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Parônimos e homônimos: mas/mais, há/a, onde/aonde, senão/se não, mal/mau
É o único tópico de vocabulário em que a classe gramatical e a regência decidem mais itens que o significado — e em que a troca proposta pela banca é quase sempre Errada: oito de nove.
Altíssima9 itens no tópico
A ideia que organiza o assunto
Parônimos são palavras parecidas na forma e diferentes no sentido (apreender e aprender); homônimos são palavras iguais na forma e diferentes no sentido e na origem (há verbo e a preposição). A banca explora as duas coisas do mesmo jeito: propõe trocar uma pela outra e promete que nada se perde. Em 9 itens, 8 são Errado. Dos 6 que propõem substituição explícita, 6 são Errado. Este é o tópico em que a resposta padrão é a recusa.
Mas a razão da recusa não é a que se espera. Em Vocabulário em contexto, seis de seis itens de substituição errados quebram no valor semântico e nenhum na regência, e a orientação que de lá se tira é sentido primeiro, construção depois, regência apenas para confirmar. Aqui essa ordem se inverte. Dos oito itens errados:
- quatro quebram na classe gramatical — há (verbo) por a (artigo ou preposição), duas vezes; senão (advérbio de exclusão) por se não (conjunção + negação); mal (advérbio) tomado por adjetivo;
- um quebra na regência — aonde por onde, com o verbo ir, que exige a preposição;
- dois quebram no sentido — apreender por aprender; e o de procedida por precedida, que cai por não haver a alteração de sentido que o item anuncia;
- um é de classificação constitucional — outorgada por promulgada.
Ou seja: cinco dos oito se resolvem antes de qualquer discussão de significado, só perguntando de que classe é a palavra e de que preposição o verbo precisa. É a varredura mais barata da prova e, neste tópico, a mais produtiva. Classe e regência primeiro; sentido depois.
E há uma segunda razão para a inversão. Parônimo é o único caso em que a memória decide de fato: não há contexto que ensine, no momento da prova, se diuturno é diurno ou contínuo. Por isso a seção seguinte é uma tabela de pares com o teste que separa cada um — não porque seja bonito decorar, mas porque não há alternativa. Nos outros tópicos de vocabulário, o texto quase sempre glosa a palavra uma oração adiante; aqui o texto não ajuda, porque a palavra concorrente nem sequer está nele.
Como funciona
A troca é proposta, não afirmada — e é isso que a torna verificável. O enunciado típico é o vocábulo X poderia ser substituído por Y, sem prejuízo da correção gramatical. Escreva a frase com Y e leia-a como se fosse texto de prova, procurando erro de gramática antes de erro de sentido. É assim que caem no período de 1990 há 1991 (um verbo onde a preposição é obrigatória), ou a reunião para discutir os estatutos (a oração perde o predicado) e senão em perspectiva restrita escrito se não (a condicional fica sem verbo).
Classe gramatical. O par há × a é o caso-modelo e caiu duas vezes. Há é sempre forma do verbo haver e admite troca por existe ou por faz; a é artigo ou preposição e nunca sustenta sozinho uma oração. Nas indicações de tempo, há marca tempo decorrido (há dois anos), e a marca distância ou intervalo (daqui a dois anos, de 1990 a 1991). O par mal × mau se resolve por dois testes independentes: mal opõe-se a bem e mau a bom; e, se a palavra flexiona em gênero com o substantivo (má), é adjetivo. Diante de particípio — mal chamada, mal escrito — é sempre advérbio. E senão junto vale por a não ser, exceto ou do contrário, enquanto se não separado só existe se houver verbo depois, porque é conjunção condicional mais negação.
Regência. Onde indica permanência e serve a estar, morar, ficar; aonde é a fusão de a com onde e só cabe com verbo que peça a preposição a — ir, chegar, dirigir-se, levar. Em Ninguém sabe ao certo aonde ia, o verbo é ir: a preposição é exigida e a troca por onde deixaria o verbo sem o complemento que sua regência impõe. É o único ponto dos três tópicos de vocabulário em que a regência derruba um item sozinha.
