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Básicos · Língua Portuguesa · Compreensão e interpretação

Inferência: infere-se/depreende-se (implícito) × afirma-se (explícito)

O verbo do enunciado não decide nada — “infere-se” acerta tanto quanto “de acordo com o texto”. O que decide é se o item mexeu em um operador: quantidade, causa, modalidade, agente ou direção.

Altíssima363 itens no tópico

A ideia que organiza o assunto

Um item deste tópico é sempre a mesma coisa: uma proposição colocada ao lado do texto, para você dizer se o texto a autoriza. Não se pergunta se ela é verdadeira no mundo, nem se é razoável, nem se você concorda. Pergunta-se se ela é do texto.

Há duas maneiras de errar isso, e são opostas. Quem lê procurando as palavras do item dentro do texto rejeita inferências perfeitamente legítimas — o texto quase nunca traz a frase pronta. Quem lê perguntando “faz sentido?” aceita qualquer coisa plausível, e plausível é exatamente o material com que a banca constrói o item errado.

A regra que resolve os dois excessos: a banca quase nunca inventa conteúdo do nada. Ela toma uma proposição que está no texto e mexe em um operador dela — quanto, por quê, com que certeza, quem, em que direção. O item errado é o item certo com um parafuso trocado. Sua tarefa não é julgar o conteúdo; é localizar a frase-fonte e conferir os operadores um a um.

E o verbo do enunciado não ajuda. É a expectativa natural — infere-se soa a armadilha, de acordo com o texto soa a paráfrase segura —, e a medição desmente os dois. Nos itens deste tópico, os enunciados abertos por infere-se, depreende-se, conclui-se, entende-se ou deduz-se são Certo em 54% das vezes; os abertos por de acordo com o texto, segundo o texto ou o texto informa, em 51%. São a mesma moeda. A banca usa a fórmula do implícito tanto para cobrar uma inferência que o texto autoriza quanto para contrabandear uma que ele não autoriza — e usa a fórmula do explícito tanto para a paráfrase fiel quanto para a falsificada.

Consequência prática: não perca um segundo classificando o item como implícito ou explícito. Essa distinção não decidiu nenhum item da amostra. Vá direto à frase-fonte.

Como funciona

São três movimentos, sempre na mesma ordem.

Localizar a frase-fonte. Quase todo item, C ou E, nasce de uma frase ou de um par de frases identificáveis. Ache-as antes de qualquer julgamento. Se o item menciona parágrafo, período ou linha, ele já lhe entregou o endereço e está testando se você vai até lá.

Reconstruir a proposição do texto com seus operadores. Escreva mentalmente o que a frase-fonte afirma e com que qualificações:

quanto — a maior parte? alguns? boa parte? todos? por quê — o texto dá a causa, ou só descreve o fato? com que certeza — afirma, ou supõe, recomenda, pretende, imagina? quem — qual é o sujeito do verbo? em que direção — quem condiciona quem, quem precede quem?

Comparar operador por operador. O item que não mexeu em nenhum é C, por mais distante que esteja das palavras originais. O que mexeu em um é E, por mais que tudo o mais coincida.

Falta saber que passos inferenciais são permitidos. São quatro, e todos são curtos:

Fora disso não é inferência, é acréscimo. Motivo que o texto não deu, responsável que ele não nomeou, consequência que ele não registrou, reputação que ele não atribuiu: tudo isso é o item falando, não o texto.

O que decide os itens

Os cinco operadores. Esta tabela é o tópico inteiro.

operadorcomo o texto marcacomo o item altera
quantidadea maior parte, alguns, boa parte, em muitos casostodos, apenas, somente, totalmente, quaisquer, sempre, exclusivamente
causaporque, pois, em razão de, o que implicavainsere devido a, em razão de, o que levou a entre dois fatos que o texto só justapôs
modalidadese, talvez, pretende, deve, é necessário, ficariamapresenta como fato consumado a hipótese, a intenção, a recomendação ou a projeção
agentesujeito do verbo na frase-fontemantém a ação e troca quem a pratica
direçãoA condiciona B, A precede B, A é melhor que Binverte a seta, a ordem ou a hierarquia

Inferência autorizada × acréscimo.

o texto dizautorizanão autoriza
já existia no tempo dos gregoso fenômeno é antigosurgiu na Grécia antiga
vivemos também numa sociedade da ignorânciaos dois diagnósticos convivemum substituiu o outro
começou a ser empregada para o que até então se chamava carroçahouve um uso novoo termo antigo caiu em desuso
na busca por evidenciar a discussãoesse era o objetivoa discussão de fato se intensificou
é contrária ao eletrochoqueela se opunha à práticaa prática acabou por causa dela
diretrizes baseadas em evidências são essenciaisé preciso investir nelaselas já estão implantadas
boa parte das sociedades modernasnas demais, não valevale em todas
precisam receber formaçãoa formação faltaos profissionais têm formação

