × cessão | reunião × repartição × ato de ceder |
| sob × sobre | debaixo de, ponto de vista × a respeito de, acima de |
| a fim de × afim | finalidade × semelhante |
| mal × mau | advérbio, oposto de bem × adjetivo, oposto de bom |
| descriminar × discriminar | tirar o caráter de crime × separar, segregar |
| ratificar × retificar | confirmar × corrigir |
Duplas grafias realmente oficiais — lista fechada, e é ela que salva itens como o de assobiava/assoviava: assobiar/assoviar, louro/loiro, catorze/quatorze, cociente/quociente, bêbado/bêbedo, carroçaria/carroceria. Fora desta lista, quando um item oferece duas grafias, desconfie: quase sempre uma delas foi abolida em 1990.
O que 1990 aboliu e a banca ressuscita — trema (conseqüências), hífen em locuções (dia-a-dia), acento em ditongo aberto de paroxítona (idéia, heróico), acentos diferenciais (pára, pêlo, pólo). Sobreviveram apenas pôr e pôde, mais o facultativo fôrma.
Como a CEBRASPE derruba você aqui
O tópico quase não é sobre ortografia. Dos quinze itens explicados, dez não julgam grafia alguma: propõem deslocar um termo, substituir um sinal de pontuação, unir ou separar períodos, reescrever um trecho — e trazem a fórmula “feitos os devidos ajustes de maiúsculas e minúsculas” como ressalva de procedimento. Em nenhum dos quinze uma regra de letra inicial decide o item. Isso muda o método de leitura: quando o enunciado autorizar o ajuste de maiúsculas, pare de procurar o erro de grafia e reconstrua a frase como proposta, porque o que está em jogo é a estrutura. Apenas cinco itens testam de fato a notação — e esses cinco são todos sobre o que o Acordo de 1990 mudou, ou sobre um par de grafia consagrado.
Nos itens que são de grafia, a jogada é oferecer a forma abolida como alternativa válida. “pode ser grafada, de acordo com a ortografia oficial, com o uso do trema: conseqüências”; “poderia ser grafado, em conformidade com a ortografia oficial, sem o hífen: bem estar”. O enunciado nunca diz que a forma antiga é a certa — diz que as duas valem, que é uma afirmação mais macia e mais difícil de recusar. Defesa: a reforma de 1990 quase sempre eliminou grafias; raríssimas vezes criou alternativas. Item que apresente uma segunda grafia como admitida só é Certo se a dupla estiver na lista fechada de variantes do vocabulário oficial.
A justificativa de aparência técnica é onde mora o erro. Em “Por constituir um substantivo, o termo ‘bem-estar’ (…) poderia ser grafado sem o hífen”, o fato alegado é verdadeiro — bem-estar é substantivo — e completamente irrelevante: classe gramatical não determina hífen. O mesmo padrão aparece em “dada a autonomia dos prefixos” e em “pois as duas formas são admitidas”. Defesa: quando o item explicar por que uma grafia seria possível, julgue primeiro a explicação. Se a causa alegada não tem relação com a regra que de fato governa o caso, o item está errado antes de você conferir a palavra.
Nomear a relação entre dois períodos e propor o conectivo correspondente. O item afirma que dois períodos “compõem uma relação de causa e consequência” e sugere uni-los com já que. Em “A comunicação tem-se transformado em um setor estratégico (…). Da guerra, ela sempre o foi” a relação é de contraste, não de causa: o segundo período ressalva que no terreno bélico a novidade não é novidade. Defesa: julgue a relação antes do conectivo. Sequências do tipo “X agora é assim. De Y, sempre foi” são contrastivas; causa exigiria que o segundo período explicasse a existência do primeiro.
Deslocar um termo e prometer que nada muda. Quatro itens. O que decide é sempre uma de duas coisas: a que termo o elemento deslocado passa a se ligar e que pontuação ele exige na nova posição. Deslocar agora num período de um só verbo é seguro; deslocar “quando há algum problema que precisa ser solucionado rapidamente” para o início de um período com três predicados coordenados não é, porque a circunstância passa a valer para os três. E deslocar “Na verdade” para o fim, retirando a vírgula como o item manda, quebra duas coisas ao mesmo tempo: o marcador perde o elo com o período anterior e a pontuação fica incorreta. Defesa: conte os verbos do período e localize a vírgula que o item mandou tirar — ela costuma ser a confissão do erro.
Erros clássicos
Achar que “maiúsculas e minúsculas” no enunciado significa que o item é de maiúsculas. É ressalva de procedimento. O item é de estrutura.
Escrever viagem e viajem pelo som. Substantivo com g, verbo com j.
Uma boa viagem × espero que eles viajem.
Generalizar en- para ench-. Depois de en- usa-se x — enxergar,
enxame, enxoval —, mas encher e toda a sua família vêm de cheio e
conservam o ch.
Supor que o Acordo criou alternativas. Ele quase sempre suprimiu. Trema, hífen de locução, acento de ditongo aberto em paroxítona e acentos diferenciais saíram; nada disso voltou como forma facultativa.
Confundir sob com sobre. Sob é debaixo de, e por extensão o ponto de
vista adotado (sob uma nova ótica); sobre é acima de ou a respeito de.
Decorar listas de palavras. A prova não repete palavras, repete padrões: sufixo, ditongo anterior, origem e classe. Duas horas com os padrões rendem mais do que dez com uma lista.
LidoPraticado