Sentido. Quando a diferença é só semântica, o texto costuma repetir a ideia do radical em português corrente, e é aí que se acha a confirmação. Apreender é captar, assimilar, tomar para si; aprender é adquirir conhecimento por estudo. O texto que diz o homem poderá apreender os temas e tarefas de sua época já havia escrito, no parágrafo anterior, que ele se apropria de seus temas — e apropriar-se confirma apreender e exclui aprender. Separe pelo radical, confirme pelo tema do parágrafo.
E o parônimo nem sempre é erro. Um dos nove itens é Certo justamente porque o contexto faz os dois convergirem: implicâncias, que na língua comum é birra e antipatia, é também o substantivo do verbo implicar, e é essa acepção que o período seleciona — traz implicâncias de várias searas ao ordenamento jurídico, isto é, desdobramentos, implicações. Antes de recusar automaticamente, veja se há uma acepção compartilhada que o contexto selecione.
Cuidado com a concessão. O item que propõe procedida mediante por precedida de promete manter a correção e a coerência embora alterasse seu sentido — e é Errado. A regra aprendida em Reescrita, de que o item que admite uma perda costuma ser Certo, não dispensa a verificação da própria perda. Ali o texto já dizia que o mandado deve ser deferido, antes da execução, por um juiz imparcial: a coleta feita mediante mandado é a coleta precedida de mandado, e a alteração anunciada não acontece. A concessão também é uma afirmação.
O que decide os itens
Os pares que já caíram neste tópico
| par | diferença | teste que separa | |
|---|---|---|---|
| há × a | verbo haver × artigo/preposição | troque por existe ou faz; tempo decorrido pede há | E, 2 vezes |
| aonde × onde | com × sem preposição a | o verbo é de movimento (ir, chegar)? então aonde | E |
| senão × se não | a não ser, exceto × condicional negativa | tem verbo depois? então separado | E |
| mal × mau | advérbio × adjetivo | mal/bem, mau/bom; flexiona em má? é adjetivo | E |
| apreender × aprender | captar, assimilar × adquirir saber | o objeto é matéria de estudo? então aprender | E |
| procedida × precedida | realizada por meio de × antecedida de | o texto exige anterioridade? então convergem | E |
| implicância × implicação | birra × consequência | o que se traz a algo é consequência | C |
| outorgada × promulgada | imposta × feita por constituinte eleita | houve assembleia eleita? então promulgada | E |
Pares vizinhos que a banca usa nos mesmos concursos — a mesma lógica, o mesmo teste.
| par | diferença | teste |
|---|---|---|
| a princípio × em princípio | no começo × teoricamente | cabe inicialmente ou em tese? |
| ao encontro de × de encontro a | a favor × contra | há choque ou adesão? |
| ao máximo × no máximo | intensidade × limite | cabe quando muito? então no máximo |
| ratificar × retificar | confirmar × corrigir | houve erro a corrigir? |
| tráfego × tráfico | circulação × comércio ilícito | é de veículos ou de mercadoria proibida? |
| eminente × iminente | notável × prestes a ocorrer | qualifica pessoa ou evento? |
| descriminar × discriminar | tirar do crime × distinguir/segregar | cabe separar? então discriminar |
| infringir × infligir | violar × impor (pena, dano) | infringe-se norma; inflige-se castigo |
| comprimento × cumprimento | extensão × saudação ou execução | mede-se ou executa-se? |
| despensa × dispensa | local de mantimentos × ato de liberar | é lugar? então despensa |
| deferir × diferir | conceder × adiar ou divergir | cabe conceder? então deferir |
| emergir × imergir | vir à tona × mergulhar | sai ou entra? |
| flagrante × fragrante | evidente, em flagrante × perfumado | cabe cheiroso? |
| iminência × eminência | proximidade × grandeza, dignidade | cabe prestes a? |
| mandado × mandato | ordem judicial × período de exercício | é papel ou é prazo? |
| sessão × seção × cessão | reunião × repartição × ato de ceder | reúne-se, divide-se ou entrega-se? |
| a fim de × afim | finalidade × semelhante | cabe para? então separado |
| onde × que | lugar × qualquer referente | só use onde para lugar físico |
| por que × porque × porquê × por quê | pergunta × resposta × substantivo × final de frase | teste com por qual razão e pois |
Homônimos que mudam de classe — é aqui que o item se decide por gramática.