Marcadores que quase sempre decidem um item, porque é neles que a informação qualificadora se esconde:

marcadoro que carrega
mas, porém, entretanto, no entantoa ressalva que delimita a tese — leia até o ponto final
travessão no fim do períodoa exclusão de um caso (mas não dos homens)
também, ainda, igualmenteacréscimo, nunca substituição
inclusiveafirma algo sobre o caso incluído
talvez, possivelmente, podemodalização que o item C conserva e o item E apaga
desde X até Yamplitude, nunca predominância
a ponto de, de modo queconsequência assumida pelo autor
apenas dentro do textocostuma marcar a posição que o autor vai criticar
futuro do pretérito (ficariam, seria)projeção não realizada
pretérito perfeito composto (tem se mostrado)processo que vem do passado e continua

Como a CEBRASPE derruba você aqui

Medido sobre os itens já explicados do tópico. A primeira coisa que a medição mostra é que não há aqui uma fórmula dominante, como o facultativo da crase ou o manteria a correção gramatical da vírgula. Os itens se dividem quase ao meio entre C e E, e as distorções se espalham por seis categorias sem que nenhuma passe de um quarto. Isso não é falta de padrão: é o padrão. Como a operação incide sobre o conteúdo do texto, e não sobre a forma do enunciado, não existe palavra-chave que entregue o gabarito. O que se repete não é a fórmula, é o lugar onde o parafuso é trocado.

Trocar um termo da proposição por um vizinho próximo — um quarto dos itens errados. É a distorção mais comum e a mais difícil de ver, porque tudo em volta está certo. Três subespécies, nesta ordem de frequência:

A modalidade. O texto supõe, pretende ou recomenda; o item afirma. Em se conseguisse ser criativa, teria limites, toda a fala de Labatut é condicional, e o item declara que ele considera que a IA é dotada de inventividade. Em uma cidade grande… ficariam presos nela, o futuro do pretérito está dentro de um sonho, e o item diz que o trecho descreve os acontecimentos que sucederam depois da chegada. Quando o texto defende que se realizem ações formativas para os monitores, o item conclui que os monitores têm formação profissional.

A gradação. O texto hierarquiza; o item iguala. Se na cadeia de valor acontece a maior parte das emissões, o item que fala em impacto equivalente ao causado pelas atividades diretas já está errado. Se o retorno de Heckman é sete dólares por dólar investido, o item que diz que os resultados indicam de forma imprecisa o retorno contraria o próprio número.

O termo do meio de uma definição. Para os antigos, a retórica era uma teoria da fala eficaz e também uma aprendizagem ao longo da qual os homens se iniciavam na arte de persuadir; o item a define como uma teoria da fala eficaz e uma arte de persuadir, suprimindo a aprendizagem e promovendo o objeto a definição. Defesa: reconstrua a definição completa e confira parte por parte.

Inventar a causa — quase um em cada cinco errados. O item toma dois conteúdos verdadeiros e os amarra com um conector causal que o texto não tem: em razão de, devido a, o que levou a, como fruto de, é consequência de. O texto diz que pouco pode ser comprovado sobre a Pré-História, o que nos deixa com algumas hipóteses, e o item afirma que as poucas hipóteses são consequência da profusão de especulações — dois efeitos da mesma causa, transformados em causa e efeito um do outro. Fabiano pagou imposto e multa, e o item fala em proibição legal da criação de porcos. Nise era contrária ao eletrochoque, e o item diz que ele deixou de ser usado no Brasil em razão do trabalho dela. Marcadores de causa em item de inferência aparecem quase três vezes mais nos itens errados do que nos certos. Defesa: exija a frase causal. Se o texto apenas justapõe, a causa é do item.

Um caso especial, e barato de detectar: a causa que vem depois do efeito. O narrador volta para casa, não consegue sair à tarde por falta de energia, e a febre retorna à noitinha; o item atribui o plano frustrado ao retorno da febre. Em relato cronológico, marque a hora de cada fato.