| forma | classes possíveis | consequência |
|---|---|---|
| há | verbo haver (impessoal) | traz predicado próprio; indica existência ou tempo decorrido |
| a | artigo, preposição, pronome oblíquo | não sustenta oração; pode receber crase |
| senão | advérbio/conjunção de exclusão | equivale a exceto, a não ser, do contrário |
| se não | conjunção + advérbio de negação | exige verbo na sequência |
| mal | advérbio (invariável) | modifica verbo, particípio ou adjetivo |
| mau | adjetivo (flexiona: má) | modifica substantivo |
| aonde | preposição a + onde | exigido por verbo de movimento |
| onde | advérbio/pronome relativo de lugar | verbo de permanência |
Como a CEBRASPE derruba você aqui
Primeiro: a promessa integral sobre um par que não se troca. Seis substituições propostas, seis Errados. A forma do enunciado é sempre generosa — sem prejuízo da correção gramatical e da coerência, preservaria os sentidos do texto, seriam preservados a correção gramatical e o sentido. Neste tópico, promessa integral sobre parônimo é sinal forte de item Errado, e o trabalho é apenas localizar onde ela arrebenta.
Segundo: a classe gramatical, que arrebenta antes do sentido. Quatro dos oito errados. Há trocado por a retira o verbo da oração; senão escrito separado exige um verbo que não existe; mal diante de particípio não pode ser adjetivo. Faça essa varredura primeiro, do mesmo modo como se procura a crase impossível em Reescrita: custa dois segundos e encerra o item.
Terceiro: a regência do verbo. Aonde × onde é o par em que a preposição manda. Localize o verbo antes de olhar a palavra: ir, chegar, dirigir-se e levar pedem a; estar, morar e ficar não pedem.
Quarto: a justificativa que prova o contrário. O item constitucional afirma que a Constituição de 1988 é outorgada porque o povo não participou senão mediante representantes eleitos — e participação por representantes eleitos é exatamente a definição de constituição promulgada. Sempre que o enunciado anexar a própria razão depois de uma vez que, já que ou visto que, leia a razão primeiro: ela costuma descrever o conceito oposto ao que o item nomeia.
Duas notas contra automatismos. A primeira: parônimo não é sempre erro. Um dos nove itens é Certo porque o contexto seleciona a acepção que as duas palavras partilham (implicâncias por implicações). Antes de recusar, procure essa acepção comum. A segunda: a concessão não salva o item. Manteria a correção e a coerência, embora alterasse seu sentido é Errado quando o sentido não muda — e no texto em questão ele não muda, porque o próprio parágrafo já garantia a anterioridade do mandado. Verifique a perda anunciada como verificaria qualquer afirmação.
Erros clássicos
Procurar o sentido primeiro. É a ordem certa nos outros tópicos de vocabulário e a ordem errada aqui: cinco dos oito itens errados se resolvem por classe ou regência, sem discutir significado.
Trocar há por a em indicação de tempo. Há dois anos (decorrido) × daqui a dois anos (futuro) × de 1990 a 1991 (intervalo). Há é verbo e sempre olha para trás.
Escrever se não onde cabe exceto. A forma separada é condicional e exige verbo. Se a frase segue com um sintagma, é senão.
Tomar mal por adjetivo diante de particípio. Mal chamada, mal interpretado, mal visto — advérbio, sempre. O adjetivo seria má, e a flexão denuncia.
Usar onde com verbo de movimento. Ir aonde, chegar aonde. E não usar onde para o que não é lugar físico.
Confundir apreender com aprender. Apreende-se um sentido, um conceito, uma realidade; aprende-se uma matéria. No texto, procure o verbo que reformula o da questão.
Recusar o parônimo por reflexo. Quando o contexto seleciona a acepção comum às duas palavras, a troca é aceita — como em implicâncias por implicações.
Confiar na concessão. Embora alterasse o sentido é uma afirmação, não uma ressalva inofensiva: se a alteração não ocorre, o item cai por ela.
LidoPraticado