Radicalizar o quantificador — um em cada seis errados. Todos, apenas, somente, totalmente, quaisquer, sempre, exclusivamente, suficiente, irrestrita: esses termos aparecem em quase três vezes mais itens errados do que certos. A frase que os derruba costuma estar a dois períodos de distância. A ciência prospera com seus erros, eliminando-os um a um derruba só prospera quando elimina todos os erros. Cochilar em excesso também pode ser prejudicial derruba não havendo quaisquer contraindicações. Fabiano, que tenta enganar o cobrador e depois vende a carne escondido em outra rua, derruba totalmente submisso e resignado. A narradora que lera Freyre derruba total desconhecimento da cultura do Nordeste. Defesa: diante de quantificador extremo, procure um contraexemplo, não uma confirmação.

Vale o inverso, e é onde se perde item C por excesso de desconfiança: quando o próprio item traz alguns, pode, possivelmente, em geral, ele está pedindo muito pouco, e quase sempre o texto concede. Cochilos curtos podem ser benéficos para uma parcela da população é C; o uso da IA pode ter implicações econômicas é C.

Inverter a direção — um em cada seis errados. Vale para causa, para ordem cronológica, para hierarquia e para condição. O texto diz que o raciocínio linear decorre do fato de os fenômenos perceptíveis serem lineares, e o item afirma que a percepção humana é determinada pelo modo como o indivíduo pensa. O Comentário Geral n.º 15 condiciona o direito à água à proteção dos ecossistemas, e o item condiciona a proteção dos ecossistemas à garantia do direito. Drever foi arbitrariamente designado supervisor, e o item diz que ele escolheu a orientanda. As cópias do Acta Diurna iam para partes distantes do Império, e o item fala em governadores de locais próximos. Defesa: em item com condicionar, depender, preceder ou determinar, escreva a seta do texto antes de ler a seta do item.

Esticar o escopo e trocar o agente — juntos, um quarto dos errados. O escopo estoura quando o item ignora a delimitação que o texto impôs: capital é covardia, ora exclui as capitais da comparação, e o item compara Cachoeiro a qualquer capital brasileira; a maternidade dificulta a carreira das mulheres mas não dos homens, e o item fala em prejuízo para ambos; o texto descreve o sistema eleitoral do Império, e o item o estende sem interrupções até hoje. Já o agente troca quando a ação permanece e o sujeito muda: a primeira transmissão transatlântica foi de Marconi, não de Tesla; quem retorna à vocação primeira da retórica são as reflexões, não a retórica; quem foi transformado pela canalização foi a configuração arquitetônica da casa, não o aparelhamento técnico; quem se omitia, no texto de 1915, era o governo, e não as autoridades do estado do Rio de Janeiro, que o texto nunca nomeia.

Duas variantes do escopo que aparecem com regularidade e merecem nome próprio:

A crítica que o item enxerga e o texto não faz. Diagnosticar um problema não é acusar alguém por ele. O texto constata o déficit de letramento digital e lista suas consequências; o item afirma que ali está implícita uma crítica às instituições de ensino. A fórmula está implícita uma crítica a é de altíssimo risco: procure no texto o responsável nomeado.

A reputação que o item atribui. Famoso, notório, reconhecido, considerado: são avaliações externas que o texto quase nunca faz. Constatar a desigualdade de acesso à Internet no Brasil não é dizer que o Brasil é famoso por ela.

O que fazer quando o texto não permite concluir. Há item cuja resposta certa é justamente a insuficiência — as informações do fragmento são insuficientes para se inferir de onde Rubião teria descido é C. Não force a leitura para preencher o vazio: se a informação exigida não está no recorte, afirmar que ela falta é a leitura correta.

Erros clássicos

Tratar infere-se como aviso de perigo. É a intuição mais cara deste tópico. A medição diz que o verbo do enunciado não correlaciona com o gabarito.

Procurar as palavras do item no texto. A paráfrase fiel quase nunca repete o vocabulário. Compare proposições, não palavras.

Parar de ler no meio do período. A ressalva vem depois: mas não dos homens, embora não sejam uma panaceia, mas isso não é oficial, inclusive dos considerados não saudáveis. Quem julga pela primeira metade erra os dois lados.

Ler diversos como muitos. Estilos diversos daqueles que adotamos é diferentes, não mais variados.

Achar que o autor condena o que descreve. Narrar uma transformação histórica não é reprová-la; chamar Descartes de reducionista e de autor de uma análise mecânica da mente humana, no contexto em que o texto o defende de seus críticos, é elogio.

Aceitar como fato o que a fonte citada relativizou. A história conta que foi porque era mulher. Mas isso não é oficial. Quando quem fala põe a ressalva, o item que a suprime está errado.

Confundir participar com iniciar, opor-se com extinguir, afastar-se com estar impedido. Três pares em que a banca troca o verbo e mantém todo o resto.

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